terça-feira, 23 de setembro de 2014

Coisas perdidas em casa

Eu tenho pensado sobre como as coisas desaparecem dentro de nossas próprias casas.

Isso não deveria ser surpresa para ninguém, nem motivo de muita preocupação séria por parte de gente que não tem muito tempo a perder com as trivialidades da vida, mas mesmo assim, eu tenho pensado no assunto.

Aonde foi parar aquele objeto que você sabe que tem, que até viu um dia desses por acaso procurando uma segunda coisa desaparecida (que por sinal você também não achou) e que não se lembra mais onde foi que o viu?

Você procura A, encontra B, mas não A. Depois de alguns meses, resolve procurar B, não o encontra, nem encontra A, mas encontra C, que não está procurando, mas que irá procurar mais no futuro, e também não achará.

As coisas vão desaparecendo em sucessão misteriosa e agonizante.

Temos muitos milhares de pequenos objetos em casa. Duvida?

Comece a contá-los. Todos.

Sim, eles são milhares.

Um objeto pode parecer banal e sua perda ou ausência pode ter pouco impacto em nossas vidas, mas não podemos ignorar que objetos em geral cumprem certas funções para as quais eles passaram a existir, e suas ausências deixam um pequeno buraco negro em nossas rotinas de vida, queiramos ou não.

Como justificar um pé de meia sem o seu companheiro, desaparecido?

As coisas não vão parar dentro de nossas casas por acaso. Nós a levamos com uma intenção em mente.

Vá a uma loja de R$1,99 e veja como é fácil entulhar a casa de bugigangas, das menores, como pequenos parafusos e clipes, até grandes e incômodas, como bolas de ginástica e até mesmo esteiras de corrida.

Não levamos coisas para casa à toa, pode ter certeza.

E então, as colocamos de lado e esperamos um dia com tempo livre para podermos brincar com esses objetos, um dia que pode ser daqui a um mês, um ano ou uma década.

Mas, então, cadê a bugiganga?

O que afinal acontece com eles, os objetos que nunca mais encontramos? Haverá um duende brincalhão que esconde ou rouba nossos objetos esquecidos e depois buscados somente para rir diante de nossa frustração e de nossas mãos empoeiradas?

Creio que não.

Acho que é uma questão de organização.

Se você mora na mesma casa a décadas, está mais que familiarizado com cada fresta que há nela. Dificilmente um objeto passará desapercebido, exceto...

Exceto se você for desorganizado. Neste caso, quanto mais tempo morando em uma casa, maior tende a ser a bagunça.

No entanto, se se é organizado, cada coisa terá seu lugar, e haverá um lugar para cada coisa, e mesmo que se tenha muitos milhares de coisinhas em cada canto, inevitavelmente logo se terá um mapa mental com a localização de cada uma delas.

Mas, é muito difícil morar décadas na mesma casa.

E é ainda mais difícil montar um mapa mental de milhares de objetos em pouco tempo. Quer dizer, antes morava-se numa casa A e tinha-se uma certa organização, e um mapa mental A foi se formando ao longo do tempo. Mas, muda-se para uma casa B, que tem uma configuração física diferente, e os milhares de objetos são empacotados, desempacotados e armazenados em uma configuração tal que o velho mapa mental A não vale mais nada. Começa-se um mapa mental B, e ele vai sendo construído lentamente ao longo dos meses. Depois de dois ou três anos, ele está quase completo, exceto se você souber que dentro em breve terá de mudar novamente. Ora, por que se dar ao trabalho mental de saber onde se encontra 2.000 objetos que quase nunca usamos se precisamos saber a localização de apenas uns 200 objetos que usamos diariamente? Por que se preocupar com objetos que não iremos usar? Eles irão para um canto da casa assim que saem das caixas de mudanças, e ficam onde foram originalmente desembalados. Se não precisamos deles, e ainda por cima, iremos mudar dentro de mais dois ou três anos, por que se preocupar com eles?

Esses milhares de objetos que quase nunca usamos entram em um limbo mental, uma área cinza sem um mapa. Somente quando precisamos de um deles é que lembramos, primeiro, que o temos, e que não precisamos comprar outro, e segundo, que ele está em algum lugar naquele armário, em uma caixa verde que você usa para guardar botões e lâmpadas queimadas, mas que podem ser úteis para se fazer algum artesanato.

Só que não está. O objeto não está onde deveria estar, na caixa verde empoeirada, cheia de cacos de lâmpadas quebradas, que poderiam servir para se fazer enfeites, mas que agora são apenas pontas de vidros afiadíssimos, com aquele pó branco que, segundo a lenda urbana, caso venha a cair em uma ferida provocada por um caco desses, fará com que esta jamais venha a cicatrizar-se, numa espécie de pesadelo hospitalar inimaginável. A caixa verde não guarda o que você procura, está toda empoeirada, e o que você não procura se transformou de objetos inocentes em armas mortais prontas para lhe pregar em um dos dedos de surpresa.

Quem tirou de dentro da caixa verde o objeto que estava lá?

Ninguém.

Todos negam ter tirado o objeto, embora confirmem que o conhecem e que ele deveria mesmo estar lá.

Foi então obra de um duende?

Certamente não.

Você provavelmente o achará daqui a dez anos, na sua décima oitava mudança, quando resolver que já é hora de jogar fora, antes da mudança, aqueles malditos cacos de lâmpadas mortais.

O objeto estará lá, entremeio aos cacos, zombando de você.

Agora, pergunto a mim mesmo: onde foram parar as minhas chaves de precisão, que sei que tenho, mas que não acho de jeito nenhum? E aquele envelope enorme com a radiografia de meu crânio, que guardei para o caso de vir a ficar louco um dia desses? E mais: cadê o mini-teclado de meu handheld que nunca funcionou, mas que era parte dele e que não era para ser jogado fora de maneira nenhuma, embora que inútil?

Não sei.

Um dia, achá-los-ei.

Na próxima mudança?

Quem sabe?

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