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quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

A borboleta, o mercenário e a noite

Quando nasce uma borboleta? Ela nasce quando sua mãe a põe em forma de ovo ou somente quando rompe seu casulo de seda e estende suas asas para o ar que a acolherá para sempre, enquanto viver?

Um ovo de borboleta é o mesmo que uma borboleta?

Parece que não.

Parece que a existência de uma borboleta se dá quando ela passa a ser aquilo que em geral o são as borboletas: insetos com pares de asas das mais variadas formas e coloridas dos mais variados matizes, que voam belamente entre flores e folhas, e que nos encantam, inofensivas e frágeis.

Uma borboleta não se confunde com um ovo ou com uma lagarta.

E quando nasce um homem?

Ele nasce quando vem ao mundo, no seu nascimento formal, quando deixa a placenta de sua mãe no hospital, ou somente nasce quando se faz senhor da cultura de um povo, quando sai da puberdade e se adentra na sociedade dita produtiva e civilizada?

Mas tenho pensado que há algo no homem que lhe é único assim como há coisas nas borboletas que as fazem únicas e diferentes das larvas e dos ovos, que as precedem.

Em que um homem se diferencia de um chimpanzé ou de um gorila, ou mesmo de uma vaca em um pasto de um campo qualquer?

Muitos dirão que somos superiores, e de fato em certo sentido somos. Mas há um sentido em que somos apenas um pouco diferentes desses animais.

Do ponto de vista biológico, somos muitos semelhantes. Somos apenas mais uma variedade de primatas, e isso não significa vantagem, superioridade ou um grande abismo nos separando.

Do ponto de vista antropológico, somos realmente muito diferentes, porque temos cultura, e acumulamos conhecimento adquirido do passado por nossos ancestrais, o que nos ajuda a viver melhor do que viveríamos sem esse conhecimento.

Mas, animais não vivem ou mesmo pensam?

Não sabemos se pensam, mas vivem muito bem sem cultura. O que é a cultura exatamente?

Não precisamos definir cultura. Basta que tenhamos um exemplo para podermos ver as vantagens dela em nossas vidas: quando faço uma salada de alface, uso muita tecnologia até colocar a primeira folha em minha boca. Um macaco também pode comer uma folha de alface tal qual eu como, mas ele não tem como chegar à salada como nós humanos chegamos. Eles, os macacos, não se aprimoram em virtude do esforço de pensar sobre problemas que enfrentam. Se enfrentam problemas, possuem capacidade limitada de solucioná-los da maneira que nós humanos fazemos.

Mas, quando digo "nós, humanos" estou sendo generoso com a espécie. Na prática, a grande massa de seres humanos não soluciona quase nada. A grande maioria dos seres humanos simplesmente desfruta de soluções já disponibilizadas por um pequeno grupo de outros seres humanos que se deram ao trabalho real de enfrentar o problema e dar uma solução.

Todos os seres humanos são dotados de cérebros capazes de resolver problemas quase infinitos, mas em geral raramente se dão ao trabalho de fazê-lo.

O psicólogo austríaco Sigmund Freud analisou essa característica humana para evitar problemas e seguir o caminho mais fácil. Ele denominou essa tendência de Princípio do Prazer. Esse nome por si só já diz quase tudo. E mais: é um princípio quase universal na natureza, dentre os seres vivos.

Ninguém quer enfrentar problemas. Por que enfrentar o difícil se podemos ter o que desejamos pelo caminho mais fácil?

Assim, ao longo dos séculos, algumas centenas de seres humanos foram criando soluções para problemas humanos gerais de maneira que hoje a grande maioria das pessoas encontra-se em um modo de vida tal que podemos compará-lo ao da larva da borboleta. Elas vivem apenas como se fossem seres em um estágio para algo mais avançado, uma etapa não tão glamourosa quando ao da borboleta, mas necessária e real.

A maioria dos problemas humanos só pode ser solucionada mediante cooperação. Quase não há necessidade moderna que possa ser solucionada pelo próprio indivíduo. Fazemos as coisas das quais precisamos por meio de empreendimentos coletivos. Há organizações para tudo, e quase nada é feito fora de organizações.

Nas organizações, há a famosa "especialização do trabalho", tão bem relatada pelo economista Adam Smith, o pioneiro da ciência econômica. Nas organizações, os homens fazem apenas aquilo que precisa ser feito, e nada mais. E não precisa aprender mais nada além do que já sabe. Ele passa a ser uma peça de uma engrenagem.

É o homem livre para não ser uma peça dessa enorme maquinaria fria e indiferente à sua individualidade e sensibilidade?

É.

Ninguém precisa ser um empregado. Qualquer ser humano pode fazer o que quiser.

No entanto, pagará um preço alto pela sua liberdade ou independência: não desfrutará das facilidades que o resto da humanidade dispõe. O preço da rebeldia é a miséria.

Ainda assim, ninguém obriga ninguém a ser uma peça de uma engrenagem fria e insensível.

Logo, quem o faz, o faz livremente. Logo, é como um mercenário, um soldado profissional que vende seus serviços a uma causa que não lhe diz respeito, que não o motiva, nem o impulsiona. Luta apenas pelo dinheiro, e nada mais.

Se vende-se por dinheiro, para ter os benefícios materiais de um mundo egoísta, o homem moderno, agora um mercenário, nem por isso deixa de ser uma larva, uma lagarta que apenas usufrui das soluções que outros se deram ao trabalho de resolver.

Então, se bilhões e bilhões de humanos não são de fato humanos, mas apenas larvas mercenárias fazendo trabalho especializado em organizações em troca de dinheiro para pagar seus pequenos prazeres mundanos sem usar de fato seus poderosos cérebros para resolver problemas importantes, quem são os verdadeiros humanos?

Se o que define o homem é sua capacidade de pensar e resolver problemas, e biologicamente quase todos os seres humanos nascem com cérebros perfeitos e capazes de dar soluções para muitos tipos de problemas, por que todos esses seres humanos mentalmente perfeitos não são de fato humanos?

Há, entre os infinitos problemas que enfrentamos, duas categorias que podem ser definidas como sendo problemas do indivíduo e os problemas da espécie.

Trocar o pneu furado do carro é um problema para o indivíduo que terá que fazer o trabalho, mas não significa nada em termos tecnológicos, científicos e evolucionários. O pneu furado é parte de um processo maior de locomoção que sob o ponto de vista da espécie, poderia ser descartado se alguém, por exemplo, inventasse carros que flutuassem ou, melhor, inventasse um mecanismo seguro de teletransporte.

Temos milhões de pessoas reclamando de seus pneus furados, mas apenas algumas centenas delas realmente empenhadas em pensar o teletransporte.

Quem está realmente usando seus bilhões de neurônios tal como uma borboleta usa suas lindas asas? Os bilhões de seres mentalmente preguiçosos que optam pelo "princípio do prazer" ou o pensador solitário que se debruça nas madrugadas sobre coisas ditas impossíveis, impraticáveis ou irrealizáveis?

Lamentamos não termos tempo para nos preocuparmos com esses problemas maiores. Afinal, somos pobres mortais. Além do mais, para enfrentá-los é preciso talento, dom, genialidade, determinação, investimento de tempo, esforço mental e abnegação dos prazeres mundanos da vida dos quais não estamos dispostos a abrir mão. Além do mais, há organizações especialmente desenhadas para isso, para resolver esses problemas mais espinhosos, como a NASA, os laboratórios sofisticados das universidades, dos governos, das grandes empresas, os aceleradores de partículas que fazem coisas que sequer imaginamos.

Por que pensar nessas coisas complicadas e incompreensíveis?

A vida é curta e os prazeres mundanos são sedutores demais para que os deixemos de lado pelo trabalho de resolver problemas que de fato não são nossos, mas de gerações futuras que não sabemos se existirão.

E assim, vivemos nossas vidas de larvas.

Mas, então, um dia, uma noite, na verdade, olhamos com assombro para o vasto oceano de estrelas e nos perguntamos mesmo se aquilo tudo existe ou é apenas uma espécie de miragem colada no firmamento, como um cenário falso criado por algum deus brincalhão e de mau gosto para nos fazer de bobos.

O céu infinito, se for mesmo verdade, inquerimos, se for mesmo coalhado de planetas e estrelas e mundos sem vida e com vida, se esse céu for mesmo esse mistério que nos dizem os astrônomos, se ele permitir mesmo tantas possibilidades e promessas, não seria essa abundância infinita a solução para todos os nossos mais mundanos e corriqueiros problemas?

Há nele a resposta para tudo.

O que é a morte física de nossos corpos para civilizações muitíssimo mais avançadas que a nossa?

Poderíamos ser eternos, se tivéssemos acesso à essa fonte inesgotável de recursos e conhecimento.

Mas, então, é tarde, o sono chega, o lugar é escuro, faz um pouco de frio e precisamos dormir, porque amanhã há muito o que fazer: há uma reunião às nove da manhã, imperdível, e astronomia é assunto fora de cogitação.

Lagartas que somos, vamos dormir. 

Deixamos os problemas do cosmo e da eternidade para serem solucionados pelos humanos, que são borboletas.

A nós, larvas mercenárias, só interessa o comer da próxima refeição.

E, no entanto, somos definitivamente livres.

Como entender que nos recusemos a ser humanos?

Como entender que pareça mais prazeroso ser uma larva que uma borboleta?

sábado, 20 de dezembro de 2014

Um provérbio africano

Há um provérbio africano que diz:

"Toda manhã na África, a gazela acorda. Ela sabe que precisa correr mais rápido que o mais rápido dos leões para sobreviver. Toda manhã um leão acorda. Ele sabe que precisa correr mais rápido que a mais lenta das gazelas senão morrerá de fome.

Não importa se você e um leão ou uma gazela. Quando o sol nascer, comece a correr."

Há mais sabedoria nesse provérbio do que supõe alguns ditos dos mais sábios filósofos. Ele servirá de base para a análise de um tópico que considero que preciso fundamentar melhor em minha mente. Dado que o tema é vasto e espinhoso, o farei aqui, por escrito.

Aguarde.

Aliás, corra.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

As histórias de nossas vidas...

Eu disse certa vez aqui neste blog que as histórias de nossas vidas são garantias de nossa eternidade.

Mas elas não são.

Nossas histórias de vida, ou as histórias de nossas vidas, não fazem de nós eternos. Não no sentido como entendemos a eternidade de nossa consciência ou de nossa alma.

Eternidade de nossos corpos físicos é coisa fora de qualquer cogitação.

Mas, nossas almas sem um corpo não é algo que possamos cogitar também.

Então, sem um corpo, sem uma alma imaginável, o que de nós será de fato possível de se eternizar?

Creio que somente nossas histórias podem ser perpetuadas ao longo do tempo por meio de outras pessoas.

Somos rodeados de pessoas. Nós podemos desaparecer, mas continuar existindo nas memórias das pessoas que sobrevivem depois de nosso fim.

Não somos nós de fato que permanecemos. São as lembranças que as pessoas têm de nós que permanecem como se ainda estivéssemos por aqui, neste mundo material.

Somos fragmentados pedaços de lembranças esparramados por diferentes mentes, em diferentes lugares. Um quebra-cabeças que jamais se juntará por inteiro, porque há peças que jamais foram feitas. Há coisas que morrem conosco, que ninguém mais sabe, nem viu, mas que foram coisas importantes para nós, partes de nós significativas, peças deste quebra-cabeças sem os quais a imagem geral jamais é completa, ou sequer mesmo perceptível.

Mas, as pessoas que sobrevivem a nós também passam. E em poucas décadas, pouquíssimas gerações, não há mais peças.

Somos um desenho na areia.

Dói aceitar isso.

Escrever, no entanto, é um espasmo de esperança. Tal como um peixe fora d'água que saltita em um último esforço buscando voltar ao seu meio vital, nos esforçamos por meio de nossas obras, de nossas realizações, de nossas palavras, numa tentativa muito desesperada e irracional de permanecermos, apesar de nossa partida.

Nos empenhamos nisso com muita firmeza, com muita convicção, embora que sem muita consciência.

Nossos códigos genéticos podem perdurar em nossos filhos. Nosso senso estético pode perdurar numa sinfonia ou numa pintura, como perdura Mozart, Beethoven e Da Vinci. Mas não somos capazes de tão grandes realizações em uma tão curta vida.

Tenho 44 anos e faço incontáveis balanços em busca de alguma pepita perdurável. Sacolejo nos meus restos. Esmiúço meu lixo, meu legado de anos imprestáveis, anos desmanchados pela rotina, pela pequenez, pela sensatez e pela timidez que corrói as vidas como um ácido corrói uma vela.

As histórias de nossas vidas perder-se-ão no tempo. Nossos descendentes saberão o que foi um arquivo MP3, mas não quem o inventou. Pessoas passarão. Coisas, talvez. Haverá certamente os museus para elas, as coisas que causaram algum impacto em seu devido tempo. Para as pessoas, ficarão as lápides frias, com seus nomes incógnitos ao lado de datas sem sentido.

Aos 44 anos, não tenho forças para nada. Dizem os cientistas que começamos a envelhecer aos 27 anos. Logo, são já 17 anos de velhice em ritmo que se acentua em escala geométrica. Logo, serei senil. Logo, digo, dentro de mais 25 anos.

O que são 25 anos?

São muito, mas não são nada.

Minhas listas de coisas a fazer continuam cheias de coisas a serem feitas. E, aos 44 anos, parece que junto com a velhice é-nos dada uma certa coragem que nos permite, nos força mesmo a fazer o que vínhamos adiando por qualquer motivo que imaginássemos inventar. É preciso atacar a vida com a coragem dos ratos acuados, porque não há mais nada a perder. O conforto da segurança no seio do amontoado de anos de placidez e procrastinação não consola.

Não a mim.

Eu sei. Aos 44 pode-se ainda muito.


Mas não tanto.

Deus, dai-me a coragem para fazer da minha vida o que sonhei que ela fosse, ou para fazer dela o que Queres.

Entrego a um ser maior as minhas fragilidades.

Não, eu não creio por covardia.

Fala-me Ele por música, fala-me Ele por sons, em um código que é ininteligível a outros. Só a mim fala Ele da maneira que ninguém mais entende. E se Ele fala a outros, é-me ininteligível.

Quão misteriosas são as guinadas em nossas vidas.

Ao menos eu vejo guinadas onde outros podem ver um caminho plano ou um ser estacado, sequer se movendo rumo ao que quer que seja. Não importa. Eu s-i-n-t-o as guinadas. Logo, elas existem.

Por vezes é como se eu mesmo me conduzisse. Por vezes, é como se uma mão me conduzisse, e eu suponho seja Dele essa mão que me conduz.

Não, eu não creio por covardia ou preguiça.

As histórias de nossas vidas podem ser as garantias de nossas eternidades. A mão que me guia o faz por sons, e sigo a melodia de um Deus sonoro.

Enquanto percorro a trilha que já dura 44 anos, pergunto-me, confiante, se estaria eu deixando mais que o mero rastilho de lixo e passos obviamente vacilantes e erráticos na praia da existência humana.

Eu confio no que ouço.

Enquanto caminho, polvilho meus passos de letras.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

A importância das coisas em nossas vidas

Eu fico lendo este velho blog e penso no quão as coisas mudam ao longo dos anos, e, em especial, impressiono-me com o fato de que as coisas ganham ou perdem posições no ranking de importância em nossas vidas.

Na verdade, não há de fato um ranking. Há apenas um sentimento de que há coisas mais importantes e há coisas menos importantes.

Tomo por exemplo principal o próprio ato de escrever um blog.

Sempre gostei de escrever. Estou escrevendo agora. Fico incomodado quando não consigo postar alguma coisa neste blog e ele fica sem novas postagens por um tempo que considero relativamente longo. E fico nostálgico quando leio postagens antigas onde relato estar ouvindo tal música, tal cantor ou banda, ou estilo, e percebo que hoje não os ouço mais.

Escrever é importante para mim, mas não é mais prioritário. Ouvir música também não é mais prioritário. Certas coisas, certos afazeres novos surgiram de alguma forma em algum momento do tempo ao longo da existência deste blog e ganharam importância, embora eu não fale deles necessariamente.

O que é importante hoje? O que faço hoje que é mais importante que escrever?

Só como um exemplo, cito a leitura como uma atividade que tem sido tratada como prioritária. Eu já lia muito, mas agora, vejo o tempo despendido em ler como muito mais importante que o tempo que eu passaria escrevendo. Parece que, de alguma forma, escrever passou a ter menos importância. Escrever o quê? Para quem? E por quê? A troco de quê?

Escrevendo, não ganho nada. Lendo, ao menos aprendo alguma coisa. É o pragmatismo duro, seco, servindo de critério seletivo. E é preciso que eu seja pragmático. O tempo passado cobra seu tributo, e o tempo que resta faz com que eu pense mais acuradamente sobre o quanto me resta de anos e energia para fazer primeiro o mais importante. 

O dinheiro, sempre o dinheiro, vem em primeiro plano. Considerações econômicas prevalecem. Questões de saúde prevalecem. Questões de convivência familiar prevalecem. O lazer vai perdendo espaço. O trabalho ocupa a maior parte do dia e o cansaço noturno impede maiores esforços ou aspirações.

Envelhecer não é nada fácil. 

De qualquer forma, continuo escrevendo.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

A pirâmide do fracasso

Depois de um longo período de experiências com livros de autoajuda, quando tive a oportunidade e a motivação para colocar em prática de maneira disciplinada e metódica uma ampla variedade de conselhos, dicas, ensinamentos e modos de pensar sugeridos por pelo menos meia dúzia de renomados escritores do tema, acabei sendo envolto por uma nuvem de ceticismo e crítica.

Sempre supus que o problema com os livros de autoajuda se devia ao fato de que as pessoas simplesmente os leem como quem lê um romance, quando, na verdade, eles, os livros de autoajuda, deveriam ser estudados tal como o são os livros técnicos, e ter seus métodos aplicados na vida real, no dia a dia de quem se propõe  a estudá-los e deles pretendem tirarem algum proveito verdadeiro.

Eu lera livros de autoajuda entre 1990 e 1992, e depois os deixara de lado. Ora, eu era apenas mais um dos que simplesmente os lera como meros romances estimulantes, mas não práticos. Então, diante de um momento crítico de problemas pessoais, pareceu-me que a solução da situação crítica dependesse de um esforço pessoal mais sério, e assim, em 2001, resolvi que os livros de autoajuda até então lidos como romances deveriam ser lidos como livros de estudo, como manuais práticos a serem seguidos metódica e disciplinadamente.

Tomei de "A universidade do sucesso", de Og Mandino, e de "Como evitar preocupações e começar a viver", de Dale Carnegie, além de alguns outros livros de autores menos conhecidos, mas igualmente cheios de sugestões práticas e supostamente eficazes, e me dispus ao estudo.

Pois bem, o tempo foi passando, eu me mantive atento à disciplina recomendada por eles, os autores dos livros, mas, apesar da passagem do tempo e de todos os meus esforços disciplinados, nada aconteceu. Nada em minha vida mudou realmente.

Quanto tempo eu perseverei em minha disciplina de aprendiz?

Um ano?

Sim, no mínimo.

Um ano é um bom tempo. Não acho que se deva persistir em algo que não está dando certo por muito mais tempo que isso. Experiências precisam ser avaliadas em seus resultados ao longo do tempo e, neste caso, pareceu-me que um ano de experiência, ou um tempo próximo disto, já deveria ser suficiente.

Algo não estava saindo como os livros diziam que sairia.

Comecei a perceber certas coisas que os livros não ensinavam. Algo estava errado, mas mais especificamente, havia uma frase que eu tomara como verdadeira, e que agora, depois de constantemente pensar e trabalhar sobre ela, parecia-me não ser confirmada pelos fatos. Daí então, fui forçado a me dobrar aos fatos e passei a questioná-la. 

Em um processo de ensino, é de bom tom imaginar que o aluno sabe menos que o professor, e que se algo sai errado, em geral a culpa é do aluno, que não foi atencioso o suficiente, não foi dedicado o suficiente, não possui a inteligência suficiente para compreender as lições ensinadas pelo professor. Evidentemente, o professor pode ter parte na culpa, já que pode não ter sido suficientemente didático. Mas, em se tratando de livros de autoajuda, eu, o aluno, não poderia colocar a culpa no professor, no livro em si, já que poderia retornar às lições a serem aprendidas o número de vezes que fosse necessário para que pudesse assimilar o que estava sendo ensinado. E eu retornei às lições não uma, nem duas vezes, mas várias, tantas quantas julguei necessárias, de modo tal que praticamente decorei certos preceitos tidos como fundamentais para a efetividade de cada lição em si.

Quanto à lição básica, tirada da frase que tomei como verdadeira, ao menos por algum tempo, era a que atribui a nós mesmos a culpa pelas nossas dificuldades em alcançarmos aquilo que desejamos.

Eu teci alguns comentários aqui sobre essa frase. De qualquer forma, reproduzo-a novamente, para que melhor possamos apreciá-la:

“Tome cuidado apenas consigo mesmo e mais ninguém; trazemos nossos piores inimigos dentro de nós.”
Charles Spurgeon

A frase encontra-se no livro de Mandino.

Tomei-a por verdadeira por um longo tempo, mas, na medida em que não obtinha resultados palpáveis com a disciplina na aplicação dos ensinamentos dos livros de autoajuda, comecei a pensar que, bem, sendo eu disciplinado, e estando eu aplicando metodicamente as lições aprendidas, e nada obtendo em troca, abria-se a possibilidade de que o problema poderia estar na lição em si, que poderia, ao menos hipoteticamente, estar errada.

Lendo a frase em um primeiro relance, sentimos que somos chamados a assumir a responsabilidade por nós mesmos, para pararmos de procurar culpados pelos nossos problemas, para deixarmos de nos fazer de vítimas. Essa visão responsável da vida é correta, não há dúvida. Mas, diante de meus péssimos resultados, senti-me frustrado.

Fiquei com uma forte sensação de estar sendo enganado pelos livros de autoajuda, porque, afinal, onde estavam os resultados?

Influenciado por uma outra frase, de um outro livro, um livro de filosofia de Alfred J. Ayer, "As questões centrais da Filosofia", dos quais tratarei adequadamente em um post oportuno em breve, pensei bem sobre o conteúdo da frase, e observei que ela nos alerta para o fato de que podemos ser nossos piores inimigos, mas também observei que ela não limita nossos inimigos a nós mesmos. Quer dizer, podemos ser nossos piores inimigos, mas nem por isso somos nossos únicos inimigos. Se não bastasse termos de nos vigiar e policiar contra nossas falhas, fraquezas e deslizes, temos ainda que saber que temos outros inimigos que não nós mesmos. 

A frase ainda não diz que nossos inimigos são pouco dignos de atenção apenas porque nós somos piores do que eles. Podemos ter inimigos externos a nós que sejam bastante duros e perigosos. Então, a frase em si era uma meia verdade. 

Repetindo: é verdade que trazemos nosso pior inimigo dentro de nós mesmos, mas não é verdade que, em decorrência disso, devemos tomar cuidado apenas conosco mesmos. O fato de eu cuidar de mim mesmo não faz de meus inimigos externos menos ameaçadores do que já são. Logo, se os negligencio, então não os combato, e portanto, não consigo aquilo que desejo, porque eles são um obstáculo oculto que se opõe a meus intentos. 

Pior: ao focar apenas em mim mesmo, meus inimigos externos desaparecem, como se não existissem. E esse é um erro o qual não podemos cometer.

Então, ao cuidar de mim mesmo, e ainda assim enfrentar obstáculos, observei e vi que há, sim, inimigos externos poderosos, e eles não estão nem um pouco dispostos a nos ajudar em nossa luta diária que travamos de encontro aos nossos desejos, anseios e objetivos.

Que inimigos são esses?

Eu pensei bastante, e teorizei que o mundo, tal como está estruturado, é um dos maiores obstáculos que enfrentamos na nossa luta por objetivos.

Mas, como o mundo está estruturado? Que estrutura é esta que nos impede de ir em frente de maneira fácil e rápida rumo aos nossos tão sonhados desejos, como propõem os livros de autoajuda?

A barreira que vislumbrei na estrutura do mundo é que esta é formada de alguns megasistemas sociais que são desenhados sobre a forma de pirâmides hierárquicas. Costumamos chamar essas pirâmides hierárquicas com o nosso aparentemente neutro e científico nome de "organograma".

Basicamente, percebi que quase todos os sistemas sociais humanos são estruturados em forma de organogramas que reproduzem a forma de uma pirâmide hierárquica. Ora, uma pirâmide hierárquica moldando um  sistema social significa que há muitos espaços na base da pirâmide, mas poucas oportunidades no topo, tal como toda pirâmide. Em termos de busca por objetivos, isso significa dizer que muitos tentarão o sucesso, mas poucos conseguirão.

Muitos tentarão, insuflados por suas necessidades e seus desejos de melhoria, e apoiados em livros de autoajuda e suas técnicas motivacionais. Mas poucos conseguirão, filtrados por mecanismos de seleção subjetivos, parciais e tendenciosos, comandados por pessoas cujos objetivos não tem relação alguma com os nossos, e que se regem por sua próprias lógicas particulares.

Eu escrevi assim em minha Agenda 99:

"Tese geral: a frustração e insatisfação geral da sociedade moderna são frutos de sistemas educacionais, empresariais, governamentais, legais e econômicos baseados em premissas falsas."

A pirâmide social que limita o número de pessoas que chegarão ao topo é o que podemos chamar de pirâmide do fracasso, porque muitos fracassarão, enquanto apenas alguns poucos triunfarão, não importa o quão meritosos sejam os que virão a fracassar.

A tese geral acima constata as consequências óbvias de um sistema social assim concebido: bilhões de pessoas lutando, fracassando e se frustrando sistematicamente. E a tese geral constata que os sistemas educacional, empresarial, governamental, legal e econômico, pelo menos, são estruturados em pirâmides hierárquicas que barram quase toda tentativa honesta de melhoria pessoal.

A tese geral, por fim, assume que essas pirâmides sociais são desenhadas de maneira disfuncional não intencionalmente, isto é, elas são concebidas com um objetivo honesto e claro, mas acabam gerando efeitos colaterais indesejáveis, que não são premeditados, nem desejados, e talvez nem mesmo percebidos por aqueles que a desenham e por aqueles que as preenchem e nelas lutam para subir ou nelas permanecer.

Eu, generosamente, não atribui as disfunções dessas pirâmides sociais a um desejo racional de filtrar, obstruir, selecionar e punir quem quer que seja.

Eu tomei meus inimigos externos como seres benevolentes, que apenas fazem o mal por mera incapacidade de perceber que fazem o mal.

Enfim, igualei homens a vírus, a bactérias, a terremotos.

Eu não quis, ao menos por enquanto, imputar o mal do sistema social como decorrente da própria maldade intrínseca do ser humano que o concebe. Poupei-os, os homens.

Afinal, também eu sou um homem, e não me vejo como mau.

A tese geral acima foi apenas um primeiro esboço de um conjunto de outras constatações igualmente significativas e inter-relacionadas, que desenvolverei neste blog, nos próximos posts.

Além do mais, eu observei que livros de autoajuda podem trazer contradições. Além da frase sobre cuidar de nós mesmos como nossos piores inimigos, havia uma outra frase sobre hierarquias, que foi a inspiração para a tese geral da pirâmide do fracasso.

Confrontar frases verdadeiras, mas contraditórias, é uma experiência intelectual fascinante. Eu sabia da existência teórica delas, mas nunca havia me dado ao trabalho de encontrá-las. Eis, no entanto, que a disciplina em aprender sobre autoajuda me levou de encontro ao meu primeiro paradoxo.

Eu falarei mais sobre esse paradoxo. Continue lendo os próximos posts. Eles detalharão o desenvolvimento de todos os meus raciocínios que decorreram deste curioso achado.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

A riqueza e a pobreza

No dia 29 de maio de 2004, eu disse nesta minha quinta postagem, deste blog, que eu estava escrevendo em frente a um velho computador trajando uma camiseta, uma bermuda, um relógio e um par de óculos, e que, assim tão despojado, eu lembrava, de certa forma, Gandhi. Eu disse assim:

"Uso uma camiseta velha verde escuro, bermuda preta, um relógio e um óculos na cara. Descrevendo as coisas assim, parece a descrição dos bens materiais deixados por Gandhi quando de sua morte, e que tanto admiraram o mundo pela sua frugalidade e desprendimento. Mas não é tão simples assim."

De fato, não é tão simples assim. Eu disse em minha última postagem que falaria sobre esse assunto, e agora é o momento.

O ano era 2004. Fiz essa comparação aparentemente disparatada porque naquela época eu havia estudado profundamente o livro de Og Mandino chamado "A universidade do sucesso". Neste livro, Mandino tomou emprestada uma série de textos de outros autores e seus respectivos livros, e montou um mosaico que segue em um crescendo de ensinamentos tipicamente de autoajuda, mas que muito me cativou e me fez pensar.

Há um texto de um autor chamado Howard Whitman, um escritor americano que publicou um livro chamado "Success is within you" no ano de 1956. Não sei se esse livro foi lançado no Brasil em algum momento. Se foi, seu título provavelmente seria "O sucesso está dentro de você".

O texto que Mandino extraiu do livro de Whitman trata do conceito de sucesso. Whitman diz que o sucesso é algo muito pessoal, e que pessoas podem ser bem sucedidas de diferentes maneiras, sob diferentes óticas ou pontos de vista.

Já falei um pouco sobre esse texto aqui, neste blog, mas foi apenas um breve resumo, sem maiores considerações.

Mas, não é sobre o sucesso em si que pretendo falar agora. Meu foco agora é Gandhi. O livro de Whitman, repito, foi lançado em 1956, e portanto, deve ter sido escrito em algum momento não muito antes desse ano. Assim, fazia pouco tempo que Gandhi havia morrido. Quer dizer, Gandhi foi assassinado em 1948, um ano depois da independência da Índia e do Paquistão, em 1947. Logo, sua morte e o impacto de seus feitos ainda estavam bastante presentes nas mentes de seus contemporâneos, creio eu, e na mente de Howard Whitman também, deduzo com base no que ele andou escrevendo.

Ele assim diz:

"Uma das coisas que mais impressionou o mundo acerca de Mahatma Gandhi foi a fotografia publicada de todos os seus bens materiais na época em que morreu: um par de óculos, um par de sandálias, alguns trajes simples, uma roda de fiar e um livro. Embora o mundo soubesse que por aqui havia passado um dos homens mais ricos. Talvez o mundo no fundo de sua consciência tivesse de alguma forma conhecimento daquilo que Henry David Thoreau expressou nesta frase simples: 'A riqueza de um homem se mede pelas coisas que é capaz de deixar para trás'. O próprio Gandhi não se cansava de fazer alusão à redução de necessidades. A vida para ele era como um processo de despojamento gradual de necessidades. Assim como um bebê que grita no berço e precisa de tudo, o ser humano, se vive uma vida bem-sucedida, amadurece pouco a pouco em direção a um adulto que não precisa virtualmente de nada. O próprio Gandhi foi um exemplo dessa espécie de desenvolvimento, um exemplo tão raro que sua vida exprimiu de maneira dramática para o resto de nós o quanto deixamos de corresponder ao potencial de desenvolvimento humano.

Isso não quer dizer que nosso objetivo deva ser a pobreza, ou que uma renúncia ascética de bens ou progresso material por si só torne alguém um 'mahatma', uma alma grandiosa. Muitas almas grandiosas tiveram uma vida cercada de bens materiais e fortuna considerável: Andrew Carnegie, Jacob Riis, Julius Rosenwald, Samuel Mather, os Guggenheims, para citar apenas alguns. Todos esses homens alcançaram um sucesso pessoal verdadeiro nesses casos, tanto exterior quanto interiormente.[...]"

Pois bem, esse pequeno trecho me fez pensar bastante ao longo dos anos.

Primeiro: que foto é essa? Não sei, mas vou buscar no Google, porque agora fiquei curioso.

Segundo: quando li sobre essa pequena lista de bens deixados por Gandhi, também fiquei impressionado. Eu não sou muito apegado a bens materiais, embora admita que seja um pouco ambicioso em certos aspectos e goste de dinheiro. Mas eu admiro também o ascetismo, a frugalidade, a sensatez contra o consumismo desenfreado. Mas Gandhi me impressionou.

Já falei sobre um texto chamado "Você já viu um clipe enferrujado?" neste blog. Frugalidade, moderação, sensação de desconforto diante do desperdício são temas que despertam minha curiosidade.

Quem foi Gandhi? Sabemos alguma coisa sobre ele, mas não muito. Não faz parte de nossa realidade. Por isso, hoje tratei de dar uma lida com calma em sua biografia na Wikipédia. Coisas interessantes vieram à luz depois desta leitura.

Claro, além do homem, do mito, há ainda as suas frases de efeito, seus bordões famosos. Sobre o judaísmo, o cristianismo, sobre o capitalismo. Sobre esse último, tenho lido uma frase que está sendo muitíssimo reproduzida nos últimos tempos. Falarei sobre ela em um momento mais adequado. Ela é importante.

Bem, mesmo um mito precisa se apoiar em ombros de gigantes, e Gandhi não foi exceção, descobri na Wikipédia. Há curiosamente uma ligação entre ele e Thoreau que vai além da mera citação de ambos no trecho de Whitman que transcrevi logo acima. Falarei mais sobre essa ligação também no futuro.

Por ora, ficamos com esse fato: em 2004, eu usava um par de óculos em uma noite fria, e se não estava de fato despojado de bens materiais como um Gandhi, devo admitir que me sentia pobre, limitado, isolado, deprimido e diminuto, mais para um mendigo que para um homem rico.

Eu definitivamente não estava bem em 2004. Eis a conclusão a que chego, e isso já é uma excelente conclusão.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Registros variados

Na medida em que o tempo passa, este blog fica velho, e as postagens antigas passam a fazer parte da história. Logo, este blog serve como um registro histórico das coisas que andei pensando e escrevendo ao longo dos últimos dez anos. Obviamente, não escrevi somente aqui, mas, de qualquer forma, escrevi muito aqui, e às vezes é bom comentar sobre o que já foi escrito, para destacar determinadas coisas que parecem interessantes de serem comentadas.

Mas, não é só este blog que é uma fonte de registros de minhas coisas, de meus escritos. Tem também as agendas, e eu tenho escrito bastante sobre elas também.

Mas, não são somente as agendas que guardam coisas que acho relevantes de serem guardadas. Há meus e-mails antigos. Há meus livros, minhas revistas, meus filmes e minhas músicas. Há meu Outlook, e há meus backups de dados, que guardam muita coisa. Há um diário, ainda mais antigo, de uma época pré-computadores, e há muitas cartas escritas à mão.

Por fim, há alguns cadernos da adolescência, livros velhos, e por último, há minhas memórias, armazenadas em meu cérebro.

Não é só para falar sobre as coisas que estão em minhas agendas que este blog tem servido. Mas eu tenho falado pouco de meus outros registros. Já falei aqui, neste blog, sobre alguns assuntos que estão em alguns desses registros, mas foi muito pouco.

Acho que é hora de começar a falar mais deles por aqui.

São fontes muito interessantes de informação. Por trás de cada pequena anotação, há um mundo de intenções, interesses, projetos e acontecimentos. Em cada registro, há uma história.

Tenho pensado em escrever mais sobre esse mundo oculto de coisas que aconteceram, mas que eu tenho me retardado em publicar aqui.

Agora, acho que vou fazer o que tenho a tanto adiado.

Acho que este blog ficará bem mais interessante.

Onde estava e onde estou

No dia 27 de maio de 2014 este blog completará dez anos no ar.

Lembro-me de ter escrito na minha quinta postagem neste blog um pequeno relato de onde eu estava e como vivia naquele específico momento do tempo.

Agora, passados dez anos, tudo é muito diferente. Não vivo mais no mesmo local, nem na mesma cidade. Não tenho mais meu Pentium 266. Agora tenho um Dell que é topo de linha. Não ouço mais Frank Zappa. Na verdade, raramente ouço alguma coisa. Quando muito, alguma coisa no carro, quando eu e minha esposa saímos para ir a algum lugar por perto, dentro da cidade. Hoje, vivo em Brasília.

Ouço ultimamente outro Frank, o Frank de Ammy Winehouse.

Citei Gandhi nesta quinta postagem.

Isso requer uma explicação, mas ficará para um próximo momento.

O que importa é que não estou mais onde estava a dez anos atrás, e isso merece ser comemorado.

Ah, agora temos o Google Street View, e já é possível mostrar onde era a casa que eu morava no dia em que escrevi o post de dez anos atrás.

Quer saber onde é a casa?

Clique aqui. Entre no Street View. É uma esquina. Veja uma série de casinhas geminadas. Eu morava na segunda casa.

Agora, isso é passado, e isso é bom, muito bom.

Adeus, Vila Monticelli. Adeus, casinha geminada, de tão péssimas lembranças.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

A vida departamentalizada

Eu disse aqui que não sabia escrever sobre um assunto o qual não dominava. Na verdade, tenho a impressão de nunca dominei assunto algum a ponto de ter o conhecimento suficiente para escrever um livro, mesmo que elementar.

Eu não era capaz de escrever um livro de autoajuda, embora já tivesse escrito um pequeno romance, que pela própria essência dos romances, é pura ficção, e portanto, não demanda muito conhecimento sobre um determinado assunto. Claro, essa minha situação de não saber escrever sobre autoajuda foi em 2001, o que quer dizer que essa é uma dificuldade já passada. Hoje, sei bastante coisa sobre o tema, embora não pretenda escrever um livro de autoajuda.

Então, eu sabia que não poderia escrever um livro, mas já tinha algumas ideias em mente sobre autoajuda. Uma das coisas que eu pude perceber lendo três ou quatro livros sobre o tema foi que por vezes eles, os autores, falavam dos mesmos assuntos, embora de maneiras diferentes. Eu informei esse achado aqui, e devo confessar que até então, eu era um leitor amador, um crédulo, e por isso não era capaz de perceber ou tentar achar eventuais falhas naquilo que eu tão inocentemente lia.

Eu descobri a ideia de tratar nossa vida como um grupo de áreas, isto é, eu li em dois livros diferentes, de dois autores diferentes, que deveríamos dividir nossas vidas em partes afins, para melhor poder gerenciá-las. Eu achei a ideia interessante.

Eu não precisava escrever um livro de autoajuda. O que eu precisava era aprender coisas com os livros de autoajuda. O que eu precisava era tirar proveito deles. Minha intenção era mudar minha vida, e não escrever livros sobre como mudar a vida dos outros.

Pensei um pouco na ideia da vida departamentalizada e resolvi que deveria adotar a ideia. Deveria passar a pensar em minha vida em termos de áreas como família, finanças, lazer, trabalho, saúde, educação, etc.

Pois bem, eu sabia que ninguém possui vidas perfeitas. Ninguém pode dizer que está absolutamente satisfeito com tudo. Sempre se pode melhorar alguma coisa na vida. Mas melhorar o quê? Ora, se nossa vida deve ser departamentalizada, então devemos pensar em melhorias também de maneira departamentalizada. A pergunta não é sobre o quê devo melhorar em minha vida. É sobre o que melhorar em qual departamento de minha vida.

O que precisa ser melhorado em minha vida financeira? E em minha saúde? E em minha vida social?

Eu não queria fazer um diagnóstico dos problemas do mundo. Eu precisava fazer um diagnóstico dos meus problemas, meus próprios problemas. Mas, com a vida departamentalizada, ficaria mais fácil fazermos um diagnóstico de nossas satisfações e insatisfações.

Então, pensei em começar um questionário para eu medir a minha satisfação, ou insatisfação. Sem demora, comecei a redigir em minha Agenda 99 uma lista de perguntas, relacionadas com uma área de minha vida, e que comporia meu questionário pessoal. Transcrevo abaixo o que escrevi em minha agenda:

"Questionário de satisfação - crescimento pessoal:

1 - Eu estou satisfeito com o meu atual nível de instrução e educação formal?

2 - Eu sinto que tenho me tornado uma pessoa melhor sob o ponto de vista cultural e intelectual com o passar dos anos?"

E parei nesta segunda pergunta.

Duas meras perguntas não formam algo que possamos chamar exatamente de um questionário. Foi, na verdade, apenas uma tentativa de se elaborar um questionário.

Por que não fui em frente?

Não fui em frente simplesmente porque as duas perguntas acima referem-se a uma área específica de minha vida, que resolvi chamar de "crescimento pessoal". O que me fez interromper a elaboração do questionário foi a percepção de que eu não tinha definido primeiro quais seriam as outras áreas que deveriam compor o restante de minha vida.

Certo, crescimento pessoal poderia ser uma área legítima de vida, mas e quanto ao resto? Quais seriam as outras áreas?

Eu não poderia fazer um questionário somente da área de crescimento pessoal?

Achei que não, porque mesmo uma única área pode implicar em um número bastante grande de perguntas e fontes de insatisfação. Eu poderia, ao elaborar mais e mais perguntas, inadvertidamente me ver embrenhando em áreas outras que não mais envolvessem crescimento pessoal. Mas, como saber que estou ou não tratando de crescimento pessoal se não sei quais são as outras áreas, que poderiam fazer limites com a área de crescimento pessoal?

Sem uma divisão inicial de minha vida em um número definitivo de áreas, não faria sentido prosseguir com a elaboração de um questionário.

Então, tratei de fazer essa divisão prévia.

Como dividi minha vida, ou quais áreas criei para ela?

É o que veremos no próximo post.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Teorizando sobre problemas pessoais

Minha última postagem trás mais um texto de minha velha Agenda 99. Foi mais uma tentativa de minha parte de tentar escrever nos moldes dos escritores de autoajuda. Eu tomei como ponto de partida a absoluta impossibilidade de se viver uma vida perfeita para se chegar ao convencimento do leitor de que ele possui algum problema que precisa ser solucionado, e assim, como todo autor de autoajuda, me disponibilizar para ajudá-lo com uma possível solução mágica, uma panaceia secreta até então mantida em segredo por pessoas malvadas que sempre quiseram ter o privilégio da posse do saber apenas para elas mesmas.

Esse tipo de discurso tem alguma efetividade, mas eu conclui que escrevendo desta maneira não chegaria a lugar algum, porque constatar que se vive insatisfeito com alguma coisa não representa uma solução de nenhum problema em particular. Eu escrevia por escrever, tateando no escuro. Eu não iria a lugar nenhum com este tatear, porque eu não sabia o que precisava saber para ir mais longe. E o que é que eu não sabia, e nem sequer sabia que não sabia?

Se eu resolvesse escrever sobre algum assunto complexo relacionado com, digamos, Matemática, eu teria a clareza de entender que não sabia nada do tema e sequer cogitaria meter-me a escrever como um verdadeiro ignorante. Seria ridículo da parte de quem quer que fosse tentar falar sério sobre um assunto sobre o qual não tivesse domínio algum. Por que se meter a desempenhar esse papel vergonhoso? Por que se meter a falar difícil sobre aquilo que não se conhece?

O que eu não sabia, e não sabia que não sabia, é que faltava-me o estofo mínimo acerca do modo de pensar sistemático que é proporcionado pelo conhecimento correto e razoavelmente aprofundado do método científico. Eu não tinha esse conhecimento. Sem ele, não iria a lugar algum em qualquer que fosse o ramo de conhecimento que me propusesse a escrever. A verdade é que eu gostaria de escrever sobre algo, mas não tinha domínio sobre nada a ponto de ter o que ensinar a alguém por meio de um livro.

Assim, tratei de parar com textos de autoajuda o mais rápido que pude. Não, eu não era capaz de escrever um livro de autoajuda que fosse realmente sério.

Assim, deixei de lado essa ideia e tratei de abordar o assunto de maneira sistemática, mesmo sem saber que não sabia como fazer isso. Fiz uma tentativa de organizar meu pensamento por meio de algumas listas, algumas anotações que me pareceram ser lógicas, mas também não fui adiante.

Que listas foram estas?

É o que veremos nos próximos posts.

Você está satisfeito?

"Tudo está bem?

Como tem andado sua vida nos últimos dias? E nos últimos meses? E nos últimos anos? Tudo está bem?

Tem andado preocupado com o rumo das coisas?

Está satisfeito com seu grau de escolaridade? Sabe tudo sobre aquilo que gostaria de saber? Tem cuidado de sua saúde de maneira impecável? Tem viajado bastante? Tem se divertido muito em suas férias? Está com seu lado espiritual em paz? Tem visto seus pais, irmãos, filhos, com a frequência que gostaria? Está na profissão que ama? Está casado com a pessoa que sempre sonhou? Trabalha no emprego que pediu a Deus? Tem ganhado dinheiro o suficiente? Tem comprado as coisas que considera básicas para seu bem estar? Tem cumprido seu papel junto à sociedade em que vive? Mora no lugar que ama? Tem amigos o suficiente? Há algum ponto em algum aspecto de sua vida que não lhe agrada?

Poderíamos fazer perguntas e mais perguntas a respeito de nossa satisfação pessoal com relação ao momento presente até chegar ao ponto em que concluiríamos, com pesar, que, de fato, há coisas que não estão como gostaríamos que estivessem. Pior: parece não haver ser humano na face da Terra que possa sobreviver a um questionamento básico sobre sua satisfação com a vida que leva. Pior ainda: estamos somente questionando a satisfação presente, não a satisfação passada. Muitos podem se julgar razoavelmente satisfeitos com o presente, mas trazerem uma carga enorme de insatisfação passada, a ponto de dizerem coisas do tipo: ‘hoje vivo bem, mas já tive meus longos anos de cão...’, ou ‘já comi o pão que o diabo amassou...’. Em outras palavras, não há vida perfeita, se entendermos perfeição como sinônimo de satisfação. E, por mais absurda que pareça a comparação, é assim que vemos as coisas: uma vida com uma dose mínima que seja de insatisfação não é uma vida perfeita.

É interessante que uma vida com qualquer que seja a dose de insatisfação não é considerada uma vida imperfeita ou uma vida errada. Insatisfação não é o mesmo que imperfeição ou erro. E uma vida sem erros não é uma vida satisfeita. Podemos imaginar a vida dos santos, vidas sem erros, como vidas tristes e infelizes, e normalmente é assim que se tem como modelo arraigado na mente das pessoas.

Uma vida com alguma insatisfação é apenas uma vida menos perfeita. Nada mais que isso. Quanto maior nossa insatisfação, menos perfeita é nossa vida.

Mas o que é, afinal, estar bem?

Estar bem é não ter nenhuma insatisfação, teoricamente falando, mas humanamente sabemos que tal estado é impossível. Estar bem então é ter muita insatisfação tolerável ou pouca insatisfação intolerável."

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Como medir o bem estar matematicamente?

Este post trata da quadragésima sétima e última questão da série que venho discutindo neste blog.

Nós, seres humanos modernos, somos animais inquietos. Passamos nossa vida imersos em um processo de satisfação de necessidades e desejos, tal como todos os animais, mas nós somos culturalmente condicionados a desejar coisas das quais realmente não necessitamos.

A necessidade, real ou artificial, quando não atendida torna-se um foco de insatisfação que faz com que nos sintamos não muito bem. Essa sensação de desejo não realizado é incômoda, e costumamos nos comparar com outras pessoas para medir se estamos vivendo bem ou não. Quando temos a percepção real ou psicológica de que não estamos tão bem quanto nossos semelhantes aos quais temos contato, sentimos que vivemos uma vida aquém da que poderíamos viver. Por vezes, essa sensação de frustração e fracasso pode levar a uma série de ações em busca de satisfazer essas necessidades ou desejos. Por vezes, vivemos em uma tal rotina e entendemos que o esforço que teremos que fazer para vivermos em condição de igualdade com aqueles que julgamos estar vivendo melhor que nós é tão grande que preferimos permanecer na situação na qual nos encontramos. Em caso de optarmos pelo conformismo, a insatisfação permanece, porque a necessidade permanece, porque, afinal, a diferença que percebemos entre nós e nossos semelhantes permanece, já que não fizemos nada para fazer desaparecer essa desigualdade.

Ora, em dado momento eu questionei o que seria este estado no qual não perceberíamos estar em uma situação na qual sentiríamos desejos incômodos e frustrantes. Percebi que não há uma escala objetiva para tomarmos mão dela e fazermos comparações sensatas. Sem uma escala fora de nossas mentes, podemos estar sob a influência de desejos que na verdade são caprichos mesquinhos e egoístas, socialmente absurdos e perniciosos. Tudo vai depender do quão sujeitos estamos a ser influenciados por fatores externos a nós mesmos. Um ser humano normal não sente, fisiológica e psicologicamente falando, desejo natural de correr por estradas sinuosas pilotando uma Ferrari a 200 km/h tentando ultrapassar uma loira em uma Mercedes, como num filme de James Bond. Se alguém deseja realizar essa fantasia, é porque de alguma forma se deixou sujeitar às influências da ação do marketing moderno. Pilotar Ferraris em estradas da Riviera é uma extravagância que não faz sentido, mas curiosamente, milhões de pessoas anseiam por realizá-la. Ora, não podemos, todos, dirigir Ferraris pela vida afora. Este é um desejo bobo e infantil. Uma pessoa sensata não deveria sequer cogitar em um dia realizá-la. Logo, deveria dispor de meios para filtrar, dentre os milhares de apelos aos quais está sujeita durante sua vida, qual deles é realmente um apelo sensato e que deve tentar atender, e qual é um falso apelo, qual não passa de uma mera tentativa de manipulação visando fazê-lo dispender dinheiro ao consumir algo de que realmente não precisa, condicionado pelo apelo de marketing implacável ao qual está sujeito.

Que filtro é este? Que critério usar para separar necessidades, desejos e objetivos de vida legítimos, da mera fantasia de consumo implantada pelo marketing?

Como temos infinitas necessidades, parte delas relaciona-se com fatos físicos reais, que podemos medir, e parte delas se relaciona com fatos mentais, percepções e desejos íntimos, psicológicos, os quais não podemos medir nem sondar, exceto em nós mesmos, e ainda assim, muito tenuemente.

Daí que fiz a seguinte pergunta, em 2001, em minha busca por uma compreensão maior do fenômeno do autoaperfeiçoamento e da busca por mudanças positivas de vida:

"Como medir o bem estar matematicamente?"

A pergunta foi e é para mim de tal importância, que eu poderia ter feito mais uma centena de perguntas depois dela, mas não o fiz exatamente porque ela é tão fundamental que não faz sentido ir além, sem antes respondê-la.

Eu disse já que medir o bem estar pode ser uma tarefa realizável se nos limitarmos a fazer comparações e medições objetivas entre indivíduos e entre sociedades comparando e medindo aquilo que pode ser comparado e medido, ou seja, fatores fisicamente contáveis, mensuráveis, e não sensações íntimas vagamente discerníveis ou vontades passageiras e extravagantes. Não se fala em medir fantasias, mas necessidades e satisfação de necessidades reais. Se temos infinitas necessidades, elas não precisam, nem podem, nem devem ser satisfeitas ao mesmo tempo. Não se pode, nem se deve, deixar de se alimentar para juntar dinheiro para se ter uma tiara de diamantes, ou uma Ferrari. Logo, alimentar-se deve, socialmente, coletivamente falando, preceder a busca de uma Ferrari quando tratamos as duas ações como necessidades a serem atendidas. Assim, espera-se que se uma sociedade é composta de pessoas razoavelmente racionais, veremos nela pessoas empenhadas mais em matar a fome do que pessoas empenhadas em dirigir Ferraris mesmo à custa de se passar fome. Ferraris são antes desejos que necessidades, e esta mesma sociedade deve ter a nítida percepção de que qualquer de seus membros que tente antes ter a Ferrari mesmo que tenha de passar fome não representa um membro típico desta mesma sociedade, mas uma pessoa psicologicamente perturbada, desequilibrada e irracional. Daí que nesta sociedade, podemos medir objetivamente quantos de seus membros estão sendo satisfeitos em suas necessidades de alimentação, e dependendo do resultado que obtivermos, podemos dizer que o indivíduo A não está dentro da média desta sociedade neste quesito, o da alimentação, porque podemos saber que este indivíduo está se alimentando menos do que a média, seja porque ele nos informe, seja porque saibamos que ele não dispõe de renda para tal, seja porque não o vemos comprando alimentos ou se alimentando, seja porque esteja magro, ou ainda porque juntamos todos esses indícios e formamos um quadro geral da situação do indivíduo que podemos dizer com razoável precisão se ele está se alimentando adequadamente ou não.

Mais uma vez, esta é uma tarefa não para a Psicologia, mas para a Sociologia, a Geografia, a Economia, a Medicina, dentre outras ciências.

Podemos dar uma resposta à minha pergunta dizendo que podemos medir o bem estar humano matematicamente usando das ferramentas teóricas e aplicadas das ciências que se preocupam com o bem estar humano em geral, e que se preocupam mais com a comparação entre indivíduos e grupos do que com a situação psicológica íntima de um único indivíduo, tal como faz a Psicologia ou a Psiquiatria, ou mesmo o Marketing.

Ora, eu iniciei minha série de perguntas partindo de uma questão, uma dúvida em torno da adequação ou não de se preocupar com autoajuda, uma espécie de ramo da Psicologia Aplicada, e terminei com uma dúvida sobre a aferição matemática do conceito de bem estar do ponto de vista das diversas ciências que se se ocupam do bem estar social humano. Foi uma longa curva de pensamentos, tenho que admitir.

Chegar à necessidade de recursos de ciências sociais para se justificar uma preocupação com necessidades psicológicas não deveria ser uma surpresa para muitos, mas para mim foi. 

Disse que esta foi a última pergunta porque fiquei surpreso em descobrir que no final de uma cadeia de dúvidas e perguntas céticas, eu chegara a uma área que me era bastante familiar.

Um pouco de história pessoal sobre minha formação educacional é conveniente aqui, para elucidar alguns pontos de minha surpresa. Eu nunca estudara Psicologia em momento algum de minha formação escolar. Nem no segundo grau, nem na faculdade de Administração eu tive contato com qualquer coisa que fosse relacionada à Psicologia. Tenho que admitir que pensando nisto agora, eu perceba a ausência de aulas de Psicologia para alunos de Administração como uma falha pedagógica imperdoável. Daí que em minha curiosidade natural eu tenha me apegado a livros de autoajuda, porque, afinal, era um tipo de literatura mais próxima possível da Psicologia que até então eu tivera acesso, já que não estudara diretamente a Psicologia nos bancos escolares ao longo de tantos anos. Ora, não é porque não incluíram Psicologia na grade de matérias de meu curso de Administração que eu, como administrador, não precisasse de aprender Psicologia. Tanto precisava, e tanto não sabia verbalizar ou racionalizar essa necessidade que acabei tomando de mão aquilo que já dispunha, que tinha acesso mais facilmente, ou seja, os livros de autoajuda.

Ora, eu lera livros de autoajuda antes de entrar na faculdade. Logo, ainda que de maneira um tanto romanceada, eu tinha tido contato com rudimentos de Psicologia. Aquele tipo de aprendizado me parecia útil e valioso de ser aprendido. Mas eu, de alguma forma, não tivera a percepção de que era de livros de Psicologia que eu precisava, e que os livros de autoajuda supriam apenas parte de minhas necessidades, e satisfaziam apenas parte de minha curiosidade. Se eu tivesse tido aulas de Psicologia na faculdade de Administração, eu certamente teria uma noção mais clara de que satisfação e insatisfação pessoal, busca de autoaperfeiçoamento, motivação, eram coisas para serem tratadas pela Psicologia, e não necessariamente pela Economia ou Sociologia. Mas, como não tive acesso até então à Psicologia, eu recorri àquilo que já tivera acesso: a Maslow, que vi no curso de Administração, à Economia e suas tabelas tratando de dezenas, centenas de variáveis numéricas abordando os mais diversos assuntos sociais sobre os quais eu tinha enorme curiosidade, e que eu tivera contato antes e durante o curso de Administração, e mesmo a Geografia, também com seus gráficos e tabelas, que não estudei na faculdade, mas que estudei durante minha vida toda por pura paixão e curiosidade pessoal. Ora, eu recorri àquilo que conhecia.

Sociologia, Economia, Geografia, Estatística, Marketing, áreas que pouco contato têm com nossas mais profundas insatisfações pessoais. Seria verdade mesmo essa suposta distância entre assuntos aparentemente tão díspares? Eu comecei a suspeitar que não.

Além do mais, a chegada de uma percepção de que eu poderia tentar resolver problemas pessoais íntimos por meio do recurso às ciências me fez sentir que estava caminhando em terreno bem mais seguro do que imaginava antes, porque, vejamos, os livros de autoajuda nos vendiam soluções tidas como segredos de pessoas ilustres e bem sucedidas que nos eram passados mais como fruto da enorme benevolência de gente desprendida e caridosa, do que como ensinamentos destilados de estudos e pesquisas metódicas. Ora, eu tinha em mãos mais um livro de mágicas e segredos dominados por alguns raros iluminados do que um conjunto sistematizado de conhecimentos aplicável com segurança por quem quer que se dispusesse a aplicá-los metodicamente. No momento em que eu desci do voo errante dos livros de autoajuda e toquei no solo firme da Ciência, ainda que tenha pousado no campo errado, ou não tenha pousado no campo mais adequado, eu ainda assim senti que agora eu dispunha de alguma racionalidade à qual me fiar. 

A ciência!

Eu estava ligando meu futuro pessoal ao método científico! Eu estava fazendo sonhos se apoiarem em rocha!

Mas não foi só esta a grande realização que se originou de minhas dezenas de perguntas céticas e incrédulas. Eu, em momento posterior, refinei minhas perguntas. Trataremos disso mais adiante, em uma série de novas postagens. Quero deixar claro que ter chegado a esta pergunta final significou um reconhecimento de uma série de fragilidades em minha formação profissional, assunto que devo também tratar com bastante cuidado em postagens posteriores. E, além do mais, o toque errático do voo errante no solo da Ciência fez-me reconhecer um lapso, um hiato de sonhos e paixões juvenis interrompidos que me deixou dolorosamente consciente de que a vida é dura, tão dura, que é capaz de matar os mais belos sonhos, se não tomarmos o cuidado de protegê-los e acalentá-los, ainda que por longo tempo, e sob as mais adversas condições. Admiti, com esta pergunta, que eu abrira mão de um modo de vida profundo e verdadeiro em troca de um modo de vida mundano e rasteiro, arrastado por um lamaçal de problemas diários e fracassos, frustrações e desencontros que soterrou esse modo de vida profundo e verdadeiro por longo anos sob uma camada de rancor, ódio e mesquinhez tal que eu sequer tinha noção de que um dia eu tivesse sido um menino sonhador e apaixonado pelo saber. Ao desesperadamente questionar fórmulas mágicas de autoajuda, forcei-me a cavar fundo em mim mesmo, e ao chegar na pergunta acima, eu sabia que tinha chegado também ao pequeno menino estudioso que estava soterrado sob escombros de quase vinte anos de sofrimento e descuido para comigo mesmo.

Eu, ao fazer a pergunta acima, ressuscitei o menino-gênio que dormia em mim, e voltei à vida.

Lentamente, é verdade, mas voltei.

Minha agenda registrou esse lento despertar.

Eu compartilho esses pensamentos porque acho que são dignos de serem compartilhados. Sou aquele menino que não se deixou morrer soterrado pela rudeza da vida de adulto. Eu, como um homem que se afoga, dei um salto rumo ao ar e respirei fundo, dando tempo e força para uma nova etapa de esforços rumo ao solo firme, e acho este processo digno de ser registrado para mim mesmo e para quem mais queira conhecer. Não tenho porque esconder ou temer revelar algo que me enche de orgulho. Eu tenho, sim, orgulho de minhas quarenta e sete peguntas sobre autoajuda.

Dito isso, relembro que continuei usando minha agenda para registrar meus pensamentos, dúvidas e raciocínios ao longo dos anos, e que tornarei a usar este blog para registrar esses escritos e aprofundá-los quando julgar adequado.

Nas postagens seguintes, tratarei de minhas anotações seguintes às perguntas agora respondidas. Só gostaria de lembrar que nem todos os eventos importantes dignos de nota foram de fato anotados na agenda. Alguns eventos cruciais em meu processo de raciocínio e estudos não foram registrados em papel. Assim, terei algumas histórias extras para contar, para que possamos entender como as coisas se encaixam, se encadeiam, retrocedem e se completam.

Tendo dito isso, lembro que já estamos em 2014. Que seja um excelente ano para todos!

O que é estar bem?

A quadragésima sexta questão da série que venho discutindo neste blog é uma pergunta que segue a linha da questão anterior, a qual tratei no último post.

Sempre que falamos em mudanças de vida, algo em nós reclama e questiona se realmente precisamos mudar, se não é melhor deixar as coisas como estão, deixar os problemas resolverem-se por eles mesmos ao longo do tempo, e ainda vamos além, dizendo que na verdade não precisamos mudar porque tudo está bem, e os problemas que nos incomodam não são realmente problemas importantes, e que estamos satisfeitos com a vida que estamos levando, porque, apesar dos pesares, todo mundo tem problemas, e então, se é assim, podemos ir levando a vida com os problemas que já conhecemos, e com os quais já estamos acostumados, e que sabemos como administrar.

Então, se por um lado dizemos que estamos bem, e por outro, o mundo vive a nos apontar defeitos os quais precisamos tratar de maneira adequada ou mesmo definitiva, fica-se com a dúvida, que expressei da seguinte forma:

"O que é estar bem?"

Estar bem. Estar OK. Estar com a vida em boas condições. O que é estar bem? Quem define os critérios por meio dos quais avaliamos a adequação ou não de uma vida? Quais critérios são estes? Qual o limiar a partir do qual estamos vivendo bem ou mal? O que significa exatamente este conceito de "bem"?

A pergunta, como podemos perceber, esconde dificuldades em ser respondida de maneira direta e simples. Por isto, vamos tentar respondê-la por partes.

Partamos do princípio de que todo indivíduo possui uma percepção de como seja a sua vida. E depois, supondo que se viva em sociedade, todo indivíduo é capaz de fazer comparações entre as vidas de diferentes pessoas. Eu vivo bem. Mas a pessoa A vive melhor que eu, a pessoa B, vive pior que eu e a pessoa C vive um pouco melhor que B, mas não tão bem quanto D, e assim por diante. Não somos obrigados a avaliar a vida de ninguém, mas em geral, fazemos comparações como a que ilustrei acima. Pessoas em sociedade comparam suas situações com a de seus convizinhos, o que podemos considerar um comportamento perfeitamente normal.

Não há escalas objetivas de comparação. Uma pessoa pode achar que vive mal, enquanto que outras podem achar que esta mesma pessoa vive bem, ou muitíssimo mal. De modo geral, há uma média de qualidade de vida em uma dada sociedade, e o conceito de boa ou má qualidade de vida gira em torno desta média. Hoje, com os meios de comunicação globais de que dispomos, as comparações vão além da localidade física em que vivemos, e nos comparamos ao resto do mundo. Vivemos pior que, digamos, os noruegueses, mas vivemos melhor que os etíopes. Essas comparações são comuns e não há nada de excepcional em reconhecê-las. No entanto, na medida em que se compara uma dada coletividade com outra ou se compara indivíduos dentro de uma mesma coletividade usando-se de medições sistematizadas, passamos da mera opinião pessoal a respeito do que achamos de nossa vida e da dos nossos vizinhos e passamos ao ramo da Sociologia, Geografia, Economia e Estatística, quer dizer, passamos para o ramo da análise científica da situação social desta dada coletividade, ou coletividades.

Quando pergunto o que é estar bem, o faço pensando na percepção individual, psicológica do termo, e não na sua avaliação científica.

Psicologicamente falando, pessoas podem ter percepções variadas com relação à qualidade das vidas que levam.

Há diversos fatores que podem influir nesta percepção, tal como origem social, experiência de vida, religião, opinião política, profissão, sexo, idade, país de origem, cultura, acesso a comunicação e informação, grau de instrução, dentre outros. Não é simples nem fácil estabelecer relações entre esses diferentes fatores. Não o faremos, ao menos por agora, nesta postagem. Veremos mais sobre esse assunto ao longo do tempo, em postagens futuras neste blog.

Por hora, no entanto, é preciso deixar claro que, qualquer que seja a opinião psicológica que uma pessoa tenha a respeito de sua qualidade de vida, há certos parâmetros mínimos que podem ser usados como medidores objetivos para se avaliar socialmente se uma vida está sendo adequadamente vivida ou não.

Ninguém, por exemplo, pode negar que alguém que sofra por falta de alimentos, seja por pobreza, seja por opção de não se alimentar adequadamente, leva uma vida menos rica do que alguém que não padeça da falta de alimentos. Neste caso, aquele que sofre a falta de alimentos pode alegar que vive assim por opção, e que intimamente é muito feliz assim, mas tomaremos esta opinião como não digna de reconhecimento, porque sabemos que esta situação não é a típica dos seres humanos normais. Não consideramos normais as pessoas anorexas, por mais que elas se empenhem em dizer que são felizes. Esta percepção social se dá porque há entre nós, humanos, aquilo que podemos chamar de reconhecimento de que nós temos necessidades básicas que precisam de um mínimo de atendimento.

A qualidade de vida então, a despeito de diferentes percepções psicológicas dos indivíduos, tem parâmetros lastreados em um conjunto de necessidades.

Esse conjunto de necessidades pode variar de um local para outro, de uma época para outra e de uma conjuntura social para outra, mas alguns elementos são mais ou menos constantes. A satisfação dessas necessidades consensuais constitui-se quase em um direito que todo ser humano tem de exercer.

Parte dessas necessidades básicas são tão consensuais que os direitos que as pessoas têm de satisfazê-las se constituem em direitos que foram formalizados juridicamente, e embora não haja garantias de que serão mesmo satisfeitas, ao menos os direitos constituem um patamar mínimo que podemos usar para avaliar se determinado indivíduo ou grupo social usufrui de razoável qualidade de vida ou não. Cito a Declaração Universal dos Direitos Humanos apenas como um exemplo elementar deste consenso.

Mas, necessidades são potencialmente ilimitadas.

Uma pessoa pode julgar que está satisfeita, enquanto outra, na mesma situação, pode julgar que não está satisfeita. Há, assim, um conjunto de requisitos gerais socialmente aceitos para se definir um mínimo de qualidade de vida, mas não há um máximo. As pessoas podem desejar o infinito, se quiserem. Não terão, evidentemente, garantia alguma de que conseguirão o que desejam, mas isto não importa.

Além do mais, assim como o ordenamento social estabelece um mínimo de direitos para se viver dignamente, estabelece também freios que limitam as pessoas com ambições desenfreadas, que podem tentar de todos os meios possíveis para satisfazer necessidades pessoais questionáveis socialmente, criando assim um risco para o grupo que não interessa aos seus membros correr. Daí que pode-se desejar torneiras de ouro nos banheiros de casa, mas não se pode vender cocaína para conseguir o dinheiro para isso. Ambições são bem vindas, mas há regras numerosas que limitam essas ambições, sob pena de vivermos em um mundo atroz e perigoso a todos.

Na verdade, ainda que haja muita gente vivendo no limiar inferior da escala de bem-estar social, nem por isso se carece de ambição, e nem por isso se tem pouca gente tentando os caminhos mais reprováveis para se satisfazer necessidades que na verdade não são nem necessidades, nem sequer desejos, mas caprichos mesquinhos e perniciosos. É possível mesmo que a causa dessa ambição desenfreada seja a falta de clareza na classificação das milhares de necessidades humanas não atendidas que as pessoas intuem que têm, mas não sabem identificar ou classificar como requer o bom senso. Daí que o mais humilde dos famintos deseja antes a torneira de ouro e a persegue com mais sofreguidão do que deveria, quando na verdade com isso negligencia a própria fome elementar, como se fosse possível saciar a fome com o ouro da torneira.

Milhões não percebem haver uma lógica em nossas necessidades, mas alguns perceberam essa lógica e receberam o devido crédito por isso. 

Como um estudioso da ciência da Administração, tive contato com algo chamado Teoria das Necessidades. O maior nome historicamente reconhecido como sendo o pioneiro na abordagem do tema foi o psicólogo americano Abraham Maslow. De uma maneira simples, Maslow disse que as necessidades humanas podem ser analisadas, organizadas e hierarquizadas em forma de uma pirâmide, tendo as necessidades mais elementares, tais como as necessidades fisiológicas, como por exemplo, alimentar-se, vestir-se, abrigar-se, procriar, fazendo parte da base da pirâmide. Em degraus acima, temos necessidades de segurança, aceitação social, autoestima, reconhecimento, auto realização, etc. Maslow teorizou sobre a possibilidade de que as pessoas tenderiam antes a satisfazer necessidades na base da pirâmide, para depois irem buscando satisfazer necessidades em níveis mais elevados ao longo do tempo.

As observações de Maslow não são necessariamente aceitas por todos os pensadores do assunto, mas seu pioneirismo e simplicidade ajudou as pessoas a perceber que há conjuntos diferentes de necessidades humanas, e esta percepção é útil quando se busca responder a pergunta que fiz acima. O que é estar bem? Sob o ponto de vista psicológico, em conjunto com o conceito de classes hierarquizadas de necessidades, uma pessoa pode julgar-se como vivendo uma vida tão boa quando a sua atual capacidade de suprir as diversas necessidades humanas que compõem a pirâmide proposta por Maslow. Por exemplo: um indivíduo pode sentir-se péssimo por não ter dinheiro para satisfazer as falsas necessidades impostas pelo marketing televisivo, que impõe um modelo de vida idealizado irrealizável mesmo pelo mais rico dos homens. Essa sensação de insatisfação proporcionada pelo marketing, no entanto, esvai-se quando se olha a pirâmide de Maslow e se pergunta quais as necessidades não satisfeitas. Nesta pirâmide, não há espaço para falsas necessidades, tais como carros do último modelo ou uma família jovem, linda e saudável que toma o café da manhã todos os dias com os filhos sorridentes comendo cereais matinais e sucos feitos com as mais modernas ferramentas elétricas que uma cozinha pode ter. Na pirâmide, somos forçados a pensar em nossas necessidades fisiológicas não atendidas. Não se pergunta se temos cereais matinais, mas se não passamos fome. A torradeira só entra nos degraus da pirâmide muito indiretamente, e só passa a ser algo digno de atenção quando a maioria das necessidades mais abaixo da hierarquia já foram atendidas. O marketing não funciona muito bem para induzir pessoas a consumir coisas supérfluas quando essas pessoas sabem que há uma lista de prioridades em suas necessidades.

Mas não é só a televisão e o marketing moderno que criam falsas necessidades e nos fazem sentir insatisfeitos diante de um mundo de desejos banais não realizáveis. A literatura de autoajuda também tem seu papel neste processo. Se as pessoas não leem, podem estar relativamente imunes a este tipo de influência, mas em geral, o marketing moderno é globalizado, multicultural e multimídia. Uma mensagem pode ser passada por centenas de canais diferentes. Não vamos ao cinema, mas as mensagens dos filmes chegam até nós por meio de outros canais. As pessoas conhecem personagens de ficção mesmo sem verem o filme no qual estes personagens aparecem. Somos bombardeados dia e noite, em todos os lugares, de todas as maneiras, pelas mensagens de marketing que tentam nos fazer comprar algo de que não precisamos, e para o qual não temos dinheiro. Assim, é difícil uma pessoa moderna e normal não se sentir intimamente insatisfeita.

A insatisfação fabricada é um fenômeno relativamente novo. Tem pouco mais de 50 anos.

Mas, a maioria das pessoas com menos de 50 anos está sujeita a este tipo de influência. Daí que é difícil a elas perceber que a insatisfação não decorre de necessidades legítimas, mas de fantasias fabricadas em estúdios de televisão. Como medir a satisfação íntima, psicológica, separando o joio pré-fabricado, e o trigo de nossas necessidades legítimas?

Que parâmetro psicológico usar?

Aí temos um problema que não é de medição de um fator humano com base em evidências externas, tal como faz a Economia e a Geografia, ou a Sociologia. Eu não tinha a resposta a esta questão na época em que a formulei. Eu sequer tinha uma ideia clara de que em nossa satisfação ou insatisfação há dois componentes, sendo um observável e relativo à comparação entre nós e nossos semelhantes, e um íntimo e de difícil observação e mensuração, que é nossa própria percepção psicológica, uma mescla de necessidades reais e artificiais que são difíceis de ser separadas e hierarquizadas.

O que eu certamente pude perceber é que nossa percepção pessoal é sempre distorcida, e que precisamos de uma régua para poder medir nossa situação real, seja do ponto de vista social, seja do ponto de vista psicológico. Daí que fiz a quadragésima sétima pergunta, a qual tratarei no próximo post.

Por agora, basta que saibamos que estar bem é um conceito movediço e impreciso, e que se quisermos discutir melhor o assunto, entendê-lo de maneira adequada, é preciso que o vejamos com algum grau de objetividade.

Passemos então para o próximo post, onde trato desta questão, e por fim, da última pergunta da série, que tanto me fez pensar ao longo dos anos.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Tudo estará bem?

A quadragésima quarta questão da série que discuto recentemente neste blog relaciona-se com a pergunta anterior, objeto de longa discussão no último post.

A quadragésima quarta pergunta é esta:

"Tudo estará bem?"

Nesta pergunta, não me preocupo com o presente, com minha situação atual, mas a situação futura.

Eu tenho discutido neste blog razões contra e a favor de mudanças de vida. Uma das razões contra nos envolvermos em desagradáveis processos de mudança é que, apesar do que diz o mundo a nossa volta, não estamos sentindo que nossa vida esteja ruim a ponto de precisar ser mudada.

Apesar de que sejamos confrontados com pessoas em situações melhores do que a nossa o tempo todo, podemos intimamente sentir que estamos vivendo bem. O mundo pode apontar em nós mil defeitos, mas, se em nosso íntimo não achamos que sejam defeitos que nos incomoda, que importa? Além do mais, não há ninguém perfeito. Tudo mundo tem defeitos. Então, por que mudar? Além do mais, se todos têm defeitos, temos que tolerar uns aos outros, desde que nossos defeitos não tragam prejuízos a mais ninguém além de nós mesmos.

Ora, que me importa se metade do povo russo é alcoólatra? Paciência! E, por fim, que mal faço aos russos se meus defeitos são apenas meus, e não os prejudica? Que vivamos nós e os russos cada qual com seus defeitos e vivamos em paz. Tudo pode estar bem.

Mas, se tudo está bem, posso usar este estado atual de coisas como justificativa para meu comodismo?

Posso, exceto que, como disse, as coisas mudam.

Se tudo está bem hoje, não tenho, no entanto, garantias de que estará bem amanhã. Defeitos tendem a trazer problemas a médio e longo prazos. Um problema pessoal pode se tornar um problema social, e uma situação sem problemas hoje pode evoluir para uma situação problemática amanhã, embora o inverso possa ser verdadeiro também. Evidentemente, não é incomum que um problema atual se resolva de alguma forma ao longo do tempo sem que precisemos fazer nada com relação a ele, mas esta não é uma regra. É apenas uma constatação. A possível solução espontânea de um problema presente vai depender da natureza do problema, e o bom senso pode ser suficiente para servir de guia para que nos preocupemos ou não com uma parte deles, já que podemos discernir com razoável acerto quais deles que têm potencial de resolução futura espontânea e quais precisam de nossa ação.

É com relação àqueles problemas que têm potencial futuro de se agravarem é que me refiro quando faço a pergunta acima. E mais: há os novos problemas, sobre os quais não temos nenhum prognóstico presente. 

Assim, uma pessoa sensata deveria ser capaz de avaliar sua vida presente e admitir honestamente que a vida presente que leva está bem e seus problemas atuais são administráveis e sua vida prescinde de mudanças, a despeito das recomendações do mundo à sua volta. Mas esta pessoa sensata deveria igualmente ser capaz de perceber que a inércia presente é apenas um estado passageiro, e que não deverá durar muito tempo, e que, portanto, mais cedo ou mais tarde, as coisas exigirão que ela tome alguma atitude com relação a um estado de coisas novo, porém indesejável.

Assim, podemos dizer que hoje tudo está bem, mas não podemos dizer com a mesma segurança que amanhã tudo estará bem. Não há espaço aqui para desejos.

Claro que desejamos que amanhã tudo esteja bem, mas não temos esta certeza, e portanto, podemos justificar nossa inércia atual por um certo tempo, mas este estado cômodo deverá mudar, quer queiramos, quer não. 

Assim, se teremos que agir no futuro para minimizar as consequências de problemas presentes, porque esperar até as coisas piorarem?

Não seria mais sensato realizar pequenas mudanças agora, quando os problemas não são tão graves, do que deixar para depois, quando então talvez seja tarde demais?

Por que não ser previdente?

Não precisamos agir hoje, diria o teimoso, ou preguiçoso, porque hoje tudo está bem. Poderia se argumentar tal como na parábola bíblica dos lírios do campo, que não fiam nem tecem, sob a alegação de que cada dia que cuide de seu problema, e que portanto, estando hoje tudo bem, nada há com o que se preocupar, e que o amanhã com os seus problemas terá seus devidos cuidados no momento certo, que é exatamente o amanhã.

Isto equivale a dizer que hoje não temos porquê nos preocupar, porque tudo está bem.

Certo, eu acato o argumento.

Em seguida, retruco com uma pergunta, mais uma delas, a quadragésima quinta, a qual tratarei no próximo post, porque então já estaríamos indo longe demais com o post presente.

Então, para não perdermos a oportunidade, porque hoje é dia de Natal, reafirmo aqui minha fé no Deus criador, certo de que Ele esteve entre nós, e de que somos feitos à Sua imagem e semelhança.

Sigamos, pois, em frente, renovada a nossa fé!