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terça-feira, 28 de julho de 2015

Um governo mundial

Há na internet uma série de sites discutindo política. Dentre muitos, há aqueles que lutam contra uma suposta tirania, seja em escala local, nacional ou mesmo global. De certo modo, o pior dos temores, seja qual for o posicionamento que as pessoas tenham em relação ao espectro político, sejam de esquerda, direita ou centro, é de que o mundo seja de alguma forma dominado por um único governo, oposto aos seus desejos pessoais.

O grande medo do mundo, e ao mesmo tempo o grande anseio do mundo, é o do governo global.

Tenho pensado nisso.

Não acho improvável um governo global. Nem mesmo acho indesejável um governo global. O que questiono é: qual seria o tipo deste governo global?

Não desejaria um governo global tirânico, uma ditadura sanguinária comandada por alguns poucos poderosos estrangeiros. Nem uma monarquia hereditária, cuja condição para o poder fosse pela consanguinidade.

Mas não veria tanto mal assim em um governo global benevolente, democrático, limitado em seus poderes de polícia e força coercitiva, capaz de equalizar as grandes diferenças da espécie humana, prestar socorro em escala global, manter a paz e aparar as arestas culturais capazes de levar as pessoas à violência e à guerra.

Pergunto: o que temos a temer em um eventual governo global?

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

A defesa e o ataque

Na medida em que os dias passam, as semanas passam, e os anos vão também passando, tento olhar para o futuro que nos espera e tenho sentido um certo temor, que considero não sem alguma justificação.

Eleições após eleições, além de outras grandes formas de consulta popular no Brasil, têm mostrado um país fortemente contrastado, para não dizer segregado, dividido ou polarizado.

Política não é um assunto fácil, de maneira que tentarei tecer minhas considerações sobre o tema com alguma cautela e simplicidade, buscando afixar-me em alguns marcos seguros, dos quais necessitarei para justificar meus temores.

Eu perguntei a mim mesmo: o que é a política? Por que a política?

A resposta simples é que a política é a forma civilizada de pessoas entrarem em acordo dentro de regras sociais, de forma a se evitar que as coisas sejam decididas pelos mais fortes, por meio de violência física.

Essa definição é muito parecida com a definição de Direito. De maneira também simples, podemos dizer que o uso de regras codificadas em lei e impostas a todos por um Estado é uma forma de se resolver as coisas sem o uso de muita violência. No mundo do Direito, o Estado pode, sim, usar da força física para fazer valer suas leis, mas somente em casos especiais bem delimitados.

Ora, a sociedade dita civilizada tem boas razões para buscar os mais diversos meios de resolver seus problemas sem recorrer ao uso da força física e da violência.

A sociedade humana, tal como a conhecemos, data de cerca de seis mil anos. Ao longo de tantos séculos, muito se recorreu à violência e à força, seja através de guerras, disputas entre sociedades, e ao assassinato, à escravidão, à pancadaria pura e simples do mais forte contra o mais fraco.

A realidade da violência não deve jamais ser negada entre seres humanos. Vivemos em uma época em que a violência direta de um ser humano contra outro é tida como coisa incomum e indesejável, punível e sujeita às mais graves recriminações. Aprendemos a conter a violência ainda no berço.

Mas, queiramos ou não, a violência é parte da vida, tal como a conhecemos em todos os recantos do planeta. Ela é tão real, onipresente e brutal que os meios de detê-la estão codificados em quase todas  as combinações de DNA que possam existir nos diferentes animais, plantas e organismos que a ciência conhece e estuda.

Não há ser vivo sem mecanismos de defesa contra ataques potenciais. Mesmo o mais indefeso e frágil dos animais possui em sua forma física, em sua aparência, em seu comportamento, em seu modo de existir, maneiras de se defender. Muitos seres vivos possuem ainda não somente os mecanismos de defesa, mas os de ataque, que lhe garantem a sobrevida, o alimento, a procriação e a perpetuação da espécie.

Na natureza, a defesa pressupõe o ataque.

A natureza humana também não é diferente. Somos dotados dos meios de defesa e ataque. Somos animais capazes de nos defender da ameaça de outros animais e da própria espécie. E somos capazes de atacar violentamente para conseguir nossos intentos. Essas considerações não deveriam ser surpresa para ninguém.

No entanto, vivemos em uma época em que nos consideramos civilizados. Dispomos de organização tal que a violência é inibida por diversos mecanismos, e não esperamos que a violência aumente, mas diminua constantemente no tempo. Esperamos que nos tornemos mais e mais civilizados.

Mas nem sempre as sociedades seguem destinos linearmente constantes rumo a um processo civilizatório, isentas de percalços, desvios, retrocessos e recaídas.

Poucas civilizações, se é que existiu alguma, seguiram processos históricos longos na mais perfeita paz e harmonia social.

Seremos nós brasileiros o povo dotado de habilidade social suficiente para não incorrer em episódios de violência social tais como guerras, revoluções, convulsões sociais e outros tipos de retrocessos?

Achamos que sim.

Achamos que somos um povo pacífico e harmonioso.

Achamos que tudo se resolverá da melhor maneira. Não achamos que as coisas irão piorar. Não temos razões para pensar diferente.

Ou temos?

Penso que não temos vivido grandes convulsões sociais tais como guerras, mas tivemos revoluções e temos índices de violência social sem paralelo em todo nosso passado.

Tivemos guerrilha em pequena escala em 1971, tivemos golpe militar em 1964, participamos em pequena escala da II Guerra Mundial lutando em território inimigo, e tivemos a guerra civil constitucionalista em 1932. Tivemos a revolução de 1930, e antes disso, outras convulsões menores que sequer lembramos de tê-las estudado nos livros e nas escolas. Nós tivemos longas décadas de relativa paz, é verdade.

O que a política teve de contribuição dada neste período todo?

Podemos dizer que as divergências sociais que poderiam ter dado motivos para o surgimento de episódios de violência mais contundentes foram adequadamente contornadas pelos meios políticos. Se não o foram pela política, como se solucionaram?

Divergências sociais desaparecem com a mera passagem do tempo? Em geral, somente a muito longo prazo. Em geral, convicções que dão razão a conflitos sérios são perenes, imutáveis, não sujeitas a acomodações definitivas. Há divergências que jamais são superadas. São, no máximo, apaziguadas, acomodadas pelas partes envolvidas, e a defesa somente abaixa a guarda quando morre o atacante.

Em um país com 200 milhões de habitantes, geograficamente desigual, socialmente desigual, economicamente desigual e culturalmente desigual, é espantoso que as diferentes facções que decorrem dessas inúmeras diferenças e polarizações tenham sabido contornar suas divergências. 

Se a política e o Estado, através de suas leis, têm sido capazes de contornar os conflitos até então, isso é questão em aberto que uma leitura mais atenta da história pode responder.

Já quanto à capacidade de contornar conflitos futuros, resta a expectativa de que sim, de que o Estado consiga contorná-los. A questão é: desejará contorná-los?

Em um momento histórico em que forças políticas deixam de apaziguar conflitos sociais e passam a estimulá-los, o que se pode esperar?

Dado que as forças políticas entendam que a melhor defesa é o ataque, o que se pode esperar?

Dado que os seres humanos não são animais que se submetem a ataques sem a devida revanche, que não se submetem sem muita luta, o que se pode esperar?

A relativa paz social das últimas décadas foi fruto da capacidade política das partes envolvidas em conflitos em transcender e achar alternativas à violência ou simplesmente foi o caso de que nos conflitos existentes, o atacante não teve força suficiente para representar uma ameaça à sua vítima potencial?

Vivemos décadas de paz porque tivemos instituições que souberam apaziguar conflitos ou tivemos paz simplesmente porque não houve conflitos? 

Eu prometo que vou tentar responder a essas questões.

Quão radicais foram os conflitos passados? Quão dividida esteve a sociedade brasileira em décadas passadas? Quem tomou a iniciativa de agredir quem? Quem intercedeu a favor ou contra quem e como a coisa foi resolvida sem um banho de sangue?

Eu disse banho de sangue? No Brasil, o país do samba, das praias e do futebol?

Precisamos entender nosso contexto atual. Não me consta haver garantia de paz social perpétua concedida a um povo qualquer que seja, por mais bela e alegre que seja a sua cultura e o seu passado.

O ataque, a agressão e por fim a violência é a decisão política extrema, um recurso final, mas nem sempre.

Onde está o agressor?

Quem é o agressor?

Quando ele agirá?

Ele já não está agindo?

Você às vezes não se sente socialmente agredido?

Pense bem.

Identifique o agressor...

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Desumanização do comércio

Você tem e-mail? Provavelmente sim.

Se tem, já deve ter recebido milhares deles.

Sabe quantos foram realmente enviados por pessoas de carne e osso e quantos foram enviados por softwares, programas automáticos de vendas ou robots comerciais e de mala direta on-line?

Não, eu não estou falando do fenômeno do spam.

Spam é mensagem não solicitada. Essas são também recebidas aos milhares, e em geral também são de origem automática, mas não é bem sobre elas que quero chamar sua atenção.

O que quero que perceba é que há um processo de desumanização das relações comerciais. 

Você compra de uma empresa que não tem pessoas te atendendo do outro lado de um balcão, de uma linha telefônica ou de um site. Você faz transações financeiras com máquinas virtuais, quando não com máquinas reais.

Um caixa eletrônico de banco é uma espécie de robot fixo em um ponto qualquer pronto a expelir ou engolir dinheiro real, além de registrar e transmitir dinheiro virtual dele para sabe-se lá onde.

Uma máquina vende ursinhos de pelúcia, se você conseguir pegá-los com uma garra complicada e imprecisa. Outra máquina vende refrigerante. E outra ainda vende flores frescas mediante o recebimento de algumas notas não tão frescas. Por fim, uma máquina abre e fecha uma cancela na entrada de um shopping center qualquer, lhe dá boas-vindas na sua chegada e recomenda que use cinto de segurança quando vai embora.

As máquinas estão se preocupando conosco!

Quantas ligações a call centers são de fato atendidas por gente de verdade e não por gravações mecanizadas?

É espantosa a expansão deste método de se fazer negócios.

Mas, há um paradoxo nisso.

Preferimos então o atendimento humano personalizado e caloroso?

Mas, onde há este tipo de atendimento hoje em dia?

Não aqui, no nosso confuso Brasil de 2014.

Em geral, somos pessimamente atendidos em quase todos os lugares. Pessoas realmente atenciosas e educadas não são facilmente encontradas em pontos comerciais comuns. Parece que o comércio só consegue contratar jovens mal educados que não sabem sequer para quem trabalham, nem o que vendem, nem onde estão, nem que somos nós, compradores, consumidores, que pagamos seus salários mínimos. Raros são os atendentes que são realmente profissionais naquilo que são contratados para fazer. 

Então, fica o paradoxo. O que você prefere: um e-mail com redação impecável enviado por um software, com um aviso de "não responder: esta é uma mensagem automática", ou um e-mail redigido por um humano, mas deselegante, cheio de erros de português, incompleto, inconclusivo e incongruente?

Quer saber?

Não prefiro nem um nem outro.

Mas, não decido nada, e como não temos muitas opções de escolha, parece que as máquinas vencerão!

Mas relaxe por enquanto: este meu texto ainda é artesanal, e tão autêntico quanto um pastel de carne, exceto que você não pode sentir cheiro algum e nem saber com quanta atenção e prazer eu o redijo e o ponho à sua disposição para que leia e tire as suas próprias conclusões.

E melhor: de graça!

domingo, 8 de dezembro de 2013

A camisa de força da disciplina

A trigésima nona pergunta da série que abordo atualmente neste blog relaciona-se com a importância da disciplina.

Já tratei da importância da disciplina como uma virtude necessária, embora não suficiente, para se obter algum tipo de sucesso com a leitura de livros de autoajuda.

Se a disciplina, tão necessária, precisa ser seguida, e se é possível tornar-se uma pessoa disciplinada, então, temos meio caminho andado na busca de resultados que os livros de autoajuda prometem. Sem disciplina, não temos sequer condições de dizer se as recomendações sugeridas pelos livros funcionam ou não.

Admitindo então ser possível uma pessoa tornar-se disciplinada, a questão passa a ser de outra ordem.

Dentro do espírito crítico que tem marcado minha abordagem das questões em estudo relacionadas a autoajuda, olho para a disciplina com um olhar cínico, desconfiado, irônico.

Se por um lado admito que as pessoas não têm o direito de criticar livros de autoajuda tomando como base a mera leitura dos mesmos, sem nenhuma tentativa séria de se colocar em prática ao menos uma pequena parte daquilo que é sugerido pelos autores desses livros, por outro vejo a pessoa que é obstinadamente disciplinada com um certo ar de crítica.

Vejamos melhor este meu ponto de vista.

Vivemos em um mundo difícil, é certo. Temos que trabalhar, estudar, cumprir uma série de rotinas que não gostamos, mas precisamos seguir para que nosso mundo não emperre, não desmorone, não entre em colapso. Não somos tão livres como gostamos de imaginar. A vida moderna nos impõe tantas regras e temos tão pouco controle real sobre nossas ações e nosso tempo que somos quase escravos.

Mas, a rotina que nos escraviza precisa ser combatida. Ela não pode ser eliminada de todo, embora muitos utopistas ingênuos ou maliciosos acreditam que pode. Não vou entrar neste tipo de discussão agora. Apenas quero lembrar que não desejamos que a rotina de obrigações tome conta total de nossa vida. Precisamos de algum equilíbrio. Mas, o que é que equilibra nossa vida, que seja contrário à rotina massacrante?

As pessoas costumam achar que o contrário da ordem é o caos. O contrário da disciplina é liberdade. O contrário da regra é a criatividade. A disciplina é uma camisa de força. A liberdade criativa é a festa que tanto desejamos.

Ao constatar que a disciplina é fundamental para se conseguir algum resultado prático no mundo das realizações humanas, não estou tornando nossa vida mais rígida, e assim, restringindo ainda mais as possibilidades criativas das pessoas, fazendo a vida menos alegre, menos livre, menos surpreendente?

Esta é a pergunta que fiz a mim mesmo, a qual reproduzo logo abaixo:

"A disciplina não é uma camisa de força?"

A resposta a esta pergunta, tal como a maioria das perguntas da série, não é fácil de ser dada em poucas palavras.

Se admitirmos que a maioria das pessoas que compram livros de autoajuda sequer se dão ao trabalho de ler uma pequena parte do livro, somos forçados a admitir que essa grande maioria não é formada de pessoas disciplinadas. Podem ter disciplina para realizar uma série de atividades quaisquer, mas não têm disciplina para o ato da leitura. Logo, as pessoas podem ser disciplinadas na realização de certos atos e indisciplinadas na realização de outros. As pessoas dispõem de liberdade de escolha para elegerem serem disciplinadas quando realizam um dado ato e não outro. Assim, as razões pelas quais uma pessoa decide realizar disciplinadamente o ato A e não o B baseiam-se em geral em questões de gosto, de custo-benefício e de viabilidade. As pessoas costumam fazer coisas que gostam. Elas também preferem coisas fáceis de serem feitas, e por fim, elas esperam alcançam algum ganho depois de se esforçarem por algo. Ninguém gosta de fazer coisas contra a vontade, nem de tarefas difíceis, nem de trabalharem de graça.

Mas, se podemos escolher, então somos livres. Não somos forçados a vestir a camisa de força da disciplina contra nossa própria vontade. Ninguém é obrigado a seguir as instruções de um livro de autoajuda contra a vontade, nem lhe são sugeridas ações fáceis e simples que lhe darão riquezas sem fim. Se algo assim é oferecido, a pessoa que se compromete com este algo o faz livremente. Se seu esforço não redunda em nada, ou é muito difícil, ela pode parar na hora que quiser.

Assim, a camisa de força existe, mas não é obrigatória.

Uma pessoa pode decidir seguir regras difíceis, longas, cansativas e que produzirão resultados incertos. Esta escolha pode se dar por uma série de razões, que a pessoa julga serem capazes de justificar seu esforço. Tarefas difíceis em geral prometem grandes coisas, embora não necessariamente garantidas. Uma pessoa pode achar que vale a pena o risco. A decisão é dela.

Uma pessoa que não gosta de levar a vida cheia de regras e de lutas árduas em troca de metas incertas e difíceis pode olhar para outra pessoa que leva uma vida regrada, cheia de objetivos difíceis e ambiciosos e pensar que a vida desta pessoa disciplinada é uma vida triste, dolorosa, que não apresenta nenhuma razão para ser vivida. Pessoas indisciplinadas detestam pessoas disciplinadas. Não é necessariamente uma questão de inveja. Por vezes, o disciplinado batalha em vão. O que o indisciplinado detesta no disciplinado é a ambição. Para a primeira, a ambição da segunda é como vender a alma ao diabo. A ganância do ambicioso faz deste uma pessoa seca, infeliz, e por maior que seja o prêmio oferecido, e ainda que ele o alcance, para o indisciplinado, não vale a pena, e o ganhador do prêmio é apenas um imbecil iludido e enganado.

Uma vida disciplinada tem seus prêmios, mas pode ser uma vida estéril. Nossa cultura moderna prega o contrário. Disciplinados são vistos como pessoas imbecis, que não vivem uma vida verdadeira. São engolidos pelo "Sistema".

Quando eu faço a pergunta a mim mesmo, eu procuro saber se em meu íntimo eu não estaria abrindo mão de uma vida feliz, embora economicamente menos promissora, em troca de uma vida financeiramente mais rica, mas pobre em todos os demais aspectos.

Acho que não vivi o suficiente para ter uma resposta dada por mim mesmo e que satisfaça a minha curiosidade.

Talvez nunca a tenha. Talvez eu a tenha em meu leito de morte. Talvez, porém, eu não venha a morrer de maneira a poder refletir sobre minha vida retrospectivamente.

As pessoas que têm este tipo de oportunidade, a de refletir sobre a vida pouco antes de morrer, costumam dar depoimentos interessantes, embora que óbvios. Não falarei sobre o tema das "reflexões no leito da morte" agora, mas prometo que uma dia falarei sobre o assunto com a atenção que o tema merece. Basta agora que eu aceite que a maioria dos depoimentos dos que refletem sobre suas vidas ao morrer recomendam menos disciplina e mais liberdade e caos, mas decidir se essas recomendações estão corretas ou não fica para outro momento.

Concluo lembrando que só podemos mudar nossa vida com relação ao futuro, e nunca em relação ao passado. Mas o futuro é incerto, de maneira que não há regra capaz de garantir que ser ou não ser disciplinado irá fazer deste futuro uma vida melhor ou pior do que imaginamos para nós mesmos.

A questão da incerteza do futuro é um problema universal não resolvido, e não serei eu que irei resolvê-lo agora, aqui, neste blog, nesta postagem singela. O que quero frisar é que eu tenho consciência de que nem mesmo os moribundos, em que pese a sabedoria de uma visão retrospectiva, detêm o poder do oráculo, e suas recomendações não possuem o poder de corrigir a vida de outras pessoas. A questão da incerteza permanece.

Falarei muito sobre o futuro neste blog, mas não agora. Agora, encerrarei esta argumentação sobre a disciplina e as limitações que ela impõe e recomendarei que leiam o próximo post. Ele abordará a disciplina sob outros aspectos, ampliando o assunto e trazendo outras considerações que julgo interessantes de serem lidas.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Queremos realmente mudar?

Queremos realmente mudar?

Esta é uma importante pergunta que fiz a mim mesmo dentro de um esforço de entender os sucessos e fracassos do uso de livros de autoajuda e de processos de aperfeiçoamento pessoal em geral. Esta é a décima quarta de uma série de quarenta e sete outras perguntas e está intimamente relacionada com a pergunta anterior, a décima terceira, da qual tratei no post anterior neste blog.

Temos problemas e por vezes não somos capazes de resolve-los por nossos próprios meios. Então, recorremos à ajuda de outras pessoas, e também aos livros que oferecem propostas de apoio, como os livros de autoajuda. Esses livros, mas não só eles, evidentemente, oferecem uma série de conselhos que podem ameaçar mudar nossos mais profundos valores e crenças, mas a decisão de acatar ou não esses conselhos cabe apenas a nós.

Eventualmente, a solução de um determinado problema pessoal passa pela necessidade de mudanças nesses valores e crenças, mas então surge a questão: estamos mesmo dispostos a mudar nossos valores e crenças apenas para resolver um problema que às vezes nem é assim tão grave?

Quer dizer, o problema existe, mas a solução que se nos apresenta pode representar a geração de novos e indesejados problemas com os quais não queremos lidar, e assim, é preferível não acatar esses conselhos e manter não atacado o problema original, com o qual nos sentimos menos desconfortáveis.

A questão que se apresenta é a do conforto com o estado presente. Nós não gostamos de mudanças, de maneira geral. Nós gostamos daquilo que é confortável para nós. Nós gostamos de coisas conhecidas, e mudanças em nossas vidas não devem ser bruscas, nem radicais demais. Pelo menos é o que acontece comigo: não gosto de mudanças bruscas demais. Aquilo que me é muito estranho me deixa desconfortável, mesmo que a mudança seja para melhor.

Às vezes esse apego ao conforto presente pode parecer um tipo de comodismo inocente, mas não é. Se por um lado em geral uma mudança pode resolver um problema e gerar outros novos, por outro ela pode resolver definitivamente o problema e nos alçar a um novo patamar de conforto no qual não nos sentimos de forma alguma tão desconfortável quanto antes. Evidentemente não se pode esperar uma vida sem algum tipo mínimo de desconforto, mas pode-se, sim, reduzir o desconforto ao longo do tempo atacando-se problemas que podem ser resolvidos sem agredir nossos valores mais caros e profundos.

Se queremos mesmo mudar ou não é uma questão que deve ser respondida sob o enfoque temporal. Se chegamos a fazer esta pergunta, é porque de alguma forma sentimos algum apego à situação atual e fazemos algum tipo de cálculo de custos e benefícios imediatos que obteremos a curto prazo diante de uma possibilidade de mudanças. Sim, a curto prazo pode parecer que não temos muito a ganhar com uma mudança que cobra-nos mudanças profundas para resolver um problema menor em nossas vidas. Mas não podemos deixar de observar a situação pensando em um horizonte temporal de mais longo prazo.

A longo prazo, uma situação presente confortável ou relativamente suportável, com problemas menores, pode-se degenerar para uma situação horrível e insuportável, e além disso, pode-se tornar uma situação de difícil reversão, senão mesmo irreversível.

A curto prazo, podemos não querer mudar, mas se projetarmos a situação atual para o futuro e atentarmos para as tendências de evolução ou correção de nossos problemas atuais, pode ser que vislumbremos uma situação que desejamos evitar. Então, precisamos agir preventivamente, agora, para evitar que a situação piore, ainda que hoje pareça ser uma bobagem despender esforços com problemas menores.

Pequenos problemas podem desaparecer por si mesmos, mas podem evoluir e virar grandes problemas. Dependendo do quão bom somos em vislumbrar cenários futuros, podemos ver se o prognóstico desses problemas é ruim. Neste caso, devemos agir agora, mudar agora, matar os problemas enquanto é cedo, arrancar pela raiz o mal enquanto ainda é um pequeno broto. Depois, pode ser tarde.

Queremos mesmo mudar? Não, necessariamente, mas por vezes, precisamos mudar, para salvaguardar nosso futuro.

Dói, mas é preciso.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

A fortuna ao meu alcance

A fortuna, entendida como riqueza material, como acúmulo de dinheiro, é algo que em determinado momento de minha vida desejei fortemente, não posso negar.

Mas desejar algo fortemente não é a mesma coisa que lutar para se conseguir este algo. Eu desejei fortemente, mas nada fiz para alcançar este objetivo. Eu simplesmente desejava, como um cão deseja o bife sobre a mesa de um restaurante no qual não pode entrar ou um garotinho deseja conhecer aquele herói de desenho animado que não existe na vida real.

Por que eu desejei a fortuna em determinado momento de minha vida?

Ora, é uma longa história.

Sei que desejei a fortuna porque deixei registrada em minhas anotações pessoais uma pergunta, a quinta de uma série, e que está diretamente relacionada a esse desejo.

Em minha quarta pergunta, cheguei à conclusão de que se eu quisesse ter algum sucesso em minha vida, eu teria que olhar primeiro para meu próprio umbigo e resolver meu problema principal, que deduzi ser a inércia como modo de vida.

Eu disse também que quando fiz essa série de perguntas embaraçosas, em 2001, eu já era formado a cinco anos em administração de empresas, e sentia uma forte frustração por não ter obtido até então nenhuma satisfação financeira ou psicológica decorrente de ter cursado o ensino superior.

Ora, se meu problema era a inércia, porque eu simplesmente não punha mãos à obra e me aventurava a seguir meus sonhos de ser empreendedor e ganhar dinheiro?

O problema é que eu já tentara isto, e ainda bem cedo, em 1996, quando cursava meu último ano de faculdade. Mas as coisas deram errado e em 2001 não havia a menor possibilidade de eu fazer uma segunda tentativa de ser empreendedor, porque então eu já estava atolado em um emprego que não só tolhia minha criatividade, minha vontade de viver e minhas esperanças futuras, como ainda bloqueava juridicamente a possibilidade de eu exercer a profissão que eu escolhera, de maneira que tentar o empreendedorismo em 2001 estava fora de cogitação.

Se por um lado eu sabia que minha vida estava estagnada em razão de minha inércia, por outro eu sabia que se eu tentasse romper a inércia e procurasse empreender alguma coisa, estaria impedido em função do emprego em que estava atolado. Era uma situação muito ruim de se viver, aquela na qual eu estava em 2001.

Então, eu poderia dar de ombros e deixar de lado meu espírito empreendedor, porque, afinal de contas, eu já estava com um emprego, fosse ele bem ou mal tolerado pelos meus gostos pessoais. Afinal, era um emprego seguro e garantido.

Mas, havia algo que me atormentava.

As pessoas em geral não estão acostumadas a pensar a longo prazo. Quase ninguém faz as coisas no dia-a-dia pensando nas consequências daqui a cinco, dez, vinte anos no futuro. Eu também não era acostumado a pensar assim, mas depois de ter estudado administração, essa forma de pensar, essa preocupação com o futuro passou a ser um hábito, ou um vício, em minha vida. Claro, não aprendi sobre como pensar no futuro apenas nos livros de administração. Aprendi também nos livros de autoajuda, mas deixarei para um outro momento esclarecer sobre como e onde obtive esse aprendizado. Por enquanto, é suficiente saber que passei a pensar no futuro como um horizonte mais amplo, e esta maneira de pensar me trouxe também algumas angústias que eu não tinha como evitar naquele momento de minha vida.

Qual deveria ser a minha sensação, ao me imaginar naquele mesmo emprego por mais vinte anos sem nenhuma mudança séria na rotina de trabalho? O que eu estava obtendo eu continuaria a obter, e essa perspectiva não era boa. Pelo contrário. Era angustiante.

É verdade que passados tantos anos depois de ter anotado minhas preocupações em 2001 a vida deu um novo rumo às minhas previsões e as coisas que eu temia não foram todas concretizadas, e oportunidades imprevistas surgiram para atuar em meu benefício, mas até então, minha limitada capacidade de antever o andar das coisas não me poupou de sentir as angústias que senti. Hoje, eu não teria tantos temores quanto ao futuro, mas naquela época, sim. Afinal, não havia ninguém para me ensinar, e o aprendizado solitário é sempre um caminho difícil e lento. Eu fui aprendendo com meus erros, eu acho, e hoje erro menos em minhas previsões. A vida é assim mesmo.

Eu deveria estar satisfeito em ter um emprego seguro, mas algo em minha mente indicava que eu não estava satisfeito. Por que eu não estava satisfeito?

Eu não estava satisfeito porque, embora eu tivesse um emprego seguro, eu sabia que era jovem e poderia obter mais da vida, muito além do que eu poderia obter somente com aquele emprego.

E eu sabia que poderia obter mais porque outras pessoas estavam obtendo mais da vida do que simplesmente um salário limitado no final de um mês sofrido. Mas, afinal, quem eu conhecia pessoalmente que estava obtendo mais do que eu próprio, que justificasse essa minha esperança em ter uma eventual fortuna ao meu alcance?

Pessoalmente eu não conhecia ninguém, mas eu era um administrador de empresas, e como administrador de empresas, eu tinha os empreendedores como modelos. E quem era o grande modelo em 2001, que despertava a inveja, a ira, o ciúme e ao mesmo tempo a admiração, a simpatia e o orgulho de grande parte do mundo civilizado?

Era Bill Gates, o homem mais rico do mundo, bilionário com pouco mais de trinta anos, uma pessoa de outro país, de um outro ramo de negócios, enfim, uma figura quase ficcional, mas nem por isso irreal e impossível de ser entendido, compreendido, e por que não, imitado.

Bill Gates é uma figura pública diretamente ligada ao mundo da tecnologia dos computadores. Eu só havia ouvido falar dele em 1994, quando comprei meu primeiro computador pessoal. Desde então, eu tenho acompanhado a evolução de sua empresa, seus produtos, suas ideias e sua vida em geral. Evidentemente que o admiro, mas não como um ídolo. Em 2001, eu o via apenas como um caso extremo de sucesso rápido, porque não conhecia outros mais surpreendentes. Ao longo dos anos, depois de 2001, tivemos a oportunidade de ver pessoas ficando ricas de maneira ainda mais rápida e impressionante, deixando claro para mim que eu não estava errado ao ter Bill Gates como um exemplo de empreendedor a ser seguido. Eu sabia e sei de minhas limitações, mas Bill Gates e todos os milionários do mundo também possuem limitações. Por que eu não poderia me tornar uma pessoa rica um dia? Ora, a fortuna estava ao alcance de qualquer um que se atrevesse a buscá-la. Por que eu não poderia me atrever ao mesmo? O que havia de errado comigo?

Então, fiz a minha quinta pergunta em minha agenda de anotações:

Por que Bill Gates não deixa minha consciência dormir em paz?

Esta foi uma pergunta sincera, verdadeira e direta. Eu poderia estar dormindo em paz todas as noites, seguro em meu emprego público não satisfatório, limitado e duro, mas já garantido, seguindo aquele velho ditado popular, segundo o qual mais vale um pássaro nas mãos do que dois voando, mas não dormia feliz.

Eu não poderia dormir em paz porque eu sabia que a longo prazo, mesmo com um salário garantido e uma aposentadoria certa, eu jamais teria o prazer de estar fazendo aquilo que eu gostaria de fazer, eu jamais iria ser dono de meu próprio nariz e eu jamais seria dono de meu próprio tempo e destino. O conforto momentâneo em que eu estava profissionalmente era apenas um engodo, uma ilusão, e quando eu me aposentasse, seria tarde demais para qualquer retomada de sonhos a muito esquecidos, e eu não queria abrir mão deles, de maneira nenhuma.

Bill Gates seria sempre uma figura a brilhar ao longe, a dizer-me que eu era um acomodado, um inerte, um fracassado, alguém que tentou, mas ficou pelo caminho, incapaz de se desenredar da rotina do dia-a-dia de um emprego sem sentido e frustrante, apenas porque se deixou seduzir pela segurança e pelo canto da sereia da estabilidade do serviço público.

Eu não queria viver o resto de minha vida trabalhando naquele serviço público. Não sabia como me livrar dele, mas tinha esperança de que a fortuna poderia estar ao meu alcance, e Bill Gates era a prova viva de que a fortuna era possível.

Inconformado, pensei em alternativas.

E, em desespero, continuei a fazer perguntas.

sábado, 6 de julho de 2013

A areia em nossas mãos

Estou tentando acompanhar o ritmo do mundo, mas está difícil. As coisas estão mudando mais rápido que nossa capacidade de nos mantermos atualizados. As informações nos abarrotam. As novidades são diárias, e complexas. 

Sinto-me bastante perturbado nas últimas semanas em decorrência da série de manifestações que abalaram o Brasil. Creio que todos os brasileiros razoavelmente bem informados estão igualmente confusos.

Mas não são somente as questões sociais que andam me perturbando.

Eu não estou conseguindo acompanhar meus próprios planos. Não estou sendo capaz de manter-me atualizado sob diversos aspectos, tais como a tecnologia da informação, a cultura, arte, saúde, finanças, ferramentas tecnológicas, política internacional, ciências, enfim, não estou conseguindo ter sob controle um mundo de coisas que antes pareciam administráveis. 

Talvez a ideia central seja esta: administração de interesses.

Admito que tenho dezenas, centenas de interesses divergentes e complexos. Interesso-me por coisas tão díspares quanto vida em outros planetas, ursos polares, violência social, filosofia, política, biologia, futurologia, história, assim como por sociologia, psicologia, neurologia, inteligência artificial, big data, espionagem internacional, tecnologia steath e jazz. Simplesmente tenho interesses demais, e todas estas áreas produzem diariamente uma quantidade enorme de informação, informação demais para que se possa absorver, ler, ver, ouvir e pensar sobre as mesmas com a calma e a serenidade necessárias.

Mas creio que o problema é geral.

O caso Edward Snowden, agora tão falando em toda imprensa internacional, deixa claro a sensação de assoberbação que domina a todos, seja pessoas, seja instituições. É espantoso, e ao mesmo tempo acalentador, saber que a maior potência do mundo, os EUA, consegue espionar todo o mundo via tecnologia da informação, mas não é capaz de digerir os dados. Eles coletam dados, mas não possuem recursos para analisá-los. A massa de bits coletados está além da capacidade da tecnologia atual. Este fato deveria servir de alerta para todos, pessoas e instituições, a respeito de nossa cegueira diante de tanta informação. É como querer ver o Sol muito de perto. É muita luz, muita energia, muita demanda e pouca assimilação, pouco processamento, pouca apreensão.

Este é um problema e como todo  problema, ele demanda uma solução. A solução, ou soluções, quase que necessariamente complexas, implicam em desafio, e ao mesmo tempo, em oportunidades infinitas de poder, lucro e sucesso.

Os bits, tais quais grãos de areia em nossas mãos, são voláteis. Temos um Saara à nossa frente. Cada um desses grãos pode ser um simples grão de areia, ou pode ser um grão de ouro, ou um pequeno diamante. Mas, sejam eles de que material for, escapam-nos das mãos. Aquele que conseguir os meios de retê-los, e analisá-los, tem em mãos o poder que ninguém hoje mais tem.

Quais as possíveis maneiras de se abordar o problema? O que um simples cidadão comum pode pensar a respeito?

O tempo, mais uma vez o tempo, é, creio eu, a resposta. 

O tempo é, definitivamente, o recurso mais valioso e escasso que temos hoje.

Mais do que nunca, tempo não só é dinheiro, mas tempo é ouro e poder.

Dome o tempo, e domará o mundo.

Mas, como domar o tempo?

Eu tenho pensado, eu tenho pensado...

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Guerra Mundial Z

Eis outro filme que parece estar nos preparando para o pior.

Assisti-o no domingo, dia 30 de junho. Já tinha visto o trailer do filme no Youtube. Brad Pitt. 

Eu fiz alguns comentários sobre o que penso de filmes futuristas e sobre catástrofes quando assisti "Eu, robot!", aqui, neste blog, em 2004. Continuo pensando a mesma coisa.

Quer um conselho? Assista ao filme.

Agora, é torcer para que venham as duas continuações que estão planejadas, a depender somente do sucesso deste primeiro lançamento.

Legal. Bem legal.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Colapso brasileiro

Parece que a sociedade brasileira está vivendo o começo de um colapso social. 

As instituições existem, o Estado existe. As pessoas estão aí, vivendo e trabalhando, mas há algo sintomático nisto tudo. Há uma forte sensação de que as coisas não vão bem, e não tem nada a ver com o crescimento do PIB ou dos juros, nem com Mensalão ou com qualquer um dos assuntos do dia-a-dia dos jornais e sites país afora.

O que percebo é uma corrosão de valores tidos como elementares para que se tenha uma sociedade, valores que mantêm uma sociedade coesa e funcional. Percebo uma inversão de valores, onde o certo passa a ser o errado, e onde o que era errado e condenável até ontem passa a ser o correto, o defensável, o exemplo a ser seguido no dia de hoje, sem aviso prévio. Se não parecesse tanto com um estado de paranoia extremista, eu diria simplesmente que nossas instituições e nossa sociedade estão contaminadas ou mesmo já dominadas pelo narcocapitalismo internacional espertamente disfarçado de esquerda militante. As FARCs venceram, e mandam na América, de Norte a Sul, sem exceção. Eles estão em postos chaves dos governos, nas ONGs, manipulam as mídias e fazem a cabeça da população para que todos liberem geral e consumam muita, muita droga, ou muito, muito de tudo aquilo que eles têm para nos vender a preço de ouro, mas que não podem vender abertamente porque os governos não deixam.

Mas não, não vivemos sob um governo fantoche. Dilma não é o braço político dos barões. O que vivemos é somente o resultado de décadas de miséria e ignorância plantadas por governos brasileiros passados e pela sempre leniente e atrasada sociedade brasileira, que agora não sabe como resolver o problema da violência, do atraso social e da irrelevância econômica, depois de alguns anos de arremedo de progresso, desenvolvimento e sanidade, que já passaram e que agora são apenas vagas páginas nos livros de História.

Sem conspirações: somos apenas um país com muitos milhões de ignorantes que não sabemos como resolver os problemas que nós mesmos criamos.

Não, a solução não está no comunismo. Não, a solução não está na Copa do Mundo, nem nas Olimpíadas, nem nos movimentos sociais. A solução, seja ela qual for, não está lá fora, nem em fórmulas antigas e desgastadas. Nenhum país virá em nosso socorro. Nós não somos um Haiti. E nenhum filósofo morto nos dirá qual caminho a seguir. Nós não somos a Rússia. Mas, ainda assim, se nada for tentado, nós simplesmente nos desintegraremos, como a carcaça de uma grande baleia encalhada em uma praia remota, e o mundo seguirá sem nós.

Não acho que viverei mais cinquenta anos para ver o Brasil se tornar grande. Ele já é grande. Ele sempre foi grande. Não é tamanho o que esperamos deste país. Não é um PIB grande que marca uma grande nação. Ao envelhecer, percebo que venho ouvindo este canto de sereia do Brasil grande desde quando tinha meus seis anos de idade. Agora, não espero avanços. Espero somente que a vida volte a ser como já foi. Sim, nós já vivemos melhor do que estamos vivendo hoje, em muitos aspectos, posso afirmar com certeza. Mas simplesmente para correr atrás do tempo perdido, é preciso que mudemos nosso modo de ser. Se não mudarmos, nada muda.

Mas, creio que uma das coisas mais difíceis de se mudar é a mente humana adulta. Nós não temos conhecimento suficiente sobre como fazer isto. Nós não temos tecnologia para fazer isto. Nós, ainda assim, poderíamos ter este poder, o de fazer de um analfabeto um cidadão instruído, ou de um usuário de crack um cidadão sóbrio, ou de um criminoso um cidadão íntegro. Mas, se tivéssemos este poder tecnológico, não teríamos o poder legal, nem ético, de mudar as mentes das pessoas. Se assim fosse, onde entraria o direito do preguiçoso de optar pela preguiça, e não pelo trabalho, e o direito do criminoso de optar pelo crime em vez de optar pela vida social normal, cheia de regras, segundo ele próprio, absurdas, totalitárias e limitadoras de suas liberdades pessoais?

Pois bem, as pessoas não podem ser mudadas, senão por vontade própria, e os brasileiros não querem mudar. Eles não sabem que precisam mudar, mas ainda assim, se soubessem, eles achariam que não precisam mudar, e não mudarão, não em um futuro próximo. Além do mais, a Democracia dá a toda pessoa a liberdade de não mudar, de ser o que ela deseja ser, sem mais. Assim, a Democracia, que permite a todos quase tudo, será a espada que defenderá o caos social. A Democracia, legitimando a estagnação social de uma maioria, ata as mãos da minoria que busca mudanças. 

A Democracia moderna, tal como o computador, a estação espacial e a terapia genética, é uma invenção humana recente, sofisticada, e por isto mesmo, complexa e frágil, e não foi feita para sobreviver em meio a pessoas que não a valorizam. Favorável a uma maioria que não a abomina, mas nem por isso a respeita, a Democracia ata as iniciativas de quem a defende, e por isso, morre junto com seus defensores. A Democracia, ao permitir que os que não a respeitam atentem contra ela própria, suicida-se, porque ela, sem quem a defenda e a respeite, não é nada. Uma lei que não é respeitada, é letra morta, e portanto, não é lei. Uma Democracia calcada em leis que ninguém respeita não é Democracia.

Ora, nós, brasileiros, queremos os direitos garantidos por uma Democracia de nação civilizada, mas  não o dever de respeitar as leis que ordenam uma sociedade, emanadas por esta mesma Democracia. Democracia moderna em meio a uma sociedade que não a respeita é, no máximo, falsa Democracia. Não defendo de forma alguma um futuro sem Democracia. Logo, sou forçado a admitir que o jeitinho brasileiro venceu mesmo o mundo normal e democrático das regras, e que seremos o eterno pais de malandros, o que não é nem deveria ser novidade para ninguém, exceto que apelar para o jeitinho brasileiro nada mais é que enfiar uma faca nas costas daquela que o defende, ou, dizendo ainda de uma maneira mais clara, é preciso que aceitemos que a Democracia nunca funcionará entre um povo que tem por orgulho nacional a sua capacidade infinita de desrespeitar toda e qualquer regra que a própria Democracia lhe impõe. Como a Democracia pode sobreviver onde ninguém a respeita? A Democracia nada pode contra a ousadia do malandro. O Brasil, enfim, torna-se, dia após dia, cada vez mais uma autêntica e legítima Ditadura da Malandragem. Alguns dirão solenemente que caminhamos para uma Anarquia controlada, mas não é esta a verdade. 

Talvez eu não viva o suficiente para ver o Brasil se esfacelar, mas, até prova em contrário, ele agoniza sobre seu próprio peso hoje, agora, neste exato momento, e as crianças degoladas, e as crianças violentadas, e as crianças com os cérebros espedaçados por balas perdidas e balas intencionais, estas são a prova viva de que um país assim não só não durará muito, mas, mais que isto, um país assim não merece durar mais do que já tem durado.

Ou se reconstrói o país sob novas fundações - e essas fundações não são as fundações comunistas carcomidas pela prova da realidade histórica - ou o povo brasileiro destruirá a si próprio, sem guerras, sem lutas, sem revoluções, mas atritando-se, vergando-se sob seu próprio peso, em filas desordenadas, em chacinas corriqueiras, em tiroteios banalizados, em mortes por doenças absurdas, por acidentes absurdos, enfim, destruirá a si mesmo como aqueles animais psicologicamente doentes que viciam-se em comer partes de si mesmos e acabam por morrer mutilados e tristes, incapazes de mudar seu "jeitinho" doentio de ser.

Nós não vivemos uma luta de classes. Nós vivemos em uma UTI sociológica, derrubados por uma doença cultural, mescla de malandragem, ignorância e preguiça. Sim, eu sei, já disseram isto antes. Quem disse, contudo, estava coberto de razão!

Não, a Copa do Mundo não nos livrará de nós mesmos. Antes, e muito depois disto, continuaremos a vida sob toque de recolher, e enterraremos nossos mortos inocentes, sob as barbas brancas de uma Democracia velha e senil, que rirá de nosso luto e dirá: "A culpa é do morto..."

Triste, medíocre, este povo brasileiro passivo, que não reaje...

terça-feira, 9 de abril de 2013

Pacifismo e passividade

As palavras são parecidas, e seus sentidos, idem. Mas há entre elas uma diferença que, se não realçada, pode traçar mesmo o destino de uma grande nação.

Falo isto com o intuito de esclarecer o que acho que seja uma imensa confusão entre um conceito e outro, e que acaba fazendo do povo brasileiro um povo que vê seu país afundar de uma maneira que o torna incapaz de reação ou de luta.

Somos chamados de povo pacífico. Ora, somos mesmo? Não enfrentamos guerras a muito tempo. Logo, parece que somos mesmo pacíficos, se não mesmo pacifistas. Mas este aspecto externo, de sermos um povo que não busca lutar contra nações e povos vizinhos, não é mérito algum, se pensarmos na questão interna, onde lutamos uns contra os outros, sem que se caracterize uma guerra civil, mas ao mesmo tempo se caracterize um conflito tão renhido, crônico e doloroso que produz como resultado mais mortes que uma dúzia de guerras externas.

Quem nos chama assim, de pacíficos, quando não o somos de forma alguma?

E com que objetivo? Para que pensemos que somos um povo civilizado, quando não o somos? Quem ganha com essa triste ilusão?

Nós não somos um povo pacífico de forma alguma. Matamo-nos aos milhões. Assim, pergunto: quem nos rotula, falsamente, de sermos um povo pacífico? A quem interessa este rótulo falso?

Como pode ser pacífico um povo que enterra centenas de milhares dos seus próprios semelhantes ano após ano, incapaz de tomar qualquer medida que seja para conter essa sangria horrenda?

Mas quem quer que seja que nos rotule de pacíficos, está prestando um grande desserviço ao povo brasileiro.

Somos nós mesmos que nos rotulamos de pacíficos? Se for, fazemos isto inocentemente?

Seja quem for, e seja qual for a motivação, inocente ou não, o resultado deste rótulo é um só: tornamo-nos um povo passivo.

Passividade é um estado de espírito. Passividade não é uma característica que se deva desejar para um povo. A passividade pressupõe derrota. Um indivíduo passivo está longe de ser um sujeito pacífico. Passividade não implica paz de forma alguma. Pelo contrário: somente porque há cidadãos passivos é que a minoria agressiva se sente segura para cometer seus delitos e atrocidades. Um sujeito passivo torna a si mesmo uma vítima fácil para todo tipo de oportunista.

O povo brasileiro não é pacífico; é passivo. Por ser assim, enterra todos anos, nas últimas quatro, cinco décadas, 50 mil mortos no trânsito, mais 50 mil mortos assassinados, e mantém 700 mil presos nos presídios, a nata de sua juventude, e amarga um governo que está muito aquém de suas necessidades.

Nós não precisamos temer sermos tachados de um povo agressivo se, de repente, resolvermos agir firmemente diante de problemas que requerem força, determinação e, por vezes mesmo violência. Não creio que se possa combater a ação violenta de uns com a passividade de outros. Quem usa de violência não teme a agressão meramente moral, verbal ou teórica de seu oponente.

Eis aí um tipo de confusão de conceitos que mais dia, menos dia, será esclarecido da pior maneira possível.

Creio que estamos à beira de uma guerra civil, em situação pior da que se viveu em 1961 e 1964.

Quem viver, verá.

Não seja passivo. Seja pacifista, mas não passivo.


sexta-feira, 5 de abril de 2013

O mundo em crise

Não sei, mas parece que, mais do que nunca, o mundo vive uma crise aguda e dolorosa, e, parece-me, sem possibilidade de saída.

É deprimente ver, por exemplo, um país ameaçar outro abertamente com a possibilidade de um ataque nuclear. Parece coisa de filmes B dos anos 60, de um século que parecia morto e enterrado.

Parece que estamos andando na contra-mão do racional e sensato. Nada vai bem. Não há perspectivas positivas à vista, e a pior coisa é ver a sociedade, não somente a brasileira, mas a global, afundando como um Titanic atingida por um iceberg chamado Internet.

Nem sei para quem escrevo isto. Nem sei por que continuo com este blog.

Olho para ele todos os dias. Nada me inspira a escrever algo que valha a pena ser escrito.

Acho que, no fundo, a luta terminou em derrota, e todos perdemos esta guerra sem vencedores.

Não acredito em guerras nucleares. Elas não ocorrerão. Nem é preciso. O mundo murcha como um gigantesco zepelim, e cai sem maiores esforços.

Tudo foi em vão.

O caos vence.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

sábado, 22 de dezembro de 2012

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

domingo, 15 de agosto de 2004

Jim Carrey - Brilho Eterno

Assisti ao novo filme com Jim Carrey. Devo admitir que ele tem um carisma que faz qualquer filme brilhar, mesmo que o tema em si não seja dos mais inspirados. Não sei se é o caso deste.

A ideia gira em torno de uma possível técnica de se apagarem nossas memórias indesejáveis. Pois bem, suponhamos que um dia isso se torne uma realidade e teremos a namorada cansada da cara do namorado procurando uma clínica especializada e pedindo para esquecê-lo, literalmente. As consequências não são tão difíceis de se imaginar. Disso tiro três conclusões:

Primeiro: que os filmes atualmente estão fazendo uma espécie de lavagem cerebral subliminar, algo que, sem paranoia, daria um tema para um bom filme sobre o quarto poder e sobre a mídia em geral. Cada filme que sugira uma realidade futura plausível está, mesmo que não intencionalmente, preparando seu público para caso a ficção um dia venha a tornar-se realidade. Um filme como Sinais faz com que se daqui a alguns anos fizermos contato com alienígenas a coisa não pareça tão absurda. E não é só Sinais. Contato, Aliens, Enigma de Outro Mundo, Independe Day e mesmo Men In Black fazem isso: preparam a humanidade para o dia do verdadeiro contato. E fazem com que descobertas fantásticas, como as que as sondas espaciais fazem quase que diariamente, passem desapercebidas, porque não mirabolantes do ponto de vista dos filmes. Um computador como Hall 2000, de "2001: Uma Odisseia no Espaço", faz nossos modernos Pentium parecerem radios velhos a válvula, embora nem Bruce Willis em Nova York Sitiada tenha sido capaz de nos preparar para um 11 de Setembro. Mas de modo geral, os filmes aplainam o terreno, deixam a coisa mais maleável.

No ramo dos avanços da medicina, um destaque vai para Vanilla Sky, que tenta nos preparar para o dia de nossa imortalidade. E Tom Cruise de novo tenta nos preparar para o dia em que dominarmos os poderes extrassensoriais, em Minority Report. Este, de Jim Carrey, tenta fazer o mesmo, embora muito discretamente, muito subliminarmente.

Minha segunda conclusão: a de que se um dia tivermos a nossa disposição um recurso desses, se teria realmente utilidade maior que um desfibrilador cardíaco ou um monitor de um ultrassom médico. Não sei se pessoas normais iriam querer esquecer algo, mesmo indesejável. Claro, há traumas que devem ser esquecidos, mas qual o sentido de se esquecer um mal relacionamento, um mal patrão, um mal dia? Penso que na verdade, somos aquilo que há em nossas memórias, e não é sem motivo que uma pancada na cabeça que faça alguém esquecer tudo que viveu em uma vida é um acontecimento considerado bizarro do ponto de vista médico, e um cidadão assim não possui uma personalidade, do ponto de vista social. Ele tem um passado, é certo, mas somente nas mentes de outras pessoas. Ele próprio não é ninguém: um simples quadro em branco. Somos o que somos exatamente porque somos a soma de nossas boas e más lembranças. Quem não se espanta quando ouve uma velha música, relê um velho livro, assiste um velho filme, encontra um rosto a muito esquecido, viaja de volta a lugares a muito esquecidos, relê uma carta amarelada e esquecida numa gaveta qualquer? Mesmo uma má lembrança que venha a ser recordada ainda assim nestes casos é bem vinda. Dai...

Tiro minha terceira conclusão: a de que nosso problema não é uma máquina de esquecer. Essa nós já temos: o tempo. Basta esperar, e tudo será esquecido, mais cedo ou mais tarde. Nosso problema é o contrário. Precisamos de uma máquina de recordar. Precisamos escavar fundo em nossa mente e descobrir, colocar a salvo para todo o sempre aquilo que um dia vivemos, mesmo que venhamos a botar a salvo numa folha de papel, num diário, num discurso com nossos netos e mesmo nos nossos blogs, por que não? Imagine o dia em que tivermos a máquina das lembranças. Sente-se, pague sua sessão e tenha boas recordações! E salve-as em vídeo! Mostre ao mundo o que viveu de verdade!

Quando esse dia vai chegar?


segunda-feira, 9 de agosto de 2004

Eu, robô

Acabei de assistir o filme "Eu, robô".

Filmes de ficção são um caso à parte. Aliás, o cinema é um caso à parte, penso eu. É paradoxal que um filme de ficção científica consiga fazer com que um fato real se pareça ficção, e com isso, faça com que a ficção se pareça com um fato. Vou tentar me explicar.

Sempre que assisto a um filme de ficção, percebo quatro coisas interessantes:

Primeiro: que os criadores dos filmes de ficção realmente conseguem fazer com que o futuro pareça algo incrivelmente diferente e maravilhoso, ao menos no momento em que o filme está em cartaz. Claro, no momento em que é lançado, o filme com cenas futuristas é o que melhor retrata o futuro para o seu exato presente. Depois de alguns anos, se assistirmos ao mesmo filme, provavelmente veremos que o futuro que ele prometia não se concretizou, ou que era uma promessa absurda, ou ridícula, ou avançada demais, mas no momento do lançamento, eles realmente conseguem captar nossas melhores expectativas quanto ao futuro.

Segundo: que embora eles versem sobre o futuro, esse futuro, por mais longínquo que seja, ainda é próximo demais para que venhamos a vê-lo materializado em realidade. Há cenas de filmes que se passam em 2020 e que achamos que se realmente elas se tornarem fatos em 2020, então um futuro maravilhoso nos aguarda, mas as coisas na vida real são muito mais lentas. Filmes que mostram coisas em 2020 tratam, na verdade, de coisas que só virão a ocorrer em 2200. Sempre ficamos com uma leve sensação de que, com o passar dos anos, o filme prometia coisas boas demais, cedo demais, para serem possíveis, e sentimos uma certa frustração. Mas só podemos perceber isso bem depois que o filme foi lançado.

Terceiro: a indústria do cinema, por ela mesma, nunca foi considerada como parte de um possível futuro. Não fazemos ficção sobre a indústria do cinema, e por isso, não alimentamos expectativas sobre seu futuro, mas ele chegou: ninguém a cinquenta anos atrás seria capaz de imaginar os avanços que a computação gráfica e os efeitos especiais iriam alcançar. Assistir um filme de ficção fabuloso é assistir também ao presente. Afinal, o filme foi feito agora a pouco, e ele é real. Foi possível fazê-lo! Eis o futuro tornando-se presente!

E por fim, quarto: nós sequer damos conta disso, de que o futuro chegou, ao menos em determinadas áreas. Não temos homens aos montes no espaço, mas temos a Internet, os computadores, o e-mail, os celulares, os efeitos especiais nos cinemas, e sequer damos conta disso. E temos os carros populares!

E por que não nos damos conta disso?

Acho que é porque estamos atolados até o pescoço nisso tudo que chamamos desenvolvimento tecnológico.

Para sermos sinceros, estamos passando pela maior revolução que a humanidade, o planeta, o cosmo já viu, e sequer temos consciência da dimensão dessa revolução. A dimensão da coisa é fantástica, e Will Smith é apenas parte do processo.

Onde isso vai parar?