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quinta-feira, 4 de setembro de 2014

O que é exatamente o sucesso? - parte 2

Se você está lendo este texto, pode já ter conhecimento de quais sejam os cinco ingredientes do sucesso, segundo Og Mandino. Se você já leu a primeira parte deste texto, ótimo. Se você não leu e não sabe, eis os mesmos aqui:

1 - Propósito.
2 - Média de aproveitamento.
3 - Esforço.
4 - Satisfação.
5 - Espiritualidade.

Na verdade, quem primeiro elencou esses cinco ingredientes não foi o escritor Og Mandino, mas o também escritor Howard Whitman, em seu livro "O sucesso está em você".

Whitman pensou bastante sobre o assunto do que seja o sucesso, e ele chegou à conclusão que há basicamente dois tipos de sucesso. Primeiro, há o sucesso socialmente reconhecido, aquele no qual as pessoas reconhecem fama, fortuna, celebridade, poder e glamour, popularidade ou qualquer outro atributo que elas julgam merecedor de elogios, e que as pessoas que o tem destaquem-se dentre seus vizinhos em razão dele.

Segundo, há o sucesso pessoal, particular, íntimo, aquele no qual as pessoas nem sempre reconhecem algum mérito, e que aos olhos da sociedade, pode muito bem passar desapercebido, mas ainda assim, ser um tipo legítimo de sucesso.

Whitman afirma que o sucesso íntimo é tão legítimo quanto o sucesso social. Ele vai mais longe e afirma que os dois tipos de sucesso são autenticamente sucesso, mas que o sucesso íntimo é mais importante que o sucesso social. Ambos podem coexistir, mas podem aparecer na vida das pessoas isoladamente. Por fim, se é que seja possível apenas que apareçam isoladamente, é preferível que se tenha apenas o sucesso pessoal, porque o sucesso social isolado implica em fracasso íntimo, ou frustração, ou indiferença íntima, e isso não é nada bom.

Se parece difícil entender esses conceitos, Whitman nos faz uma comparação, e nos remete a uma garrafa de refrigerante e seu canudinho. Ele equipara o líquido refrigerante ao sucesso íntimo, e o canudinho ao sucesso social. Ambos formam um par que combina bem, mas se fosse para escolher entre o refrigerante e o canudinho, com qual dos dois você ficaria?

Obviamente, essa é uma opinião pessoal de um autor apenas, mas deve ser seriamente levada em consideração. 

Mas qual a diferença entre sucesso íntimo e sucesso social?

É que o sucesso social é apenas uma opinião de pessoas que normalmente não se importam se o dono do sucesso está intimamente bem ou feliz com aquilo que lhe dá o sucesso. Já o sucesso íntimo é a percepção que uma pessoa tem de si mesma. Uma pessoa considera-se um sucesso para si mesma em virtude de ter um atributo que considera uma fonte de felicidade, realização, orgulho, ainda que ninguém mais se dê conta disto.

De que adianta o mundo todo o considerar uma pessoa de sucesso se em seu íntimo você não se considera tanto assim?

Por outro lado, que importa se o mundo não reconhece seus méritos, desde que você, sinceramente, em seu íntimo, saiba que é um sucesso a seus próprios olhos e dentro de seus próprios critérios?

Seria bom que o mundo reconhecesse também esses seus méritos, mas se não o faz, que mal há nisso?

Com base nesses dois tipos de sucesso, parece que é mais útil ter sucesso íntimo que sucesso social, correto?

Na verdade, o sucesso íntimo, porque definido por apenas nós mesmos, é muito mais fácil de ser alcançado. Convenhamos: é muito mais fácil agradar a nós mesmos que agradar a dezenas, centenas, milhares ou milhões de pessoas ao mesmo tempo.

Mas, se o sucesso íntimo é tão mais útil e tão mais fácil de ser alcançado que o sucesso social, por que as pessoas hoje em dia se apegam tanto à busca do sucesso social e esquecem ou sequer sabem que o sucesso íntimo existe e é muito mais importante?

É o que veremos na continuação desta lição.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Azar sistemático?

Li a dois dias atrás uma frase reveladora em um post do Facebook que tem-me feito pensar. Pesquisei sobre quem poderia ser o autor da frase, que no Facebook é atribuída a Ian Fleming, o autor de James Bond.

A verdade é que a frase é de um personagem de Fleming, Goldfinger, que, em determinado momento do livro, ou do filme, não sei dizer, adverte astutamente um ingênuo James Bond:

"Mr. Bond, uma vez é acaso, duas vezes é coincidência, três vezes é ação do inimigo."

Pausa...

No instante em que a li, tive um lampejo de lucidez sobre algo que me era obscuro, mas que eu conseguia perceber tenuemente no desenrolar das coisas. Fleming deu precisão e clareza para algo que eu sentia vagamente como uma perturbação, mas que não tinha nome nem rosto.

Agora, essa perturbação tem identidade: o inimigo.

Vamos refletir um pouco mais sobre a veracidade ou não da frase.

Pausa novamente...

O estudo da sorte e do azar é uma tarefa que tem gerado abundantes e curiosíssimos estudos mundo afora. Os casos de azar sistemático existem, mas são tão bizarros, tão incomuns e tão curiosos que viram anedota, tornam-se casos de estudo probabilístico e por fim, viram lenda. Fora isto, nossas dificuldades são quase sempre frutos de algo que Fleming chama de "inimigo".

Eu entendo aqui o termo como um ente despersonalizado. Não sei o contexto dentro do qual a frase foi tirada, por isso, penso que Goldfinger possa estar referindo-se a uma pessoa ou grupo em particular. Mas dentro de um contexto genérico e mais amplo, podemos considerar como "inimigo" qualquer forma de obstáculo que freia, bloqueia ou impede nossas ações reiteradas de maneira sistemática, de forma que devemos deixar de olhar o obstáculo em si e pensar em uma força, uma vontade inteligente por trás do obstáculo, de forma a poder melhor identificarmos causas e razões que levariam este "inimigo" a nos bloquear.

Tem alguma coisa a ver com o tema marxista do "opressor" e do "oprimido", mas não é a mesma coisa. Prometo que farei uma análise mais detalhada dessa ligação, mas não agora.

De qualquer forma, a frase insere uma pitada de sabedoria ao meu modo de ver as coisas que parece-me uma trilha, uma heurística mental promissora.

As coisas não estão dando certo? Então foi por mero acaso. Tente novamente...

Deram errado novamente? Coincidência, azar, pé frio, tudo bem, isso justifica toda a frustração e irritação, mas, mais uma vez, tente novamente...

Deram errado novamente? Bingo! É hora de parar, estudar o caso e procurar, nas sombras, o vulto que está colocando as pedras no caminho. Por quê? Com que objetivo?

Essas perguntas e suas respostas valem ouro, e o mero afastar do acaso e azar como causas de nossas derrotas nos permite dar um passo para trás, ou adotar uma visão panorâmica do terreno, e então, munidos desta nova perspectiva, podemos fazer uma nova tentativa, certamente mais frutífera, com uma nova abordagem, com mais chances de termos sucesso.

Você tem tido sorte nos negócios? Tem perdido sistematicamente na bolsa de valores?

Você é azarado?

Você não é o único...

quinta-feira, 8 de maio de 2014

A pirâmide do fracasso

Depois de um longo período de experiências com livros de autoajuda, quando tive a oportunidade e a motivação para colocar em prática de maneira disciplinada e metódica uma ampla variedade de conselhos, dicas, ensinamentos e modos de pensar sugeridos por pelo menos meia dúzia de renomados escritores do tema, acabei sendo envolto por uma nuvem de ceticismo e crítica.

Sempre supus que o problema com os livros de autoajuda se devia ao fato de que as pessoas simplesmente os leem como quem lê um romance, quando, na verdade, eles, os livros de autoajuda, deveriam ser estudados tal como o são os livros técnicos, e ter seus métodos aplicados na vida real, no dia a dia de quem se propõe  a estudá-los e deles pretendem tirarem algum proveito verdadeiro.

Eu lera livros de autoajuda entre 1990 e 1992, e depois os deixara de lado. Ora, eu era apenas mais um dos que simplesmente os lera como meros romances estimulantes, mas não práticos. Então, diante de um momento crítico de problemas pessoais, pareceu-me que a solução da situação crítica dependesse de um esforço pessoal mais sério, e assim, em 2001, resolvi que os livros de autoajuda até então lidos como romances deveriam ser lidos como livros de estudo, como manuais práticos a serem seguidos metódica e disciplinadamente.

Tomei de "A universidade do sucesso", de Og Mandino, e de "Como evitar preocupações e começar a viver", de Dale Carnegie, além de alguns outros livros de autores menos conhecidos, mas igualmente cheios de sugestões práticas e supostamente eficazes, e me dispus ao estudo.

Pois bem, o tempo foi passando, eu me mantive atento à disciplina recomendada por eles, os autores dos livros, mas, apesar da passagem do tempo e de todos os meus esforços disciplinados, nada aconteceu. Nada em minha vida mudou realmente.

Quanto tempo eu perseverei em minha disciplina de aprendiz?

Um ano?

Sim, no mínimo.

Um ano é um bom tempo. Não acho que se deva persistir em algo que não está dando certo por muito mais tempo que isso. Experiências precisam ser avaliadas em seus resultados ao longo do tempo e, neste caso, pareceu-me que um ano de experiência, ou um tempo próximo disto, já deveria ser suficiente.

Algo não estava saindo como os livros diziam que sairia.

Comecei a perceber certas coisas que os livros não ensinavam. Algo estava errado, mas mais especificamente, havia uma frase que eu tomara como verdadeira, e que agora, depois de constantemente pensar e trabalhar sobre ela, parecia-me não ser confirmada pelos fatos. Daí então, fui forçado a me dobrar aos fatos e passei a questioná-la. 

Em um processo de ensino, é de bom tom imaginar que o aluno sabe menos que o professor, e que se algo sai errado, em geral a culpa é do aluno, que não foi atencioso o suficiente, não foi dedicado o suficiente, não possui a inteligência suficiente para compreender as lições ensinadas pelo professor. Evidentemente, o professor pode ter parte na culpa, já que pode não ter sido suficientemente didático. Mas, em se tratando de livros de autoajuda, eu, o aluno, não poderia colocar a culpa no professor, no livro em si, já que poderia retornar às lições a serem aprendidas o número de vezes que fosse necessário para que pudesse assimilar o que estava sendo ensinado. E eu retornei às lições não uma, nem duas vezes, mas várias, tantas quantas julguei necessárias, de modo tal que praticamente decorei certos preceitos tidos como fundamentais para a efetividade de cada lição em si.

Quanto à lição básica, tirada da frase que tomei como verdadeira, ao menos por algum tempo, era a que atribui a nós mesmos a culpa pelas nossas dificuldades em alcançarmos aquilo que desejamos.

Eu teci alguns comentários aqui sobre essa frase. De qualquer forma, reproduzo-a novamente, para que melhor possamos apreciá-la:

“Tome cuidado apenas consigo mesmo e mais ninguém; trazemos nossos piores inimigos dentro de nós.”
Charles Spurgeon

A frase encontra-se no livro de Mandino.

Tomei-a por verdadeira por um longo tempo, mas, na medida em que não obtinha resultados palpáveis com a disciplina na aplicação dos ensinamentos dos livros de autoajuda, comecei a pensar que, bem, sendo eu disciplinado, e estando eu aplicando metodicamente as lições aprendidas, e nada obtendo em troca, abria-se a possibilidade de que o problema poderia estar na lição em si, que poderia, ao menos hipoteticamente, estar errada.

Lendo a frase em um primeiro relance, sentimos que somos chamados a assumir a responsabilidade por nós mesmos, para pararmos de procurar culpados pelos nossos problemas, para deixarmos de nos fazer de vítimas. Essa visão responsável da vida é correta, não há dúvida. Mas, diante de meus péssimos resultados, senti-me frustrado.

Fiquei com uma forte sensação de estar sendo enganado pelos livros de autoajuda, porque, afinal, onde estavam os resultados?

Influenciado por uma outra frase, de um outro livro, um livro de filosofia de Alfred J. Ayer, "As questões centrais da Filosofia", dos quais tratarei adequadamente em um post oportuno em breve, pensei bem sobre o conteúdo da frase, e observei que ela nos alerta para o fato de que podemos ser nossos piores inimigos, mas também observei que ela não limita nossos inimigos a nós mesmos. Quer dizer, podemos ser nossos piores inimigos, mas nem por isso somos nossos únicos inimigos. Se não bastasse termos de nos vigiar e policiar contra nossas falhas, fraquezas e deslizes, temos ainda que saber que temos outros inimigos que não nós mesmos. 

A frase ainda não diz que nossos inimigos são pouco dignos de atenção apenas porque nós somos piores do que eles. Podemos ter inimigos externos a nós que sejam bastante duros e perigosos. Então, a frase em si era uma meia verdade. 

Repetindo: é verdade que trazemos nosso pior inimigo dentro de nós mesmos, mas não é verdade que, em decorrência disso, devemos tomar cuidado apenas conosco mesmos. O fato de eu cuidar de mim mesmo não faz de meus inimigos externos menos ameaçadores do que já são. Logo, se os negligencio, então não os combato, e portanto, não consigo aquilo que desejo, porque eles são um obstáculo oculto que se opõe a meus intentos. 

Pior: ao focar apenas em mim mesmo, meus inimigos externos desaparecem, como se não existissem. E esse é um erro o qual não podemos cometer.

Então, ao cuidar de mim mesmo, e ainda assim enfrentar obstáculos, observei e vi que há, sim, inimigos externos poderosos, e eles não estão nem um pouco dispostos a nos ajudar em nossa luta diária que travamos de encontro aos nossos desejos, anseios e objetivos.

Que inimigos são esses?

Eu pensei bastante, e teorizei que o mundo, tal como está estruturado, é um dos maiores obstáculos que enfrentamos na nossa luta por objetivos.

Mas, como o mundo está estruturado? Que estrutura é esta que nos impede de ir em frente de maneira fácil e rápida rumo aos nossos tão sonhados desejos, como propõem os livros de autoajuda?

A barreira que vislumbrei na estrutura do mundo é que esta é formada de alguns megasistemas sociais que são desenhados sobre a forma de pirâmides hierárquicas. Costumamos chamar essas pirâmides hierárquicas com o nosso aparentemente neutro e científico nome de "organograma".

Basicamente, percebi que quase todos os sistemas sociais humanos são estruturados em forma de organogramas que reproduzem a forma de uma pirâmide hierárquica. Ora, uma pirâmide hierárquica moldando um  sistema social significa que há muitos espaços na base da pirâmide, mas poucas oportunidades no topo, tal como toda pirâmide. Em termos de busca por objetivos, isso significa dizer que muitos tentarão o sucesso, mas poucos conseguirão.

Muitos tentarão, insuflados por suas necessidades e seus desejos de melhoria, e apoiados em livros de autoajuda e suas técnicas motivacionais. Mas poucos conseguirão, filtrados por mecanismos de seleção subjetivos, parciais e tendenciosos, comandados por pessoas cujos objetivos não tem relação alguma com os nossos, e que se regem por sua próprias lógicas particulares.

Eu escrevi assim em minha Agenda 99:

"Tese geral: a frustração e insatisfação geral da sociedade moderna são frutos de sistemas educacionais, empresariais, governamentais, legais e econômicos baseados em premissas falsas."

A pirâmide social que limita o número de pessoas que chegarão ao topo é o que podemos chamar de pirâmide do fracasso, porque muitos fracassarão, enquanto apenas alguns poucos triunfarão, não importa o quão meritosos sejam os que virão a fracassar.

A tese geral acima constata as consequências óbvias de um sistema social assim concebido: bilhões de pessoas lutando, fracassando e se frustrando sistematicamente. E a tese geral constata que os sistemas educacional, empresarial, governamental, legal e econômico, pelo menos, são estruturados em pirâmides hierárquicas que barram quase toda tentativa honesta de melhoria pessoal.

A tese geral, por fim, assume que essas pirâmides sociais são desenhadas de maneira disfuncional não intencionalmente, isto é, elas são concebidas com um objetivo honesto e claro, mas acabam gerando efeitos colaterais indesejáveis, que não são premeditados, nem desejados, e talvez nem mesmo percebidos por aqueles que a desenham e por aqueles que as preenchem e nelas lutam para subir ou nelas permanecer.

Eu, generosamente, não atribui as disfunções dessas pirâmides sociais a um desejo racional de filtrar, obstruir, selecionar e punir quem quer que seja.

Eu tomei meus inimigos externos como seres benevolentes, que apenas fazem o mal por mera incapacidade de perceber que fazem o mal.

Enfim, igualei homens a vírus, a bactérias, a terremotos.

Eu não quis, ao menos por enquanto, imputar o mal do sistema social como decorrente da própria maldade intrínseca do ser humano que o concebe. Poupei-os, os homens.

Afinal, também eu sou um homem, e não me vejo como mau.

A tese geral acima foi apenas um primeiro esboço de um conjunto de outras constatações igualmente significativas e inter-relacionadas, que desenvolverei neste blog, nos próximos posts.

Além do mais, eu observei que livros de autoajuda podem trazer contradições. Além da frase sobre cuidar de nós mesmos como nossos piores inimigos, havia uma outra frase sobre hierarquias, que foi a inspiração para a tese geral da pirâmide do fracasso.

Confrontar frases verdadeiras, mas contraditórias, é uma experiência intelectual fascinante. Eu sabia da existência teórica delas, mas nunca havia me dado ao trabalho de encontrá-las. Eis, no entanto, que a disciplina em aprender sobre autoajuda me levou de encontro ao meu primeiro paradoxo.

Eu falarei mais sobre esse paradoxo. Continue lendo os próximos posts. Eles detalharão o desenvolvimento de todos os meus raciocínios que decorreram deste curioso achado.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

A riqueza e a pobreza

No dia 29 de maio de 2004, eu disse nesta minha quinta postagem, deste blog, que eu estava escrevendo em frente a um velho computador trajando uma camiseta, uma bermuda, um relógio e um par de óculos, e que, assim tão despojado, eu lembrava, de certa forma, Gandhi. Eu disse assim:

"Uso uma camiseta velha verde escuro, bermuda preta, um relógio e um óculos na cara. Descrevendo as coisas assim, parece a descrição dos bens materiais deixados por Gandhi quando de sua morte, e que tanto admiraram o mundo pela sua frugalidade e desprendimento. Mas não é tão simples assim."

De fato, não é tão simples assim. Eu disse em minha última postagem que falaria sobre esse assunto, e agora é o momento.

O ano era 2004. Fiz essa comparação aparentemente disparatada porque naquela época eu havia estudado profundamente o livro de Og Mandino chamado "A universidade do sucesso". Neste livro, Mandino tomou emprestada uma série de textos de outros autores e seus respectivos livros, e montou um mosaico que segue em um crescendo de ensinamentos tipicamente de autoajuda, mas que muito me cativou e me fez pensar.

Há um texto de um autor chamado Howard Whitman, um escritor americano que publicou um livro chamado "Success is within you" no ano de 1956. Não sei se esse livro foi lançado no Brasil em algum momento. Se foi, seu título provavelmente seria "O sucesso está dentro de você".

O texto que Mandino extraiu do livro de Whitman trata do conceito de sucesso. Whitman diz que o sucesso é algo muito pessoal, e que pessoas podem ser bem sucedidas de diferentes maneiras, sob diferentes óticas ou pontos de vista.

Já falei um pouco sobre esse texto aqui, neste blog, mas foi apenas um breve resumo, sem maiores considerações.

Mas, não é sobre o sucesso em si que pretendo falar agora. Meu foco agora é Gandhi. O livro de Whitman, repito, foi lançado em 1956, e portanto, deve ter sido escrito em algum momento não muito antes desse ano. Assim, fazia pouco tempo que Gandhi havia morrido. Quer dizer, Gandhi foi assassinado em 1948, um ano depois da independência da Índia e do Paquistão, em 1947. Logo, sua morte e o impacto de seus feitos ainda estavam bastante presentes nas mentes de seus contemporâneos, creio eu, e na mente de Howard Whitman também, deduzo com base no que ele andou escrevendo.

Ele assim diz:

"Uma das coisas que mais impressionou o mundo acerca de Mahatma Gandhi foi a fotografia publicada de todos os seus bens materiais na época em que morreu: um par de óculos, um par de sandálias, alguns trajes simples, uma roda de fiar e um livro. Embora o mundo soubesse que por aqui havia passado um dos homens mais ricos. Talvez o mundo no fundo de sua consciência tivesse de alguma forma conhecimento daquilo que Henry David Thoreau expressou nesta frase simples: 'A riqueza de um homem se mede pelas coisas que é capaz de deixar para trás'. O próprio Gandhi não se cansava de fazer alusão à redução de necessidades. A vida para ele era como um processo de despojamento gradual de necessidades. Assim como um bebê que grita no berço e precisa de tudo, o ser humano, se vive uma vida bem-sucedida, amadurece pouco a pouco em direção a um adulto que não precisa virtualmente de nada. O próprio Gandhi foi um exemplo dessa espécie de desenvolvimento, um exemplo tão raro que sua vida exprimiu de maneira dramática para o resto de nós o quanto deixamos de corresponder ao potencial de desenvolvimento humano.

Isso não quer dizer que nosso objetivo deva ser a pobreza, ou que uma renúncia ascética de bens ou progresso material por si só torne alguém um 'mahatma', uma alma grandiosa. Muitas almas grandiosas tiveram uma vida cercada de bens materiais e fortuna considerável: Andrew Carnegie, Jacob Riis, Julius Rosenwald, Samuel Mather, os Guggenheims, para citar apenas alguns. Todos esses homens alcançaram um sucesso pessoal verdadeiro nesses casos, tanto exterior quanto interiormente.[...]"

Pois bem, esse pequeno trecho me fez pensar bastante ao longo dos anos.

Primeiro: que foto é essa? Não sei, mas vou buscar no Google, porque agora fiquei curioso.

Segundo: quando li sobre essa pequena lista de bens deixados por Gandhi, também fiquei impressionado. Eu não sou muito apegado a bens materiais, embora admita que seja um pouco ambicioso em certos aspectos e goste de dinheiro. Mas eu admiro também o ascetismo, a frugalidade, a sensatez contra o consumismo desenfreado. Mas Gandhi me impressionou.

Já falei sobre um texto chamado "Você já viu um clipe enferrujado?" neste blog. Frugalidade, moderação, sensação de desconforto diante do desperdício são temas que despertam minha curiosidade.

Quem foi Gandhi? Sabemos alguma coisa sobre ele, mas não muito. Não faz parte de nossa realidade. Por isso, hoje tratei de dar uma lida com calma em sua biografia na Wikipédia. Coisas interessantes vieram à luz depois desta leitura.

Claro, além do homem, do mito, há ainda as suas frases de efeito, seus bordões famosos. Sobre o judaísmo, o cristianismo, sobre o capitalismo. Sobre esse último, tenho lido uma frase que está sendo muitíssimo reproduzida nos últimos tempos. Falarei sobre ela em um momento mais adequado. Ela é importante.

Bem, mesmo um mito precisa se apoiar em ombros de gigantes, e Gandhi não foi exceção, descobri na Wikipédia. Há curiosamente uma ligação entre ele e Thoreau que vai além da mera citação de ambos no trecho de Whitman que transcrevi logo acima. Falarei mais sobre essa ligação também no futuro.

Por ora, ficamos com esse fato: em 2004, eu usava um par de óculos em uma noite fria, e se não estava de fato despojado de bens materiais como um Gandhi, devo admitir que me sentia pobre, limitado, isolado, deprimido e diminuto, mais para um mendigo que para um homem rico.

Eu definitivamente não estava bem em 2004. Eis a conclusão a que chego, e isso já é uma excelente conclusão.

sexta-feira, 28 de março de 2014

As minhas motivações

Dando continuidade às anotações em minha Agenda 99, sigo agora com o resultado de meu exercício, proposto por Donald H. Weiss em seu livro "Como tomar decisões difíceis".

Nas minhas últimas postagens, eu disse sobre minha tentativa de colocar alguma ordem em minha vida. Dado que o livro de Weiss pedia que eu ordenasse vinte e cinco motivações pelas quais fazemos as coisas nas nossas vidas, fiz uma primeira tentativa, com cinco motivações, mas não achei o resultado adequado.

Então, pensei melhor, e acabei listando em minha agenda, tal como manda Weiss, minhas dez principais motivações, as dez razões mais importantes, pelas quais eu fazia as coisas que fazia em minha vida. É bom lembrar que a lista é de 2001, e reflete as minhas motivações naquele momento, e não as de agora, de hoje, de 2014.

Eu anotei assim a lista em minha agenda:

Razões para o crescimento pessoal:

1-Conhecimento.

2-Sabedoria.

3-Padrões éticos.

4-Independência.

5-Realização.

6-Responsabilidade.

7-Crescimento.

8-Autoestima.

9-Desafio.

10-Reconhecimento.

Essa lista foi uma tentativa de seguir as recomendações de Weiss de maneira disciplinada e metódica, e posso tecer algumas considerações tanto a respeito daquilo que foi incluído nela e excluído dela, quanto dos resultados práticos dessa ação disciplinada e metódica.

Quanto ao conteúdo incluído, é fácil perceber que eu inclui conhecimento, sabedoria, crescimento e desafio, numa clara demonstração de minha disposição mental de não me acomodar com meu modo de vida, não estagnar, não parar no tempo. Eu, por outro lado, deixei claro que essa disposição de lutar se devia a uma busca de satisfação pessoal, ou seja, ao incluir independência, realização, reconhecimento e autoestima, essa busca fica bastante evidente. Por fim, eu sempre pensei que seja lá o que fosse que eu estivesse buscando, eu deveria buscar medindo ponderadamente os meios, isto é, eu não me permitiria tudo em busca de meus objetivos. Daí que não poderia violar meus padrões éticos de honestidade, justiça, fidelidade, nem poderia abrir mão de minha responsabilidade.

Essas eram as minhas motivações, conforme pedira Weiss.

Agora, o que eu aprendi com a realização desse exercício? Quais as consequências práticas de ter sido disciplinado e metódico com a execução de um exercício sugerido por uma autoridade em tomada de decisões e motivação?

Para falar francamente, nada aconteceu depois deste exercício. Minha vida não mudou para melhor, nem me senti iluminado internamente por ter descoberto minhas dez motivações principais.

O que posso concluir?

Agora, que já se passaram tantos anos deste exercício, posso dizer com alguma segurança que se ele não mudou minha vida, isso não se deu porque, fundamentalmente, não acredito que tenha sido essa a intenção de Weiss quando o planejou. Um exercício desses não é senão uma ferramenta de autoconhecimento, e tem um valor, mas muito relativo, dependendo do quão bem uma pessoa se conhece ou não. Em nenhum momento foi prometida uma mudança radical de vida em função da mera execução de um simples exercício com esse. Segundo, um livro como o de Weiss, destinado à tomada de decisões, não pode ser lido como um manual de um liquidificador. Claro, pede-se disciplina, pede-se que se faça os exercícios que são inseridos no livro, mas de forma alguma se pede uma disciplina cega, absoluta.

Mas eu só posso tecer esses comentários hoje, depois de tantos anos passados daquela anotação. Na época, eu não tinha a maturidade para perceber o que poderia estar errado comigo ou com o livro. O que sei é que as anotações que se seguiram a esta lista dão mostra clara de que eu, decididamente, estava frustrado.

É o que veremos nos próximos posts.

Por hora, basta saber que eu fiz a minha lista, e ela ainda é interessante de se olhar.

Eu sempre fui movido pela busca de conhecimento.

Sempre.

Essa busca merece ser melhor compreendida.

quarta-feira, 26 de março de 2014

Definindo razões para se fazer as coisas

Eu disse no último post que Donald H. Weiss nos ensina, no seu livro "Como tomar decisões difíceis", que sempre que fazemos alguma coisa, o fazemos por alguma razão, um motivo. Depois, ele lista vinte e cinco motivos que podem servir de guias para as nossas ações, e pede que os classifiquemos em uma ordem de importância de acordo com nossa preferência.

Mas, o que quer dizer exatamente cada um desses motivos? O que significa exatamente, na visão de Weiss, amizade, amor ou crescimento?

Ele nos dá uma pequena descrição de cada motivo, para nos ajudar a entender melhor o que quer dizer cada um deles.

É o que eu me proponho agora: reproduzir as descrições de cada um dos motivos, para que eventualmente outras pessoas possam pensar sobre eles e, quem sabe, virem a tirar algum proveito desse conhecimento.

A pergunta que devemos nos fazer é: que desejo conseguir em troca do esforço que estou fazendo em minha vida?

Agora, o que cada motivo significa:
  1. Conhecimento: buscar e aprender sobre novas coisas e ideias; buscar a verdade ou a informação; ser conhecido pelos outros como alguém inteligente e me sentir inteligente.
  2. Sabedoria: compreender e construir para mim mesmo um sentido de vida, aprendendo experiências de uma ampla gama de referências.
  3. Poder: liderar e dirigir os outros; influenciar ou controlar outras pessoas, ou seja, levá-las a fazer o que quero que façam.
  4. Prazer estético: desfrutar e respeitar as coisas que me dão prazer: arte, natureza, trabalho, pessoas.
  5. Padrões éticos: acreditar e manter um código de ética, um senso de certo e errado; ser moral; ajustar-se aos padrões da sociedade, da família ou cônjuge, da profissão e de meus ideais pessoais e religiosos.
  6. Independência: atingir minhas próprias metas da melhor maneira para mim; ter liberdade para ir e vir segundo meus desejos; ser sempre eu mesmo; controlar minhas ações.
  7. Realização: alcançar meus objetivos pessoais com o sentimento de ter feito as coisas tão bem quanto outro ou ainda melhor; ter autossatisfação ao enfrentar um desafio, realizar uma tarefa, um trabalho ou solucionar um problema.
  8. Reconhecimento: ser notado, receber a atenção, a aprovação e o respeito dos demais por algo que tenha feito; gerar nas pessoas um sentimento de respeito por quem sou e pelo que alcancei.
  9. Amizade: ter muitos amigos; trabalhar desfrutando a companhia dos colegas; criar grupos de amigos; desfrutar as relações sociais.
  10. Responsabilidade: ser considerado responsável pelas pessoas ou empresas para as quais trabalho ou realizo tarefas; possuir alguma coisa e zelar por ela.
  11. Criatividade: ser livre e ter capacidade e vontade de desenvolver novas ideias e soluções para os problemas, de aperfeiçoar produtos ou procedimentos, traçado de ideias ou planos; ser desafiado intelectualmente; ser o primeiro a inovar e criar.
  12. Segurança: ter os recursos necessários para viver; sentir-me seguro; ter autoconfiança; ter segurança no trabalho e continuidade de rendimentos.
  13. Dedicação: ser leal à empresa ou a meu superior, a minha família, aos grupos político e social a que pertenço e a outras pessoas; oferecer aos outros devoção, compromisso e amizade.
  14. Justiça e igualdade: receber por minhas contribuições e conquistas retribuição e reconhecimento proporcionais a meus esforços e comparáveis aos recebidos pelos demais.
  15. Crescimento: avançar, expandir minha vida através de meu trabalho ou do aprimoramento de meu status no trabalho ou na comunidade; aumentar meu conhecimento ou capacidade, relacionados ou não ao trabalho; encontrar realização nos grupos com os quais trabalho e convivo, amadurecer no campo pessoal e profissional.
  16. Autoestima: ser alguém de valor a meus próprios olhos e aos olhos dos outros; ser aceito como uma pessoa e não como alguém sem nenhum valor ou como um simples meio para se alcançar um fim; sentir-me útil e querido pelos outros; ser um líder; ser apreciado pelos outros.
  17. Religiosidade: acreditar em um ser supremo; relacionar-me com os outros em bases espirituais e pessoais no que se refere a fé ou conjunto de crenças.
  18. Amor: experimentar calor, sentimentos de afeição e de carinho, entusiasmo, dedicação, devoção e interesse por alguma coisa ou alguém, em especial por alguém com quem eu possa ter um compromisso.
  19. Desafio: sentir-me bem com o que faço, seu grau de dificuldade e complexidade ou solicitações à minha criatividade; ter oportunidades de aplicar meus conhecimentos e capacidade de modo simples e efetivo.
  20. Fé: ter autoconfiança e acreditar na minha capacidade e habilidade, na bondade e no valor da vida, nas metas e objetivos de minha empresa ou grupo social; acreditar na disponibilidade dos outros em ajudar e reconhecer a ajuda recebida.
  21. Utilidade: oferecer às pessoas assistência, apoio, empatia ou proteção; ser franco, compreensivo e generoso.
  22. Saúde (física/mental): sentir-me saudável e livre do sofrimento físico causado por doenças, lesões ou infecções; não ter preocupações, ansiedade nem bloqueios emocionais que me impeçam de ser bem-sucedido em todos os aspectos da vida; ter paz de espírito.
  23. Dinheiro: ter um salário suficiente ou outras fontes de renda para usar como bem quiser; ter conforto material, boas condições financeiras.
  24. Divertimento/prazer: divertir-me, fazer coisas de que gosto e não apenas as que tenho de fazer.
  25. Ser amado: receber carinho, afeição e proteção de outras pessoas, especialmente de alguém com quem eu possa ter um relacionamento.
A lista, reafirmo, não é exaustiva, mas eu não pensei em nada de interessante para acrescentar a ela, de modo que nada tenho a acrescentar também às descrições que Weiss dá a cada motivo. Claro, eu poderia tecer alguns comentários pessoais, mas acho que são desnecessários no momento.

Futuramente, farei uma análise mais aprofundada da lista, mas não agora.

Agora, encerro este post, e me preparo para escrever outro, listando os dez motivos que escolhi para guiarem minhas ações, de acordo com o exercício sugerido por Weiss. É o que veremos em seguida.

sábado, 22 de março de 2014

Cinco motivações

Eu disse aqui e aqui que fiz duas perguntas a respeito de meu grau de satisfação com relação ao tema "crescimento pessoal".

Não fui além das duas perguntas sobre crescimento pessoal porque achei melhor antes departamentalizar a vida.

Então, anotei cinco motivações, das vinte e cinco que listei em meu Outlook:

"1 - Educação formal (conhecimento)
 2 - Cultura e conhecimento (sabedoria)
 3 - Serenidade e controle
 4 - Vícios, defeitos e maus hábitos (padrões éticos)
 5 - Auto-estima"

Esta é uma lista que merece alguma explicação.

Há nela uma relação com o questionário de satisfação pessoal, uma vez que possui dois itens notadamente voltados para educação e formação (itens 1 e 2). Há nela também quatro itens que são nomeados conforme a lista de vinte e cinco itens de Donald H. Weiss, quer dizer, somente o tem 3 não foi nomeado conforme Weiss. Mas há, finalmente, dois itens que são diretamente influenciados por Benjamim Franklin (itens 3 e 4).

Eu já falei sobre a influência de Benjamim Franklin na minha lista de motivações, mas não falei sobre que texto é esse. É preciso que eu fale sobre isso, se quisermos ter as coisas claras em nossas mentes.

É o que veremos no próximo post.

Conhecendo os porquês

Eu disse em meu último post que decisões difíceis requerem motivações.

Pois bem, Donald H. Weiss, em seu livro "Como tomar decisões difíceis", nos faz basicamente duas sugestões: primeiro, que pensemos a longo prazo, e segundo, que conheçamos nossas motivações.

Tudo o que fazemos, o fazemos por algum motivo. Que motivo são esses, pergunta-nos? Depois, para nos ajudar a descobrir o que nos motiva, o autor lista vinte e cinco razões pelas quais podemos fazer as coisas que fazemos. Depois, pede que classifiquemos cada uma dessas vinte e cinco razões em uma ordem da mais motivadora para a menos motivadora.

Eu fiz esse exercício, essa tarefa, que Weiss nos recomenda. Depois, ele pede que separemos as dez mais importantes razões e as liste, para que sirvam de base para nossas tomadas de decisões. Quer dizer, se temos que tomar decisões difíceis, precisamos clarear as coisas sabendo quais são as razões principais que nos motivam a fazer as coisas. Assim, escolheremos as alternativas, e tomaremos as decisões que melhor satisfaçam essas nossas razões.

Que razões são essas?

Que desejo conseguir em troca do esforço que estou fazendo em minha vida?
  1. Conhecimento
  2. Sabedoria
  3. Poder
  4. Prazer estético
  5. Padrões éticos
  6. Independência
  7. Realização
  8. Reconhecimento
  9. Amizade
  10. Responsabilidade
  11. Criatividade
  12. Segurança
  13. Dedicação
  14. Justiça e igualdade
  15. Crescimento
  16. Auto-estima
  17. Religiosidade
  18. Amor
  19. Desafio
  20. Fé
  21. Utilidade
  22. Saúde (física/mental)
  23. Dinheiro
  24. Divertimento/prazer
  25. Ser amado
Cada palavra acima representa um conjunto de desejos específicos. Evidentemente, a lista não é exaustiva. Podemos aumentá-la com a inclusão de outras razões.

Assim, fiz minha tarefa, e registrei essas razões em um conjunto de lembretes em uma pasta do meu Outlook em 30 de dezembro de 2001.

Eu estava impressionado com a clareza de ideia que o exercício me proporcionara.

Claro: tudo o que fazemos na vida, o fazemos por algum motivo, conhecido ou não.

Depois de ter anotado as vinte e cinco razões em meu Outlook, listei em minha agenda os dez motivadores mais importantes.

É o que veremos no próximo post.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Decisões difíceis

Eu disse aqui a respeito da leitura do livro "Como tomar decisões difíceis", de Donald H. Weiss, e o papel que esse livro teve em minhas pesquisas acerca da maneira como deveria conduzir minha vida.

Não me lembro quando comprei este livrinho. Falo "livrinho" porque ele é realmente fino, com letras grandes e de fácil leitura. Não me lembro quando o comprei. Tenho-o ainda. Há uma parte de uma etiqueta de uma livraria, a Siciliano. Que eu me lembre, não havia nenhuma loja das livrarias Siciliano em Anápolis entre 1990, ano em que passei a morar na cidade, e 1998, ano em que me mudei de lá. Logo, devo ter comprado o livro em Goiânia, já que havia uma loja Siciliano no Shopping Flamboyant em 1999, quando me mudei para essa cidade.

Naquela época, 1999, meu salário era bastante limitado, e eu não tinha dinheiro para comprar nada, inclusive livros. Não ia ao Shopping Flamboyant com frequência nessa época, porque não tinha carro, e morava relativamente longe dele para me dar ao trabalho de frequentá-lo indo de ônibus. De qualquer forma, devo ter comprado o livrinho no Flamboyant, posso afirmar com relativa segurança.

Quanto à Siciliano, foi fechada alguns anos depois, por volta de 2004, 2005, creio que em virtude de ter sido a cadeia toda de lojas comprada pela Saraiva. Mas isso não importa agora: comprei em uma loja Siciliano e ponto final.

Mas, por que o comprei? Por que este, e não outro livro?

Primeiramente, por uma questão financeira. Ele era fininho, e portanto, barato.

Segundo, porque o tema, tomada de decisões difíceis, era convidativo. Eu vinha passando por problemas que me levavam a pensar em tomar decisões difíceis, mas não sabia como abordá-los. Eu tinha alguns livros de autoajuda, mas nenhum deles oferecia uma proposta tão chamativa de solução para tomadas de decisões.

Claro, hoje percebo que poderia usar, por exemplo, as recomendações de Dale Carnegie para tomar decisões difíceis, ou recomendações de Og Mandino, mas na época, eu não percebia essa minha necessidade.

Na verdade, às vezes temos problemas que não são perceptíveis, e fazem parte de nossas vidas de uma forma silenciosa, de modo que não damos atenção a eles. Temos os problemas óbvios, visíveis, gritantes, sobre os quais focamos nossas energias, e contra os quais desferimos nossos maiores esforços e ataques. Mas, por exemplo, não consideramos um problema que mereça muito nossa atenção o fato de que não somos bons em tomar decisões difíceis. Eu normalmente não fazia nenhuma relação entre os problemas visíveis e este problema invisível, exatamente porque não podia ligar algo evidente com algo que não era evidente. Eu não poderia atribuir como causa de meu problema visível o meu problema invisível, exatamente porque essa causa era invisível. 

É como ter uma febre, mas não saber que a causa da febre é uma infecção interna indolor. Sei que tenho a febre porque a sinto, mas não percebo a infecção, porque não dói. Logo, não consigo relacionar a febre à infecção invisível. 

Ora, todo mundo tem problemas na vida. E alguns problemas são mais sérios que outros. Os problemas simples não nos preocupam tanto, mas os problemas sérios nos deixam em situações que nos prejudicam, e precisamos resolvê-los. Mas nem sempre são fáceis de resolver. E tendemos a atribuir a dificuldade do problema a causas externas, e não à nossa inabilidade em lidar com eles. Culpamos causas externas, como outras pessoas, nosso emprego, a situação do país, o governo, etc., mas não percebemos que somos nós que não somos capazes de dar uma resposta pessoal, ativa, e portanto, somos nós os culpados pela nossa situação difícil.

Mas, como não percebemos nossa fragilidade em resolver problemas, não atacamos essa fragilidade. Se soubéssemos que tínhamos essa fragilidade, poderíamos tomar a iniciativa de tentar combatê-la, e então poderíamos buscar ajuda através dos meios que tivéssemos à disposição. Mas não percebíamos a fragilidade, e portanto, não buscávamos nenhum tipo de ajuda ativamente.

Eu não percebia que tinha uma deficiência em tomar decisões. Nem pensava que poderia existir este tipo de problema. Nem poderia imaginar que ter dificuldade em tomar decisões em momentos difíceis ou diante de problemas difíceis fosse em si mesmo também um problema.

Até ver o livrinho com o título chamativo.

Ora, quer dizer que havia meios de se tomar decisões difíceis?

Eu não procurava um livro com este tipo de solução. Eu nem sabia que tinha um problema. Logo, fui capturado pelo título do livro.

Um título desses tem o poder de nos fazer uma indagação íntima do tipo tal que nos perguntamos, curiosamente, assim que o tomamos na mão: "mas, será que eu tenho alguma decisão difícil que precise ser tomada e eu não saiba como tomar?".

Aparentemente, foi essa a pergunta que me fiz no momento em que tomei esse livrinho na mão em uma loja da Siciliano por volta do ano de 1999, 2000, e ao fazer essa pergunta, vi que, sim, eu tinha problemas difíceis que demandariam de minha parte alguma capacidade de tomada de decisão difícil.

Assim, achei que o livro me seria útil, era barato e eu deveria comprá-lo, e o comprei.

Assim que o li, associei seu conteúdo à literatura de administração de empresas. Obviamente, há na literatura de administração uma série de trabalhos relacionados à tomada de decisões. Eu não tinha, que eu me lembre agora, nenhum livro sobre tomada de decisões. Como eu fiz essa associação de ideias?

Provavelmente há alguma referência a tomada de decisões nas teorias administrativas tratadas nos livros básicos de administração nos quais estudei durante a faculdade. Prometo que pesquisarei nesses livros para saber onde eles fazem referência a tomada de decisões, somente para esclarecer a causa dessa associação de ideias. 

Mas não foi exatamente sobre o tema "tomada de decisões" que fiz a associação entre o livrinho e os livros de administração. O tema que me chamou imediatamente a atenção como sendo obviamente comum ao livrinho e a administração foi "longo prazo".

Donald H. Wiess nos recomendava abordar problemas sempre levando em conta os prováveis impactos de cada possível decisão nos nossos planos de longo prazo. Ora, também a administração de empresas se preocupa com o longo prazo quando aborda o estudo do planejamento. Longo prazo em administração é um tema caro e recorrente. Evidentemente, em administração se pensa no longo prazo de uma empresa, e não de pessoas. Já Weiss fala sobre o longo prazo pessoal, familiar, os planos de vida, os sonhos futuros, os projetos para um amanhã que não é exatamente no amanhã, mas daqui a uma década, ou mais além ainda.

O que pensava eu a respeito de minha vida a longo prazo?

Nada?

Não. Eu, ao contrário do que provavelmente a maioria das pessoas imagina, tinha já pensado em minha vida a longo prazo. 

Claro, não pensei a longo prazo movido por minha própria iniciativa e esperteza. Somente o fiz sob o estímulo de um outro livro, e assim, o fiz, mas sob o comando de outras pessoas, isto é, somente pensei a longo prazo porque as autoras de um outro livro me induziram a assim fazer.

Mas, qual a ligação entre pensar a longo prazo e tomar decisões difíceis?

O que isso tem a ver com minha Agenda 99 e este blog?

Nossa mente é uma máquina curiosa. Eu não estou inventando essa história de ligações fortuitas entre livros e minha vida pessoal apenas para criar um história interessante ou para chamar a atenção de algum eventual leitor ou para atiçar a curiosidade de quem quer que seja para o fato de que sou diferente, ou mais esperto, ou tive uma vida mais interessante ou intelectualmente mais vívida que outras pessoas. Estou apenas relatando fatos. Foi o que aconteceu. Foi assim que as coisas aconteceram em minha vida.

Eu li livros, pensei sobre eles, tomei certas atitudes, fiz certas tarefas, meditei sobre certos problemas, e estou relatando aqui. É isso, e nada mais que isso.

Mas o livro de Weiss faz mais que falar sobre o longo prazo. Ele fala sobre nossos motivos. Ele fala sobre motivações pessoais. E ao assim fazer, nos propõe um exercício, e eu fiz o que ele nos propõe, e ao fazê-lo, registrei o resultado. Esse resultado, e em especial o seu registro, está diretamente relacionado com a Agenda 99, que por sua vez está diretamente relacionada a este blog. Logo, era preciso escrever tudo o que escrevi acima. E mais: será preciso escrever sobre a parte do livro de Weiss sobre motivações, para então se poder dar sequência ao que andei pensando e escrevendo em minha agenda pessoal, da qual este blog é uma mera extensão.

É então sobre o que ainda preciso escrever que escreverei nos próximos posts deste blog.

Deste agora ainda mais bonito e fino blog.

Porque decisões difíceis requerem motivações.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Departamentos da vida

Eu disse no post anterior a respeito da vida departamentalizada. A vida é complexa demais para ser tratada como um único bloco. Precisamos dividi-la em áreas para melhor poder pensá-la, entendê-la, administrá-la.

Essa ideia não é uma ideia nova. Não para mim. Não para mim hoje, nem era para mim quando resolvi pensar no assunto e relatei meus pensamentos em minha agenda, por volta do ano de 2001, 2002.

Não sei a data exata, mas não importa. 

Eu já conhecia o conceito de departamentalização. Afinal, eu sou formado em administração de empresas, e esse tema, departamentalização, era já conhecido meu desde 1993, quando de meu primeiro ano no curso de administração. Esse conceito é aprendido logo nos primeiros meses do curso. Vi isso em Teoria da Administração. As empresas têm sido estudadas e departamentalizadas a mais de um século. Não via nesse conceito nada de novo.

No entanto, departamentalizar a vida é uma ideia que é diferente da ideia de departamentalizar uma empresa. Nossa vida não se parece muito com uma empresa, ao menos em um primeiro momento.

Mas, eu já havia visto alguém sugerir que departamentalizássemos nossa vida bem antes de 2001 ou 2002. 

Eu já citei aqui o livro "Organize-se!", de Sunny Schlenger e Roberta Roesch. Este livro faz menção desta ideia em um determinado momento.

Já citei também o livro "Como tomar decisões difíceis", de Donald Weiss. Esse livro também toca no assunto da segmentação de nossas vidas em áreas de especialidade.

Claro, também já falei aqui sobre o confronto dessas duas ideias, vindas desses dois livros.

O que não falei foi sobre uma parte importante do livro de Donald Weiss que trata de nossas motivações. Sem falar sobre esse assunto, fica difícil compreender quais foram as áreas nas quais decidi tentar dividir minha vida.

Noto que minhas ideias são um emaranhado de sugestões de diversos livros que andei lendo em uma determinada época.

Leio um livro e tiro ideias interessantes dele. Depois, leio um segundo livro e faço o mesmo. Depois, junto duas ou mais ideias e tento algo que em um primeiro momento, não sei que é uma fusão de ideias tiradas de livros, mas agora, passado tanto tempo, percebo claramente de onde as ideias vieram.

Mas há mais: há um texto tirado do livro "A universidade do sucesso", de Og Mandino, que é de Benjamim Franklin. As ideias de Franklin também aparecem nitidamente em minhas anotações.

Vejam: são três livros distintos contribuindo para a composição de uma ideia que tento organizar no papel, e que está registrada em minha agenda em apenas cinco modestas linhas.

Não consigo falar dessa cinco modestas linhas sem ter antes de explicar a mim mesmo de onde a ideia veio, quais foram suas fontes, sua inspiração, suas origens.

Departamentalizar a vida parece fácil, mas não é.

domingo, 19 de janeiro de 2014

Escrevendo coisas ao longo da vida

Eu disse certa vez aqui que também certa vez no passado eu escrevera um livro.

O que tenho a dizer agora a respeito do fato de ter escrito um livro a muito tempo atrás é que ao tocar neste assunto aqui neste blog, eu o fiz para lembrar a mim mesmo que escrever é para mim uma coisa muito íntima e familiar.

Quando eu me referi ao fato de ter escrito um livro, eu fazia referência a um livro que de fato publiquei no ano de 1996.

Esse livro e sua publicação merecem um texto adequado, é certo, mas eu preciso dizer primeiro que antes de publicar este livro, que dei o título de Zago, eu já vinha escrevendo minhas coisas desde 1987.

Quer dizer, eu comecei a escrever minhas coisas quando tinha a idade de 17 anos, e não parei mais.

O que tanto escrevi nesses anos todos?

Que valor tem esses escritos para mim e para o mundo?

Não sei. Talvez nenhum valor maior do que o sentimento de realização que nos proporcionam as nossas pequenas e mundanas realizações, e que só significam algo para nós mesmos, e mais ninguém. Que seja.

Não escrevi tanto assim. Escrever dá trabalho, e não dá dinheiro, e não dá nada mais que algum prazer passageiro, mas somente depois de algum tempo, depois que nos esquecemos daquilo que escrevemos, e relemos nossas coisas com os olhos de estranhos, e ainda assim, é possível que nem prazer nos dê, mas sim vergonha e humilhação desnecessárias e evitáveis.

Como não sentir vergonha daquele poema bobo que escrevemos a vinte anos atrás, e que hoje nos parece tão feio, tolo, desnecessário? Por que tivemos a arrogância, a audácia de nos metermos a escrevê-lo, se não somos, e sabemos não ser, poetas, e nem ter na veia o sangue poético que leva os verdadeiros aspirantes a poetas a escrever, escrever, escrever, até que seus poemas não sejam tolos, ridículos, desprezíveis?

Mas, enfrentemos a vergonha. Escrever é preciso.

Eu não acho que seja um bom escritor. Nem acredito que seja escritor. Eu sou uma pessoa que foi obrigada a aprender a escrever, e isso não significa de modo algum que eu tenha aprendido a minha obrigação. Mas, achei o ato de escrever um passatempo gostoso. Não sei se escrevo bem, mas gosto de escrever.

Às vezes escrevemos coisas razoáveis. Às vezes nos metemos a falar de coisas que não conhecemos, apenas porque temos a oportunidade de colocar no papel algo que pode ser colocado no papel. Afinal, papel aceita tudo, inclusive divagações sobre aquilo que não conhecemos. É certo que o papel aceitará nossas ideias bobas, frágeis, desconexas, simplórias, amadoras. Mas não seremos poupados de reconhecer nesses escritos a bobagem, a fragilidade, a simploriedade e o amadorismo que fluiu de nossas penas simplesmente porque nos metemos a escrever sobre aquilo que não conhecíamos. Eu às vezes tenho vergonha do meu blá-blá-blá literário, e pseudo-literário, e não posso negar que reconheço o quão mal já escrevi, se é que ainda não escrevo.

Mas, não vejo no ato de escrever mal um pecado. Escrever é uma habilidade que se aprende, e mais se aprende quanto mais se escreve, e por isso tenho me esforçado a escrever o mais que posso. Quando leio algo que julgo ter escrito bem, fico orgulhoso de mim mesmo, e isso me basta. Escrevo para mim mesmo, e se leio e gosto do que escrevi, dou-me por satisfeito. Mas não no momento mesmo em que acabo de escrever.

Não. Escrever tem dessas coisas. Um texto é como um quadro, uma pintura. Precisamos dar uns passos para trás e olhar a nossa pintura de longe para podermos tê-la em perspectiva tal que possamos contemplá-la em um conjunto, e não apenas olhá-la de perto, da distância que comumente tomamos para pintá-la, porque então estamos saturados da imagem que constantemente temos diante de nós ao longo de todo o tempo em que levamos para pintá-la, e por isso, tal perspectiva, tão próxima, tão pessoal, tão íntima, não nos provoca nenhuma sensação de beleza, que é a que buscamos, mas apenas a de cansaço, de exaustão, de repetição.

Com um texto, o espaço se transmuta em tempo, e precisamos deixar que este corra para que possamos nos desintoxicar daquilo que escrevemos, e maior o tempo exigido se maior for o texto sobre o qual nos debruçamos para construí-lo. Escreva mil páginas, e precisará de mil dias para podê-las contemplar com o olhar neutro do leitor inédito.

Assim, escrevo, mas só aprecio o que escrevo algum tempo depois de ter escrito. Apreciar quer dizer aqui julgar, propriamente. Julgo o texto bom ou ruim, sem maiores indecisões. Afinal, julgo o texto de todo autor que tenha escrito algo que me caia nas mãos. Por que poupar meus próprios escritos de meu tão caro julgamento?

Assim, corrijo-me, quando posso. Vejo um texto ruim, procuro entender o que de ruim vai nele e busco não cometer o mesmo erro. 

Isso funciona? Não sei, mas eu me esforço.

Quanto já escrevi na vida?

Não sei, talvez umas mil páginas. Duas mil, quem sabe. Certamente não mais que três mil. Daria uma meia dúzia de volumes grossos.

Mas, se fossem seis volumes grossos, o que teria neles? O que valeria a pena ler?

Cartas de adolescente? Meu diário? Minha coleção de historietas? Meus dois artigos em revistas da faculdade? Minhas duas monografias? Minhas provas de faculdade? Meu livro de 1996? Minha agenda de 1999? Meu blog? Meus sites? Minha participação em fóruns da internet? Meus e-mails? Meus outros livros começados, mas não terminados? Meus projetos de livros?

Não, nada disso é sério. Nada vale muito, a não ser para mim mesmo.

Mas a seriedade não é nem será obstáculo impedindo a publicação daquilo que escrevi e escrevo. A seriedade é consequência daquilo que escrevo. A seriedade do amanhã é fruto da trivialidade de ontem e hoje. Escrever sério só se aprende escrevendo, ainda que não seriamente. Não se nasce seriamente escritor. Talvez se nasça poeta, quem sabe, mas não um escritor sério.

As minhas banalidades têm sua razão de ser. Não preciso viver daquilo que escrevo. Logo, posso ser trivial. 

Reconheço o poder das palavras, e principalmente as escritas, em comparação com as faladas. Falo pouco, embora também não dependa do falar bem para viver. A necessidade é a melhor escola, mas nunca precisei escrever nem falar bem para viver. Logo, nunca precisei me esforçar para desempenhar bem essas duas habilidades. Se sou apenas um escritor razoável, quando escrever me é prazeroso, o que dizer do meu discursar, quando não obtenho do discurso o mesmo prazer da escrita? 

Ainda assim, falo, e meu discurso é honesto, tal qual o meu escrever. Vou vivendo com eles tais como são, amadorísticas habilidades que nada rendem, exceto um prazer secundário e subsidiário. Entretanto, escrever é um prazer digno.

Cartas, poemas, diários, agendas, artigos científicos, comédias bobas, monografias, blogs, livros. O que mais posso fazer com esta minha vontade de escrever, senão dar-lhe vazão?

É certo que todo escritor quer ter seus escritos publicados. Eu também quero. E quero-os neste blog.

Mas cada coisa em seu lugar. 

Não falarei do livro Zago, de 1996, antes de falar do que escrevi em anos anteriores, porque a habilidade de escrever Zago decorreu do esforço de ter escrito outras coisas previamente. A habilidade de escrever é cronológica, e além do mais, cumulativa. Assim, falarei primeiro das minhas primeiras obras escritas: as cartas.

Mas eu já disse isso antes aqui neste blog.

Não basta prometer que falarei nelas. É preciso cumprir a promessa.

A promessa é esta: falar sobre minhas cartas neste blog.

Aposto que será uma coisa muito, muito significativa e cativante, e eu o farei.

Eu o farei.

O Diário de 1992

A imagem abaixo é a capa de meu Diário de 1992. Eu falei dele aqui, em 2004. 

Escrever diários sempre me parecera coisa de menina. Isso antes de 1992. Mas, em 1992, eu tinha ainda 21 anos. Tinha saído a pouco tempo da adolescência, e, para falar a verdade, ainda era meio adolescente, meio que adulto, vivendo uma fase em que ainda era possível divertir-se fazendo coisas estranhas como escrever diários.

Por que escrever diários?

Eu não sei, mas na época, eu estava morando na cidade de Anápolis fazia um ano. Estudara na Escola de Especialistas da Aeronáutica entre 1989 e 1990, e me mudara para Anápolis, para servir na base aérea que há lá, e nos últimos dias de 1991, eu e meu irmão Roni, que morava comigo, chegamos à conclusão de que seria bacana escrever um diário.

Fomos para uma papelaria e compramos duas agendas idênticas, uma para mim e outra para ele. Não tínhamos a intenção de usá-las como agendas, mas como diários.

As meninas do primeiro grau, do segundo grau até, às vezes tinham agendas bacanas, todas coloridas, enfeitadas com adesivos, recortes de revistas, fotos de gente famosa, rabiscos, desenhos, poemas, letras de músicas, etc. Eram agendas bonitas, mas que não combinavam muito com homens. Eu nunca vira nenhum rapaz tendo como passatempo de escola ficar enfeitando ou mantendo uma agenda tal como as meninas faziam, e nem era essa nossa intenção. Eu e meu irmão queríamos mesmo era um diário.

De onde tiramos essa ideia?

Não sei, mas acho que foi de um livro de André Gidé. Naquela época, eu ainda não estava na faculdade. Perdera uma chance de vestibular e ficara o ano de 1991 todo só trabalhando, com as noites livres, sem estudar, e neste meio tempo aproveitávamos para fazer um monte de coisas, tais como ouvir música, vadiar com amigos, correr atrás de meninas, beber, jogar sinuca, e outras coisas mais, exceto ver televisão. Este é um vício que nunca tive e que nunca roubou meu tempo. Nós montamos nossa casa e sequer pensamos em comprar televisão. Assim, tínhamos tempo de sombra, ainda que somente à noite. E aproveitávamos bastante. Por isso, 1991 foi um ano em que aproveitamos para ler muito. 

Acho que ambos lemos Os Subterrâneos do Vaticano, de Gidé. Havia um personagem interessante, Lafcádio, e posso estar enganado, mas creio que ele tinha um diário, ou coisa parecida. Havia algo de excêntrico em Lafcádio, e creio que ele tenha nos inspirado a escrever diários.

Eu usava meu tempo livre também para escrever pequenas histórias. Gostava de escrever. Aprendera a gostar de escrever na Escola de Sargentos, e achava que seria muito interessante escrever um diário, para ver que resultado daria.

Começamos os diários no dia 1º de janeiro de 1992. Eu não fui até o final, mas escrevi alguma coisa sobre cada um dos meus dias no meu diário até quase o fim do ano. Não escrevia exatamente todos os dias. Às vezes, ficava dois ou três dias sem escrever, mas peguei o hábito de anotar mentalmente o que acontecera de interessante ao longo dos dias em que não anotara nada e depois, anotava, mesmo que com atraso, aquilo de que me lembrava.

Não havia muito espaço para se anotar coisas em cada dia, mas ainda assim, é surpreendente o poder que as palavras escritas nele tem de fazer retornar à minha memória coisas que eu jamais me lembraria sem sua ajuda. Pequenos detalhes, pequenas rusgas, problemas banais que hoje estão completamente resolvidos, essas pequenas anotações são como que um mundo oculto em um código.

Para mim, e por causa deste diário, 1992 foi um ano memorável.

Eu precisaria de muita coragem para transcrever esse diário aqui, neste blog. Nem mesmo acredito que sua leitura simples e direta significaria alguma coisa para qualquer pessoa que não eu mesmo e meu irmão, e as pessoas com quem nos relacionávamos naquela época.

Mas, com os devidos comentários, e com as devidas contextualizações, é um material fantástico.

A quem interessaria?

Hoje tenho 43 anos. Os adolescentes de agora vivem uma vida muito diferente da que vivemos nós, nascidos nos anos 70 e tornados adolescentes nos anos 80, e jovens adultos em 1990. É possível que os jovens de hoje vejam algum interesse em um relato deste tipo. Não sei. Talvez haja coisas em comum entre uma geração e outra, mas certamente há coisas que vivemos que a geração atual e as futuras certamente não viverão.

Meu diário não é ficção. Ele é real. As coisas anotadas nele são reais. Aconteceram.

Minha vida de jovem adulto, de velho adolescente, foi real, e, acreditem, foi interessante!

Gosto de escrever. Acho que O Diário de 1992 merece uma chance de vir a público. É curioso dizer isto, mas tenho a nítida sensação de que quanto mais o tempo passa e mais velho eu fico, e mais para atrás no tempo vai ficando o ano de 1992, mais interessante vão ficando as anotações do meu diário.

Acho que ele merece vir à luz do público.

Tenho certeza que vou me divertir muito dando-lhe forma para que possa ser entendido pelo público em geral.

Quanto ao diário de meu irmão, ele está comigo, o diário. Meu irmão mudou-se algum tempo depois para o Canadá e não o levou consigo. Depois que ele se foi de Anápolis, nunca mais viemos a morar perto um do outro. Ele nem se lembra do diário, ou, se lembra, nunca fez questão de tê-lo de volta. De qualquer maneira, de minha parte nunca tive a ousadia de ler qualquer coisa que seja do que ele tenha escrito. Sempre respeitei sua privacidade e intimidade. Não sei o que ele andou escrevendo por lá. Mas que seria muito interessante a gente reler nossas memórias, juntar as anotações de nossos dias em comum e juntos formarmos um relato conjunto daquela época, certamente seria.

Quem sabe, um dia.

De qualquer forma, não deixo de achar fascinante a ideia de que minha vida no ano de 1992 tenha sido tão rica e surpreendente.

Será que todos os anos são igualmente tão fantásticos e que só não sabemos disso porque não nos damos ao trabalho de anotar as pequenas coisas que acontecem conosco ao longo dos dias?

Serão os diários, ou mesmo os blogs, tal como este, aquele tipo de objeto mágico capaz de tornar o duro e inamistoso presente um grandioso e radiante passado?

Talvez sejam, e diante desta constatação, devêssemos dar a nós mesmos este trabalho, o de registrar o presente, o nosso dia-a-dia, para que um dia, no futuro, pudéssemos parar, ler aquilo que registramos a muitos anos atrás e dizer que de fato vivemos, e não apenas existimos. Assim, chegaríamos ao fim, é certo, mas não sem aquela sensação de ter realmente aproveitado a vida. A vida por nós vivida foi proveitosa? Com ou sem diário, ela foi. Mas o diário eterniza esse viver, testemunha-o para nós mesmos, para que não sejamos enganados pelas nossas memórias, que teimarão em renegar nosso passado, e fazer dele um vasto quadro branco, opaco, e que dará ao nosso existir o sabor neutro do existir inútil, estéril e carente de sentido e resultados. Os diários provarão o contrário, para que morramos em paz, realizados nas nossas vidas realmente vividas.

Essas constatações reforçam minha convicção de que mais dia, menos dia, depois das devidas adaptações, publicarei o meu diário, e que isto será de grande proveito para mim mesmo, se não para outros mais.

É o que veremos com o decorrer dos anos.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Escrevendo livros de autoajuda

Minha última postagem trás um texto curto meio sem sentido. Este texto foi escrito por mim em 2001 em minha agenda, depois de ter eu feito uma série de perguntas a respeito da conveniência ou não de se ler e seguir conselhos de livros de autoajuda.

Eu escrevi este pequeno texto mais como um exercício de argumentação, usando o estilo típico dos escritores de autoajuda. Pensei em Dale Carnegie e em Og Mandino quando o escrevi. Meu objetivo era tentar provar a mim mesmo que o melhor proveito que a literatura de autoajuda poderia me dar seria por meio de um livro escrito por mim mesmo. Afinal, livros de autoajuda são famosos por vender bastante, e com isso, eu poderia ganhar um bom dinheiro.

Não é de se espantar que Og Mandino tenha sido tão entusiasmado com livros de autoajuda. Ele ganhou bastante dinheiro e ficou famoso escrevendo e publicando suas histórias. Por que não haveria de apostar nos livros de autoajuda?

A mim pareceu que escrever livros de autoajuda não seria nenhum problema. Afinal, em 2001 eu tinha já alguma experiência a respeito de escrever e publicar livros. Não achava que fosse muito difícil copiar os diversos estilos dos autores mais famosos e assim também ganhar o meu quinhão neste farto mercado.

Mas, como podem ver, o texto não é lá muito bom.

Ele não é um texto bom porque eu não sabia muita coisa sobre o que dizer. Eu devo confessar que escrever livros não é muito fácil, porque demanda muito tempo, planejamento e conhecimento. Eu não era muito perseverante com trabalhos tão longos, não tenha paciência para planejar a estrutura de um livro deste tipo, e não tinha conhecimento nem ânimo para iniciar um longo processo de pesquisa sobre este assunto. Mas, pior que isto tudo, eu não tinha autoridade para falar de uma coisa que me era estranha. Como falar de autoajuda e sucesso se eu não era um exemplo de nada? Nunca ganhara muito dinheiro, nunca fizera nada digno de nota, nunca me destacara em nada que servisse de inspiração para meus possíveis leitores.

Mas, eu sabia disto tudo logo no momento em que comecei o texto. Eu não estava falando sério sobre escrever livros de autoajuda quando comecei aquele pequeno texto.

Era somente uma espécie de vício de escrever. Somente isto.

Eu sabia que não resolveria minha vida escrevendo textos de autoajuda para quem quer que fosse. A solução que eu imaginava era de outro tipo.

Que tipo? Eu não sabia, mas sabia que não era por meio de textos de autoajuda. Eu era já uma pessoa calejada com este tipo de ilusão. Escrevi apenas porque deu vontade.

Depois, escrevi um pouco mais.

sábado, 27 de julho de 2013

Questionando a verdade

Por que devemos questionar a verdade?

Esta é uma pergunta séria, e foi a nona pergunta que fiz dentre uma série de perguntas difíceis em um determinado momento de minha vida, nos idos de 2001.

Por que eu questionava a verdade em 2001?

Eu questionava a verdade em 2001 porque eu até então havia sido um crédulo.

Um crédulo em tudo aquilo que vinha em forma de palavras impressas no papel, nos jornais, nas revistas, nos livros de literatura, nos livros didáticos, nos livros científicos e agora, naquele momento, nos livros de autoajuda.

Eu vivia um paradoxo.

De um lado, havia os ensinamentos dos livros. De outro, os meus sucessivos fracassos em implementar esses ensinamentos.

Um livro de autoajuda me dizia que meu problema não era a falta de ensinamentos, mas minha inércia em aplicá-los em minha vida real. Outro dizia que meu maior obstáculo não estava no mundo exterior, mas dentro de mim mesmo. Outro ainda pedia que eu fosse perseverante, e o estudasse dia após dia, mês após mês, ano após ano. E eu, que sempre fui um aluno estudioso, disciplinado e cumpridor dos meus deveres, sabia que estudo, disciplina, cumprimento do dever, proatividade, perseverança e autoanálise não eram suficientes para trazer grandes avanços na vida, porque de fato eu obtivera muito pouco avanço na vida fazendo tudo aquilo que me era ensinado dizendo o que eu deveria fazer.

Ora, se eu não estava avançando, não seria na verdade o contrário? Que garantia eu tinha de que os livros estavam mesmo dizendo a verdade?

E se os livros de administração, de economia, de sociologia, de psicologia, de autoajuda, as revistas de negócios, estivessem, todas, não mentindo, mas corroídas de ensinamentos apenas pretensamente verdadeiros? E se tudo fosse apenas propaganda se passando por verdades definitivas? Que garantias eu tinha?

Eu não poderia passar o resto de minha vida seguindo lições de livros nos quais eu não confiasse. Eu não poderia ser cobaia de experimentos de tentativa e erro de teorias de pessoas que eu sequer conhecia.

Eu admitia minha parte da culpa em minha vida estagnada na qual vivia em 2001, mas ao mesmo tempo admitia que sempre fora uma pessoa disciplinada, estudiosa e atenta àquilo que deveria ser feito. Se as coisas não estavam dando certo, parte da culpa poderia estar não em mim, o aluno, mas nos livros, os professores.

Essa desconfiança foi se consolidando com o passar dos anos, desde que eu me formara na faculdade, em 1996, e em 2001 eu já via os livros da época da faculdade como praticamente inúteis para minha vida pessoal. E se os livros de autoajuda fossem todos bem intencionados, mas cheios de teorias falhas e sugestões ineficazes?

Eu respondi à nona pergunta dizendo que devemos questionar a verdade porque não podemos nos dar ao luxo de sermos cobaias de teorias, sugestões e conselhos de pessoas que não pagarão o preço de seus erros. 

Eu não queria ser nem cobaia, nem um trouxa.

Não me passou pela cabeça acusar os livros de autoajuda de estarem mentindo intencionalmente, mas não descartei a hipótese de haver mentiras intencionais nos livros em geral, com o intuito os mais dissimulados possíveis, e horrorizou-me a possibilidade de eu, disciplinadamente, estar me passando por um idiota.

Decidi que eu precisava saber mais sobre esta besta indomável: a verdade.