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terça-feira, 28 de julho de 2015

Um governo mundial

Há na internet uma série de sites discutindo política. Dentre muitos, há aqueles que lutam contra uma suposta tirania, seja em escala local, nacional ou mesmo global. De certo modo, o pior dos temores, seja qual for o posicionamento que as pessoas tenham em relação ao espectro político, sejam de esquerda, direita ou centro, é de que o mundo seja de alguma forma dominado por um único governo, oposto aos seus desejos pessoais.

O grande medo do mundo, e ao mesmo tempo o grande anseio do mundo, é o do governo global.

Tenho pensado nisso.

Não acho improvável um governo global. Nem mesmo acho indesejável um governo global. O que questiono é: qual seria o tipo deste governo global?

Não desejaria um governo global tirânico, uma ditadura sanguinária comandada por alguns poucos poderosos estrangeiros. Nem uma monarquia hereditária, cuja condição para o poder fosse pela consanguinidade.

Mas não veria tanto mal assim em um governo global benevolente, democrático, limitado em seus poderes de polícia e força coercitiva, capaz de equalizar as grandes diferenças da espécie humana, prestar socorro em escala global, manter a paz e aparar as arestas culturais capazes de levar as pessoas à violência e à guerra.

Pergunto: o que temos a temer em um eventual governo global?

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

O gelo, o fogo e a areia

Estamos, nós, paulistas e paulistanos, quase formalmente em estado de racionamento de água. Em que pese a seriedade da situação, inimaginável a poucos anos ou mesmo meses atrás, não é difícil de aceitar a ideia de que nós, brasileiros, vivemos em um país imenso sujeito a grandes variações climáticas. 

Enchentes, frentes frias, secas, queimadas, avanço do oceano e desmatamento são temas relativamente frequentes em nosso noticiário.

O grande drama é que agora o risco de escassez de água chega à área mais densamente povoada do país, senão uma das mais povoadas do mundo.

Não falarei sobre culpa, ainda que haja evidentemente um componente humano no processo, seja ele o de excesso de consumo, falta de planejamento e  assoreamento de rios. Ninguém em sã consciência trabalharia ativa ou passivamente para gerar esse resultado. O clima em si é o grande fator incontrolável, e espero que tudo se normalize em alguns meses, seja pela queda das chuvas, seja pela transposição de rios, ou outra solução qualquer.

Não morreremos de sede, nem haverá uma catástrofe. A humanidade já sobreviveu a esse problema antes e sobreviverá agora.

Se teremos manifestações, quebra-quebra e prejuízos econômicos, parece que isso dependerá do espírito de compreensão do povo e do envolvimento ativo de todos. Afinal, não se pode esperar que o governo resolva absolutamente tudo. 

Mas, eu tenho feito muitos pequenos comentários nesse blog a respeito do problema ecológico, e acho que há alguns detalhes interessantes que precisam ser realçados.

Um dia desses eu assisti ao filme Interestelar, mais um deles, obviamente de ficção científica.

Hollywood tem tentado capitalizar sobre o problema climático e como gosto do assunto, seja o do clima, seja o da ficção científica, sempre que posso, assisto a esses filmes mais grandiloquentes e catastróficos.


Em O Dia Depois de Amanhã, a ameaça é o frio intenso que surge de uma interrupção de uma corrente marítima e acaba causando um gigantesco esfriamento na América do Norte, com tufões e furacões trazendo frio da alta atmosfera e criando uma nova era glacial no mundo. 

Em Presságio, uma anomalia no funcionamento do Sol é detectada e condenará o planeta Terra a sofrer uma rajada de calor que acabará com a civilização.

Em Interestelar, parece que houve um entendimento, uma compreensão por parte de roteiristas e produtores quanto à factibilidade de catástrofes climáticas. Assim, eles introduziram a seca, a morte de plantas, a erosão do solo, as pragas agrícolas, as tempestades de areia como pesadelo futuro. Foram espertos ao introduzir imagens de colheitadeiras e tratores drones, guiados por computador, sem motoristas, dando a entender que em um futuro árido assim, nós, humanos, ainda teríamos alguns meios com os quais lutar contra uma tragédia inevitável, mas postergável por mais algumas décadas antes do colapso final.

Um cidadão razoavelmente prudente deve ter percebido ao longo dos anos como a mídia passou a dar crédito às ameaças ecológicas e parece resignado ao fato de que algo de ruim acabaria acontecendo conosco mais dia, menos dia. Esse dia está chegando e parece que não há muito o que se fazer.

Não, não veremos o Estado de São Paulo sendo consumido ano a ano por dunas de areia varridas pelos ventos escaldantes do aquecimento global.

Mudanças climáticas sempre existiram. A espécie humana surgiu em um planeta inerentemente variável. Nossos ancestrais já enfrentaram calor maior que este que vivenciamos, enfrentou muito mais frio ainda, com glaciações intermináveis, e a areia cobre e sempre cobriu grande parte do mundo sem que tenha impedido o ir e vir do homem ao longo dos milênios.

A única coisa que o planeta nunca vivenciou foi a existência simultânea de 7 bilhões de animais consumidores dos mais variados recursos físicos disponíveis.

Vivemos sim um período com um número de seres humanos explosivo, mas nada indica que haja uma catástrofe logo ali, no ano que vem.

Teremos desafios, é certo, e precisaremos reajustar nosso modo de vida.

Mais que isso, nós brasileiros teremos de aprender a nos ver como um povo como qualquer outro, um povo sujeito às mesmas vulnerabilidades que qualquer outro. Um povo que precisa aprender a ver a frase "Deus é brasileiro" como um ponto fraco, e não como uma bênção e um patuá que o protege, como se dotado de um corpo fechado contra males de todos os tipos.

Essa frase tem nos cegado ao longo das décadas. 

Agora, ou abrimos os olhos ou eles se encherão de areia.

Brasileiros: bem-vindos à realidade do mundo!

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

A defesa e o ataque

Na medida em que os dias passam, as semanas passam, e os anos vão também passando, tento olhar para o futuro que nos espera e tenho sentido um certo temor, que considero não sem alguma justificação.

Eleições após eleições, além de outras grandes formas de consulta popular no Brasil, têm mostrado um país fortemente contrastado, para não dizer segregado, dividido ou polarizado.

Política não é um assunto fácil, de maneira que tentarei tecer minhas considerações sobre o tema com alguma cautela e simplicidade, buscando afixar-me em alguns marcos seguros, dos quais necessitarei para justificar meus temores.

Eu perguntei a mim mesmo: o que é a política? Por que a política?

A resposta simples é que a política é a forma civilizada de pessoas entrarem em acordo dentro de regras sociais, de forma a se evitar que as coisas sejam decididas pelos mais fortes, por meio de violência física.

Essa definição é muito parecida com a definição de Direito. De maneira também simples, podemos dizer que o uso de regras codificadas em lei e impostas a todos por um Estado é uma forma de se resolver as coisas sem o uso de muita violência. No mundo do Direito, o Estado pode, sim, usar da força física para fazer valer suas leis, mas somente em casos especiais bem delimitados.

Ora, a sociedade dita civilizada tem boas razões para buscar os mais diversos meios de resolver seus problemas sem recorrer ao uso da força física e da violência.

A sociedade humana, tal como a conhecemos, data de cerca de seis mil anos. Ao longo de tantos séculos, muito se recorreu à violência e à força, seja através de guerras, disputas entre sociedades, e ao assassinato, à escravidão, à pancadaria pura e simples do mais forte contra o mais fraco.

A realidade da violência não deve jamais ser negada entre seres humanos. Vivemos em uma época em que a violência direta de um ser humano contra outro é tida como coisa incomum e indesejável, punível e sujeita às mais graves recriminações. Aprendemos a conter a violência ainda no berço.

Mas, queiramos ou não, a violência é parte da vida, tal como a conhecemos em todos os recantos do planeta. Ela é tão real, onipresente e brutal que os meios de detê-la estão codificados em quase todas  as combinações de DNA que possam existir nos diferentes animais, plantas e organismos que a ciência conhece e estuda.

Não há ser vivo sem mecanismos de defesa contra ataques potenciais. Mesmo o mais indefeso e frágil dos animais possui em sua forma física, em sua aparência, em seu comportamento, em seu modo de existir, maneiras de se defender. Muitos seres vivos possuem ainda não somente os mecanismos de defesa, mas os de ataque, que lhe garantem a sobrevida, o alimento, a procriação e a perpetuação da espécie.

Na natureza, a defesa pressupõe o ataque.

A natureza humana também não é diferente. Somos dotados dos meios de defesa e ataque. Somos animais capazes de nos defender da ameaça de outros animais e da própria espécie. E somos capazes de atacar violentamente para conseguir nossos intentos. Essas considerações não deveriam ser surpresa para ninguém.

No entanto, vivemos em uma época em que nos consideramos civilizados. Dispomos de organização tal que a violência é inibida por diversos mecanismos, e não esperamos que a violência aumente, mas diminua constantemente no tempo. Esperamos que nos tornemos mais e mais civilizados.

Mas nem sempre as sociedades seguem destinos linearmente constantes rumo a um processo civilizatório, isentas de percalços, desvios, retrocessos e recaídas.

Poucas civilizações, se é que existiu alguma, seguiram processos históricos longos na mais perfeita paz e harmonia social.

Seremos nós brasileiros o povo dotado de habilidade social suficiente para não incorrer em episódios de violência social tais como guerras, revoluções, convulsões sociais e outros tipos de retrocessos?

Achamos que sim.

Achamos que somos um povo pacífico e harmonioso.

Achamos que tudo se resolverá da melhor maneira. Não achamos que as coisas irão piorar. Não temos razões para pensar diferente.

Ou temos?

Penso que não temos vivido grandes convulsões sociais tais como guerras, mas tivemos revoluções e temos índices de violência social sem paralelo em todo nosso passado.

Tivemos guerrilha em pequena escala em 1971, tivemos golpe militar em 1964, participamos em pequena escala da II Guerra Mundial lutando em território inimigo, e tivemos a guerra civil constitucionalista em 1932. Tivemos a revolução de 1930, e antes disso, outras convulsões menores que sequer lembramos de tê-las estudado nos livros e nas escolas. Nós tivemos longas décadas de relativa paz, é verdade.

O que a política teve de contribuição dada neste período todo?

Podemos dizer que as divergências sociais que poderiam ter dado motivos para o surgimento de episódios de violência mais contundentes foram adequadamente contornadas pelos meios políticos. Se não o foram pela política, como se solucionaram?

Divergências sociais desaparecem com a mera passagem do tempo? Em geral, somente a muito longo prazo. Em geral, convicções que dão razão a conflitos sérios são perenes, imutáveis, não sujeitas a acomodações definitivas. Há divergências que jamais são superadas. São, no máximo, apaziguadas, acomodadas pelas partes envolvidas, e a defesa somente abaixa a guarda quando morre o atacante.

Em um país com 200 milhões de habitantes, geograficamente desigual, socialmente desigual, economicamente desigual e culturalmente desigual, é espantoso que as diferentes facções que decorrem dessas inúmeras diferenças e polarizações tenham sabido contornar suas divergências. 

Se a política e o Estado, através de suas leis, têm sido capazes de contornar os conflitos até então, isso é questão em aberto que uma leitura mais atenta da história pode responder.

Já quanto à capacidade de contornar conflitos futuros, resta a expectativa de que sim, de que o Estado consiga contorná-los. A questão é: desejará contorná-los?

Em um momento histórico em que forças políticas deixam de apaziguar conflitos sociais e passam a estimulá-los, o que se pode esperar?

Dado que as forças políticas entendam que a melhor defesa é o ataque, o que se pode esperar?

Dado que os seres humanos não são animais que se submetem a ataques sem a devida revanche, que não se submetem sem muita luta, o que se pode esperar?

A relativa paz social das últimas décadas foi fruto da capacidade política das partes envolvidas em conflitos em transcender e achar alternativas à violência ou simplesmente foi o caso de que nos conflitos existentes, o atacante não teve força suficiente para representar uma ameaça à sua vítima potencial?

Vivemos décadas de paz porque tivemos instituições que souberam apaziguar conflitos ou tivemos paz simplesmente porque não houve conflitos? 

Eu prometo que vou tentar responder a essas questões.

Quão radicais foram os conflitos passados? Quão dividida esteve a sociedade brasileira em décadas passadas? Quem tomou a iniciativa de agredir quem? Quem intercedeu a favor ou contra quem e como a coisa foi resolvida sem um banho de sangue?

Eu disse banho de sangue? No Brasil, o país do samba, das praias e do futebol?

Precisamos entender nosso contexto atual. Não me consta haver garantia de paz social perpétua concedida a um povo qualquer que seja, por mais bela e alegre que seja a sua cultura e o seu passado.

O ataque, a agressão e por fim a violência é a decisão política extrema, um recurso final, mas nem sempre.

Onde está o agressor?

Quem é o agressor?

Quando ele agirá?

Ele já não está agindo?

Você às vezes não se sente socialmente agredido?

Pense bem.

Identifique o agressor...

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Desconfiança II

Em geral, a humanidade se divide entre aqueles que são crédulos e entre aqueles que são desconfiados. Não sei dizer porque algumas pessoas são mais ariscas, mais temerosas que outras, mas essa divisão é um fato da realidade.

Sempre que ocorre um evento qualquer que possua algum significado que não é obviamente negativo ou positivo, surgem discussões entre as pessoas. Isso aconteceu por quê, por culpa ou causa de quê ou quem?

Os "ingênuos" ou "crédulos" dirão que foi por causas não intencionais, e não gerará resultados negativos. Já os desconfiados dirão que houve alguma má intenção por parte de alguém desconhecido, mas poderoso, e que a coisa redundará em algum malefício ainda desconhecido no presente, mas certamente arquitetado com bastante cuidado e antecedência.

Isso não é o mesmo que dizer que os homens se dividem entre os otimistas e pessimistas, embora haja uma forte tendência de que ingênuos e crédulos sejam otimistas e que desconfiados e ariscos sejam pessimistas, mas essa tendência não estabelece uma relação que seja facilmente explicada. Quer dizer: nem todo otimista é ingênuo e nem todo pessimista é desconfiado.

Ser desconfiado, assim como ser pessimista, torna a vida de quem assim o é um pouco mais negra, mas, por outro lado, vive-se mais seguramente, corre-se menos riscos, evita-se mais os problemas que podem ser evitados.

Nasce-se desconfiado?

Creio que não. Pelo contrário. Nasce-se ingênuo, e aprende-se a ver ameaças onde elas não são facilmente vistas. Porque, de fato, há ameaças e riscos ocultos, não óbvios, traiçoeiros, e nem por isso, fruto de mentes malignas ou grupos maquiavélicos. Costuma-se chamar de teoria da conspiração a qualquer tentativa de explicação para um dado fenômeno, social ou não, que gere algum resultado ruim presente ou futuro. Teorizar que alguém conspira, ou que há uma conspiração por trás de um evento ruim é da natureza humana, mas é mais especificamente daquela parte da natureza humana formada por desconfiados e ariscos. Dificilmente um ingênuo ou inocente julgará que um evento ruim foi fruto de intenções humanas arquitetadas com alguma antecedência e cuidado. Atribuir culpa a eventos ruins a teorias de conspiração é coisa de desconfiados.

Bem, eu disse que acho que nasce-se ingênuo, mas aprende-se a ser desconfiado. Então, por que não somos todos desconfiados? E mais, por que, dado que fomos ensinados a ser desconfiados, não acabamos a vida desconfiando de tudo e todos? Mas, quem disse que não é assim que a vida termina, para os que aprenderam a desconfiar?

Há um dito de que "só os paranoicos sobrevivem".

Vamos conhecer esse dito com mais calma. Dizem que é um lema da Apple. Se é, não sei, mas nem por isso a frase deixa de ser interessante. Acredito que não foi alguém da Apple que cunhou a frase original, mas se ela foi adotada de fato pela Apple, isso denota o grau de maturidade com que as pessoas de lá encaram os eventos ruins que lhes ocorrem.

De fato, se nascemos ingênuos, e a ingenuidade é uma fraqueza em um mundo perigoso, somos tentados, sem base em estatística alguma, é verdade, mas escorados em senso comum e tempo de vida, a dizer que há uma chance maior de sobrevida dos paranoicos e desconfiados do que dos ingênuos e dos inocentes.

Coisas ruins nem sempre são causadas por teorias de conspiração. Mas ainda assim, elas existem. Mas, ainda que se ache que teorizar sobre conspirações seja superestimar a inteligência humana num mundo repleto de seres estúpidos e ignorantes, resta dizer que a desconfiança não se presta apenas a nos prevenir contra teorias de conspiração, mas contra eventos ruins em geral, sejam eles de origem humana ou não.

Vejamos: um raio é uma coisa ruim que independe de um ser humano. Um ingênuo diria, no entanto, que raios quase nunca caem duas vezes no mesmo lugar. Um otimista, que os raios caem sim, duas vezes no mesmo lugar, mas não cairá agora, justo quanto ele está no lugar do primeiro raio. O pessimista dirá que o raio certamente cairá novamente no mesmo lugar. E por fim, o paranoico dirá que, na dúvida, é melhor procurar outro lugar, mais seguro, para se abrigar. Logo, em média, paranoicos tendem a sobreviver. Os que não sobrevivem, é porque são antes azarados que pessimistas ou desconfiados, ou ainda ingênuos.

Daí que a frase de Ian Fleming, do post anterior, faz sentido. Ela só faz sentido para um desconfiado paranoico. Não para um ingênuo.

Se alguém me perguntasse em qual categoria me encaixo, eu diria que na dos desconfiados, mas que ainda assim, me esforço para não ver em tudo de ruim um plano maligno. Afinal, sei que coisas ruins acontecem mesmo que ninguém se esforce para que elas aconteçam.

Sou desconfiado desde pequeno, desde meus três anos de idade. Fui ensinado a ser assim por minha mãe. Lembro-me perfeitamente do momento em que me foi passada a primeira lição de desconfiança.

Sou muito grato a minha mãe por esses valiosos ensinamentos.

É só com o tempo que passamos a entender porque certas coisas precisaram ser do jeito que foram. O processo de aprendizado é assim. Só depois de muito tempo depois do trabalho de aprender é que entendemos a razão do esforço e o ganho que obtemos com ele.

Se você não é desconfiado, deveria questionar-se sobre o porquê de não ser.

Se for, seria capaz de lembrar-se de sua primeira lição de ceticismo e paranoia?

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Azar sistemático?

Li a dois dias atrás uma frase reveladora em um post do Facebook que tem-me feito pensar. Pesquisei sobre quem poderia ser o autor da frase, que no Facebook é atribuída a Ian Fleming, o autor de James Bond.

A verdade é que a frase é de um personagem de Fleming, Goldfinger, que, em determinado momento do livro, ou do filme, não sei dizer, adverte astutamente um ingênuo James Bond:

"Mr. Bond, uma vez é acaso, duas vezes é coincidência, três vezes é ação do inimigo."

Pausa...

No instante em que a li, tive um lampejo de lucidez sobre algo que me era obscuro, mas que eu conseguia perceber tenuemente no desenrolar das coisas. Fleming deu precisão e clareza para algo que eu sentia vagamente como uma perturbação, mas que não tinha nome nem rosto.

Agora, essa perturbação tem identidade: o inimigo.

Vamos refletir um pouco mais sobre a veracidade ou não da frase.

Pausa novamente...

O estudo da sorte e do azar é uma tarefa que tem gerado abundantes e curiosíssimos estudos mundo afora. Os casos de azar sistemático existem, mas são tão bizarros, tão incomuns e tão curiosos que viram anedota, tornam-se casos de estudo probabilístico e por fim, viram lenda. Fora isto, nossas dificuldades são quase sempre frutos de algo que Fleming chama de "inimigo".

Eu entendo aqui o termo como um ente despersonalizado. Não sei o contexto dentro do qual a frase foi tirada, por isso, penso que Goldfinger possa estar referindo-se a uma pessoa ou grupo em particular. Mas dentro de um contexto genérico e mais amplo, podemos considerar como "inimigo" qualquer forma de obstáculo que freia, bloqueia ou impede nossas ações reiteradas de maneira sistemática, de forma que devemos deixar de olhar o obstáculo em si e pensar em uma força, uma vontade inteligente por trás do obstáculo, de forma a poder melhor identificarmos causas e razões que levariam este "inimigo" a nos bloquear.

Tem alguma coisa a ver com o tema marxista do "opressor" e do "oprimido", mas não é a mesma coisa. Prometo que farei uma análise mais detalhada dessa ligação, mas não agora.

De qualquer forma, a frase insere uma pitada de sabedoria ao meu modo de ver as coisas que parece-me uma trilha, uma heurística mental promissora.

As coisas não estão dando certo? Então foi por mero acaso. Tente novamente...

Deram errado novamente? Coincidência, azar, pé frio, tudo bem, isso justifica toda a frustração e irritação, mas, mais uma vez, tente novamente...

Deram errado novamente? Bingo! É hora de parar, estudar o caso e procurar, nas sombras, o vulto que está colocando as pedras no caminho. Por quê? Com que objetivo?

Essas perguntas e suas respostas valem ouro, e o mero afastar do acaso e azar como causas de nossas derrotas nos permite dar um passo para trás, ou adotar uma visão panorâmica do terreno, e então, munidos desta nova perspectiva, podemos fazer uma nova tentativa, certamente mais frutífera, com uma nova abordagem, com mais chances de termos sucesso.

Você tem tido sorte nos negócios? Tem perdido sistematicamente na bolsa de valores?

Você é azarado?

Você não é o único...

quinta-feira, 8 de maio de 2014

A pirâmide do fracasso

Depois de um longo período de experiências com livros de autoajuda, quando tive a oportunidade e a motivação para colocar em prática de maneira disciplinada e metódica uma ampla variedade de conselhos, dicas, ensinamentos e modos de pensar sugeridos por pelo menos meia dúzia de renomados escritores do tema, acabei sendo envolto por uma nuvem de ceticismo e crítica.

Sempre supus que o problema com os livros de autoajuda se devia ao fato de que as pessoas simplesmente os leem como quem lê um romance, quando, na verdade, eles, os livros de autoajuda, deveriam ser estudados tal como o são os livros técnicos, e ter seus métodos aplicados na vida real, no dia a dia de quem se propõe  a estudá-los e deles pretendem tirarem algum proveito verdadeiro.

Eu lera livros de autoajuda entre 1990 e 1992, e depois os deixara de lado. Ora, eu era apenas mais um dos que simplesmente os lera como meros romances estimulantes, mas não práticos. Então, diante de um momento crítico de problemas pessoais, pareceu-me que a solução da situação crítica dependesse de um esforço pessoal mais sério, e assim, em 2001, resolvi que os livros de autoajuda até então lidos como romances deveriam ser lidos como livros de estudo, como manuais práticos a serem seguidos metódica e disciplinadamente.

Tomei de "A universidade do sucesso", de Og Mandino, e de "Como evitar preocupações e começar a viver", de Dale Carnegie, além de alguns outros livros de autores menos conhecidos, mas igualmente cheios de sugestões práticas e supostamente eficazes, e me dispus ao estudo.

Pois bem, o tempo foi passando, eu me mantive atento à disciplina recomendada por eles, os autores dos livros, mas, apesar da passagem do tempo e de todos os meus esforços disciplinados, nada aconteceu. Nada em minha vida mudou realmente.

Quanto tempo eu perseverei em minha disciplina de aprendiz?

Um ano?

Sim, no mínimo.

Um ano é um bom tempo. Não acho que se deva persistir em algo que não está dando certo por muito mais tempo que isso. Experiências precisam ser avaliadas em seus resultados ao longo do tempo e, neste caso, pareceu-me que um ano de experiência, ou um tempo próximo disto, já deveria ser suficiente.

Algo não estava saindo como os livros diziam que sairia.

Comecei a perceber certas coisas que os livros não ensinavam. Algo estava errado, mas mais especificamente, havia uma frase que eu tomara como verdadeira, e que agora, depois de constantemente pensar e trabalhar sobre ela, parecia-me não ser confirmada pelos fatos. Daí então, fui forçado a me dobrar aos fatos e passei a questioná-la. 

Em um processo de ensino, é de bom tom imaginar que o aluno sabe menos que o professor, e que se algo sai errado, em geral a culpa é do aluno, que não foi atencioso o suficiente, não foi dedicado o suficiente, não possui a inteligência suficiente para compreender as lições ensinadas pelo professor. Evidentemente, o professor pode ter parte na culpa, já que pode não ter sido suficientemente didático. Mas, em se tratando de livros de autoajuda, eu, o aluno, não poderia colocar a culpa no professor, no livro em si, já que poderia retornar às lições a serem aprendidas o número de vezes que fosse necessário para que pudesse assimilar o que estava sendo ensinado. E eu retornei às lições não uma, nem duas vezes, mas várias, tantas quantas julguei necessárias, de modo tal que praticamente decorei certos preceitos tidos como fundamentais para a efetividade de cada lição em si.

Quanto à lição básica, tirada da frase que tomei como verdadeira, ao menos por algum tempo, era a que atribui a nós mesmos a culpa pelas nossas dificuldades em alcançarmos aquilo que desejamos.

Eu teci alguns comentários aqui sobre essa frase. De qualquer forma, reproduzo-a novamente, para que melhor possamos apreciá-la:

“Tome cuidado apenas consigo mesmo e mais ninguém; trazemos nossos piores inimigos dentro de nós.”
Charles Spurgeon

A frase encontra-se no livro de Mandino.

Tomei-a por verdadeira por um longo tempo, mas, na medida em que não obtinha resultados palpáveis com a disciplina na aplicação dos ensinamentos dos livros de autoajuda, comecei a pensar que, bem, sendo eu disciplinado, e estando eu aplicando metodicamente as lições aprendidas, e nada obtendo em troca, abria-se a possibilidade de que o problema poderia estar na lição em si, que poderia, ao menos hipoteticamente, estar errada.

Lendo a frase em um primeiro relance, sentimos que somos chamados a assumir a responsabilidade por nós mesmos, para pararmos de procurar culpados pelos nossos problemas, para deixarmos de nos fazer de vítimas. Essa visão responsável da vida é correta, não há dúvida. Mas, diante de meus péssimos resultados, senti-me frustrado.

Fiquei com uma forte sensação de estar sendo enganado pelos livros de autoajuda, porque, afinal, onde estavam os resultados?

Influenciado por uma outra frase, de um outro livro, um livro de filosofia de Alfred J. Ayer, "As questões centrais da Filosofia", dos quais tratarei adequadamente em um post oportuno em breve, pensei bem sobre o conteúdo da frase, e observei que ela nos alerta para o fato de que podemos ser nossos piores inimigos, mas também observei que ela não limita nossos inimigos a nós mesmos. Quer dizer, podemos ser nossos piores inimigos, mas nem por isso somos nossos únicos inimigos. Se não bastasse termos de nos vigiar e policiar contra nossas falhas, fraquezas e deslizes, temos ainda que saber que temos outros inimigos que não nós mesmos. 

A frase ainda não diz que nossos inimigos são pouco dignos de atenção apenas porque nós somos piores do que eles. Podemos ter inimigos externos a nós que sejam bastante duros e perigosos. Então, a frase em si era uma meia verdade. 

Repetindo: é verdade que trazemos nosso pior inimigo dentro de nós mesmos, mas não é verdade que, em decorrência disso, devemos tomar cuidado apenas conosco mesmos. O fato de eu cuidar de mim mesmo não faz de meus inimigos externos menos ameaçadores do que já são. Logo, se os negligencio, então não os combato, e portanto, não consigo aquilo que desejo, porque eles são um obstáculo oculto que se opõe a meus intentos. 

Pior: ao focar apenas em mim mesmo, meus inimigos externos desaparecem, como se não existissem. E esse é um erro o qual não podemos cometer.

Então, ao cuidar de mim mesmo, e ainda assim enfrentar obstáculos, observei e vi que há, sim, inimigos externos poderosos, e eles não estão nem um pouco dispostos a nos ajudar em nossa luta diária que travamos de encontro aos nossos desejos, anseios e objetivos.

Que inimigos são esses?

Eu pensei bastante, e teorizei que o mundo, tal como está estruturado, é um dos maiores obstáculos que enfrentamos na nossa luta por objetivos.

Mas, como o mundo está estruturado? Que estrutura é esta que nos impede de ir em frente de maneira fácil e rápida rumo aos nossos tão sonhados desejos, como propõem os livros de autoajuda?

A barreira que vislumbrei na estrutura do mundo é que esta é formada de alguns megasistemas sociais que são desenhados sobre a forma de pirâmides hierárquicas. Costumamos chamar essas pirâmides hierárquicas com o nosso aparentemente neutro e científico nome de "organograma".

Basicamente, percebi que quase todos os sistemas sociais humanos são estruturados em forma de organogramas que reproduzem a forma de uma pirâmide hierárquica. Ora, uma pirâmide hierárquica moldando um  sistema social significa que há muitos espaços na base da pirâmide, mas poucas oportunidades no topo, tal como toda pirâmide. Em termos de busca por objetivos, isso significa dizer que muitos tentarão o sucesso, mas poucos conseguirão.

Muitos tentarão, insuflados por suas necessidades e seus desejos de melhoria, e apoiados em livros de autoajuda e suas técnicas motivacionais. Mas poucos conseguirão, filtrados por mecanismos de seleção subjetivos, parciais e tendenciosos, comandados por pessoas cujos objetivos não tem relação alguma com os nossos, e que se regem por sua próprias lógicas particulares.

Eu escrevi assim em minha Agenda 99:

"Tese geral: a frustração e insatisfação geral da sociedade moderna são frutos de sistemas educacionais, empresariais, governamentais, legais e econômicos baseados em premissas falsas."

A pirâmide social que limita o número de pessoas que chegarão ao topo é o que podemos chamar de pirâmide do fracasso, porque muitos fracassarão, enquanto apenas alguns poucos triunfarão, não importa o quão meritosos sejam os que virão a fracassar.

A tese geral acima constata as consequências óbvias de um sistema social assim concebido: bilhões de pessoas lutando, fracassando e se frustrando sistematicamente. E a tese geral constata que os sistemas educacional, empresarial, governamental, legal e econômico, pelo menos, são estruturados em pirâmides hierárquicas que barram quase toda tentativa honesta de melhoria pessoal.

A tese geral, por fim, assume que essas pirâmides sociais são desenhadas de maneira disfuncional não intencionalmente, isto é, elas são concebidas com um objetivo honesto e claro, mas acabam gerando efeitos colaterais indesejáveis, que não são premeditados, nem desejados, e talvez nem mesmo percebidos por aqueles que a desenham e por aqueles que as preenchem e nelas lutam para subir ou nelas permanecer.

Eu, generosamente, não atribui as disfunções dessas pirâmides sociais a um desejo racional de filtrar, obstruir, selecionar e punir quem quer que seja.

Eu tomei meus inimigos externos como seres benevolentes, que apenas fazem o mal por mera incapacidade de perceber que fazem o mal.

Enfim, igualei homens a vírus, a bactérias, a terremotos.

Eu não quis, ao menos por enquanto, imputar o mal do sistema social como decorrente da própria maldade intrínseca do ser humano que o concebe. Poupei-os, os homens.

Afinal, também eu sou um homem, e não me vejo como mau.

A tese geral acima foi apenas um primeiro esboço de um conjunto de outras constatações igualmente significativas e inter-relacionadas, que desenvolverei neste blog, nos próximos posts.

Além do mais, eu observei que livros de autoajuda podem trazer contradições. Além da frase sobre cuidar de nós mesmos como nossos piores inimigos, havia uma outra frase sobre hierarquias, que foi a inspiração para a tese geral da pirâmide do fracasso.

Confrontar frases verdadeiras, mas contraditórias, é uma experiência intelectual fascinante. Eu sabia da existência teórica delas, mas nunca havia me dado ao trabalho de encontrá-las. Eis, no entanto, que a disciplina em aprender sobre autoajuda me levou de encontro ao meu primeiro paradoxo.

Eu falarei mais sobre esse paradoxo. Continue lendo os próximos posts. Eles detalharão o desenvolvimento de todos os meus raciocínios que decorreram deste curioso achado.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Tudo está bem?

A quadragésima terceira pergunta da série que ando tratando ultimamente neste blog é uma pergunta simples, mas que, caso respondida adequadamente, pode elucidar muito a respeito da resistência que temos às mudanças que precisamos implementar em nossas vidas.

Na postagem anterior, questionei se não seria o caso de nós, seres humanos, agirmos melhor não nos preocupando com problemas triviais que atormentam nossas vidas. Não seria mais sensato vivermos sem preocupações desnecessárias?

A aversão que temos a enfrentar problemas nos leva a questionarmos a real necessidade de mudanças. No entanto, sabemos que vivemos vidas imperfeitas. Então, quando argumentamos que seria melhor deixar de lado as preocupações com problemas e nos concentrarmos mais em nossas fontes de alegria e prazer, surge esta nova pergunta, a quadragésima terceira, que reproduzo agora:

"Tudo está bem?"

A pergunta é simples. E cobro como resposta uma posição igualmente simples: sim, tudo está bem, ou não, não está tudo bem.

Uma pessoa pode dizer honestamente que está tudo bem com sua própria vida, e somos forçados a admitir que não temos como saber se isto é verdade ou não. Comparamos o aspecto exterior da vida de uma pessoa e chegamos à conclusão de que ela poderia ser mais rica, mais saudável, mais sociável, ou o que quer que seja, mas não temos razão alguma para dizer que interiormente, sob o ponto de vista psicológico, esta pessoa não está realmente satisfeita com a vida que leva. Podemos achar que ela não é suficientemente rica, mas ela própria pode achar-se feliz com sua situação financeira. Quem detém o poder de julgar de maneira mais sensata a situação de uma pessoa: ela mesma ou qualquer outra?

Há uma questão filosófica profunda envolvida nesta pergunta. A questão relaciona-se com a liberdade humana. Quão livre uma pessoa é para definir que rumo quer dar para sua vida? Que direito tem uma pessoa de dizer a outra o que esta última deve ou não fazer? Que direito tenho de dizer em um livro de autoajuda que você pode até estar se sentindo feliz com sua vida, mas que na verdade esta sua felicidade é ilusória, e que precisa seguir meus conselhos para ser realmente feliz como eu acredito que deva viver?

Temos a liberdade de fechar livros de autoajuda, dizendo que eles são desnecessários na medida em que consideramo-nos sensatos o suficiente para sabermos por nós mesmos aquilo que é o melhor para nossas vidas, deixando de lado a opinião de quem quer que seja, sob a argumentação de que nos conhecemos melhor do que qualquer pessoa no mundo, e portanto, estamos em melhor condição de saber o que queremos ou não para nossas vidas. E um autor pode dar a opinião que quiser sob determinado problema ou situação de vida, mas sabemos que quem detém a palavra final é quem lê, e se o leitor entender que o problema que o autor aponta não é um problema real para o próprio leitor, então o autor estará falando em vão.

A percepção íntima que temos a respeito de nossos problemas, no entanto, é limitada por uma série de fatores. Podemos de fato nos sentir satisfeitos com nosso estado de coisas, mas não vivemos isolados no mundo. Somos seres sociais. Estamos em permanente contato com outros seres humanos e temos um incrível poder de nos comunicar, trocar experiências e fazer comparações entre nós e nossos semelhantes.

Sempre que interagimos com outras pessoas, nas nossas conversas surgem comparações do tipo tal que desigualdades são percebidas entre aqueles que interagem, e essas desigualdades são estudadas, entendidas, e experiências de vida são compartilhadas. Imagine que isso vem ocorrendo desde que o ser humano habita a Terra, desde milhares de anos. Imagine dois homens primitivos se encontrando, trocando informações, se comparando. Caso um ande de sandálias rústicas tecidas com fibras de algum arbusto, e outro ande descalço, é natural que aquele que anda de sandálias irá notar que seria bom para seu companheiro que este passasse a não só andar de sandálias também, mas ainda o ensinaria a trançá-las, a escolher os arbustos adequados, a preparar a fibra, e assim por diante. O homem descalço pode ter passado a vida sem ter percebido seus pés nus como um problema até este encontro, mas depois disto, uma nova possibilidade se lhe apresentará. Dando margem à dúvida, poderá andar ainda algum tempo com os pés nus, mas no momento em que sofrer um ferimento que ele reconhecer que poderia ter sido evitado se estivesse de sandálias, então verá que sandálias não são uma questão de mero gosto, ou experiência cultural, ou um capricho de pessoas exóticas, mas são de fato ferramentas de utilidade comprovada, meios de proteção que lhe darão mais segurança, mais conforto, mais poder de locomoção, e que, embora possa causar algum desconforto no uso e dar algum trabalho na confecção em geral, são artefatos que valem a pena usar, e então passará a usá-las, ainda que eventualmente.

O mundo moderno não é muito diferente deste mundo primitivo. Evidentemente, nossos problemas básicos de sobrevivência física estão quase todos resolvidos. Aprendemos a usar calçados ainda quando bebês. Mas nossos problemas não se resumem aos aspectos físicos da sobrevivência. Temos infinitas necessidades. Não podemos satisfazer todas, mas podemos satisfazer as necessidades mais críticas. Na verdade, as necessidades, por serem muitas, são um complexo que é difícil de ser entendido. Não sabemos como uma necessidade relaciona-se com outra, qual gera qual, ou se há algumas delas ocultas de nossa compreensão. Muito provavelmente temos uma quantidade enorme de necessidades que desconhecemos. 

Ora, se desconhecemos um problema, como podemos resolvê-lo? 

Mas, observe: eu falava de necessidades, e agora falo de problemas. Necessidades são o mesmo que problemas?

Uma necessidade pode ser entendida como uma carência de algo. Se nos falta algo, isto é um problema? Como podemos ter carência de algo que sequer sabemos que existe? Parece uma situação absurda, mas não é. Uma pessoa pode morrer sem saber a causa, mas a causa pode ser socialmente conhecida. Por exemplo, uma pessoa pode desenvolver problemas físicos por falta de consumo de sal, e achar que esses problemas físicos não são um problema de fato, mas mero acaso, uma fatalidade da vida, um capricho do destino. Não podemos forçá-lo a aceitar o problema como um problema, mas podemos facilmente resolver o problema, caso ele concorde em tentar. Basta de ele passe a consumir sal.

Então, necessidades existem, a despeito de sabermos, ou aceitarmos, ou termos consciência delas. E necessidades são consideradas problemas por uma sociedade, ainda que indivíduos possam não ver as coisas desta maneira.

Pessoas podem viver com suas necessidades e problemas sem dar-lhes solução ou combate.

Elas podem viver como se tudo estivesse bem. Elas podem discordar da sociedade como um todo, e considerar suas mazelas um estado normal, aceitável, feliz até.

Temos o direito de questioná-los?

A resposta a esta questão é que problemas são dinâmicos.

Uma pessoa pode achar que o vício do cigarro, por exemplo, não é um problema. Pode sentir prazer no fumo e rejeitar qualquer tentativa de convencimento quanto a parar de fumar. Temos o direito de recriminá-lo pela sua teimosia? Ele não estará correto em seu julgamento baseado em seu estado interno de espírito?

Não. ele está errado, porque embora ele não julgue o ato de fumar um problema, a sociedade julga que seja. E não é apenas uma questão de gosto pessoal, onde uma maioria impõe seus gostos sobre uma minoria. A questão é que o problema que o fumante julga ser somente seu não o é de fato. Fumantes adoecem. Uma pessoa doente precisa de cuidados. Doenças são problemas sociais, e não apenas daquele que está doente. Somos seres sociais solidários, embora possamos dar mostras horríveis de egoismo em diversas situações. Mas em geral, não deixamos as pessoas adoecerem e morrerem sem que seja dado nenhum tipo de ajuda. Mesmo o doente que foi levado à doença por um vício com o qual se ateve por decisão própria, contrariando todas as recomendações de cuidado, ainda assim receberá a ajuda que precisar, e os fumantes só morrem porque não somos capazes de curá-los. Daí que a liberdade do fumante é uma liberdade que atende seus próprios interesses de prazer, mas pune a sociedade que dá asas a esta mesma liberdade. E daí que fumar é vício, e não hábito, porque não consideramos livres as pessoas que trazem prejuízos à sociedade onde vivem e da qual dependem em busca de mero prazer físico momentâneo. Entendemos, benevolentemente, que não é uma questão de vontade, mas de escravidão a um vício, e passamos a ver o viciado como digno de pena, porque, afinal, depois do prazer, ele é quem mais sofrerá as consequências de suas decisões desastrosas.

Assim, necessidades e problemas sociais, ainda que não vistos assim por indivíduos, representam um custo para todos, e não é uma questão de gosto ou liberdade, mas de racionalidade. Se pagamos caro pelas ações de indivíduos que não têm consciência de que seus atos são prejudiciais, temos o direito de fazer esta pessoa consciente de que sua atitude representa um problema para o grupo, ainda que não represente um problema para ela mesma.

Nossa liberdade de permanecer em uma vida que julgamos sem problemas termina no momento em que passamos a prejudicar outras pessoas. Qualquer pessoa que se sinta prejudicada em decorrência de nosso comportamento pode e deve cobrar de nós uma adequação. Nossa liberdade de viver conforme bem entendermos é uma liberdade relativa. Um comodismo egoísta não deveria ser tolerado se levasse alguém mais que o próprio indivíduo acomodado a sofrer as consequências ou prejuízos desse comodismo.

Daí que os pais tem o direito de ter filhos, mas o dever de cuidar bem deles. Daí que as pessoas podem comprar carros velozes, mas precisam respeitar regras de trânsito e daí que uma criança pode gostar de andar descalça, mas precisa andar de calçados, porque pés machucados precisam ser cuidados, e mesmo uma criança precisa entender que não pode dar trabalho aos adultos simplesmente porque é caprichosa e deseja fazer as coisas da maneira que bem entende.

Tudo está bem?

Talvez esteja bem sob meu ponto de vista íntimo, mas está bem sob o ponto de vista social? Estou, com meu comodismo preguiçoso, prejudicando alguém que não tem culpa nenhuma pela minha preguiça? 

Talvez mudar não seja uma questão de gosto, mas de necessidade. Talvez seja mesmo uma questão social. Quem sabe seja mesmo uma questão de Estado e de política.

Mas, dando um passo além, suponhamos que não, não estamos prejudicando ninguém com nosso comodismo. Por que não deixar as coisas como estão? Por que mudar um estado de coisas tão confortável? Afinal, não sabemos o resultado de uma possível mudança. Podemos criar problemas em uma situação que não precisa ser mudada. Por que correr o risco?

Se o comodismo pode ser justificado sob este ponto de vista, quer dizer, se não há uma motivação social para a mudança, um indivíduo sensato deveria saber que o mundo é dinâmico, a vida muda com o decorrer do tempo, e não há garantias de que tudo continuará como está no futuro.

Então, estamos já na área de abrangência da próxima pergunta. Nesta nova área, saímos do campo social e entramos no da previdência, da sensatez e da prevenção.

É o que veremos no próximo post.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Como ser uma pessoa disciplinada?

Tendo falado sobre a importância da disciplina em meu último post, abordo agora a trigésima oitava pergunta, da série que fiz em 2001, e para a qual venho tentando dar respostas satisfatórias, para satisfazer minha própria curiosidade intelectual.

Admitindo que livros de autoajuda são manuais disfarçados de literatura, e que só surtem efeito se forem seguidos com disciplina, e tendo ainda admitido que disciplina é então fundamental no processo de se aplicar recomendações dos livros de autoajuda, faço o seguinte questionamento:

"Como ser uma pessoa disciplinada?"

A razão desta pergunta é que há a percepção de minha parte de que ainda que a disciplina seja fundamental, ela é relativamente rara, quer dizer, a disciplina não é um dom natural com o qual as pessoas nascem e que se desenvolve sem maiores esforços, como uma orelha ou um pulmão. A minha percepção é a de que a disciplina é um atributo que requer esforço consciente de um indivíduo para que venha a se estabelecer. Não acredito que as pessoas nasçam naturalmente disciplinadas, nem que passem a ser disciplinadas sem esforço ou treinamento. Assim, se a disciplina é uma habilidade que se aprende, tal qual uma língua ou a capacidade de ler ou andar de bicicleta, então, o que uma pessoa precisa fazer ou saber para se tornar disciplinada?

Não conhecia, quando da pergunta, nenhum método eficaz que servisse para incutir disciplina como um hábito no comportamento de uma pessoa. Hoje, talvez eu disponha de mais conhecimento sobre o assunto, mas este conhecimento é limitado. Afinal o assunto é polêmico e não dispõe de respostas definitivas nem mesmo entre os especialistas. Bem, esta pergunta então, sou forçado a admitir, não possui uma resposta completa.

Na verdade, o tema da disciplina tomará grande tempo e esforço de minha parte ao longo dos anos, depois de feita esta pergunta, em 2001. Como este post é forçosamente limitado à circundar a pergunta original em si, creio que não há muito o que dizer mais, além do que o já dito. Disciplina é importante, sabemos todos, mas não sabemos como tornar as pessoas disciplinadas.

Esse conhecimento é buscado por diferentes pessoas, grupos e ciências, por diferentes motivos, com diferentes objetivos. Assim, o campo é rico em possibilidades. Na medida em que formos avançando com este blog, mais e mais veremos o assunto ser abordado, em um grau cada vez mais profundo, e mais e mais perceberemos as razões de ser um tema tão interessante e discutido.

Por ora, é bom que saibamos que a busca por fórmulas capazes de tornar as pessoas disciplinadas é um daqueles tipos de alvos que significam o desenvolvimento potencial de toda uma indústria, e cuja solução implicaria riqueza, poder, sucesso, fama e grandiosidade tal que rivalizaria, sem exageros, aos louros colhidos pelo descobrimento da energia atômica, ou do DNA, ou ainda o da pedra filosofal, se esta existisse. Creio que este julgamento da importância que atribuo ao poder de controle da capacidade da disciplina não é exagerado porque a História assim me autoriza. Evidentemente, a história é riquíssima em exemplos de lutas pelo poder, embora não seja de modo algum óbvio em um primeiro relance conseguir vislumbrar o elo entre esses exemplos e a conquista da disciplina propriamente dita. Mas quando passamos a vê-la como um instrumento de controle social, como uma habilidade que não precisa ser necessariamente adquirida voluntariamente, então podemos pensar em tentativas de controle social por métodos não psicológicos, nem voluntários, e motivados por objetivos pouco pessoais ou altruístas, e então a disciplina passa a ser vista como uma ferramenta política, ganhando uma dimensão que vai muito além daquela que comumente lhe atribuímos, uma dimensão que não tem quase nenhuma relação com força de vontade ou motivação pessoal. Mas então, já estamos indo longe demais com o tema, e devemos caminhar por meio de passos seguros, para não nos confundirmos com a complexidade do assunto.

Portanto, ser uma pessoa disciplinada é, mais do que um desejo pessoal, um poder social que transcende o indivíduo. Por transcender o indivíduo, ganha o interesse de grupos e ramos científicos que passam então a estudar o tema de maneira ampla e variada. Esses estudos são por demais complexos para serem tratados em um único post, mas precisam ser tratados, de uma forma ou de outra, por este blog, porque assim o determina a curiosidade pessoal do autor.

É o que faremos, mas não agora.

Agora, no próximo post, trataremos da trigésima nona pergunta. Caminhemos com mais dúvidas...

domingo, 7 de julho de 2013

A perdição do pobre é a pobreza

A perdição do pobre é a pobreza.

Alfred Marshall, economista inglês, foi quem o disse, e concordo com ele.

A mente humana pode muitas coisas, e um de seus poderes é a capacidade de sentir empatia por outros humanos, a capacidade de simular, emular o sentimento íntimo de outra mente, que não a sua própria. Mas a empatia tem limites. Como simulação, é um pálido espantalho perto do que realmente sente o ser original. A empatia só é mais real na medida em que quem a sente já tenha ou não vivenciado situação igual ou parecida com a que tenta emular.

É fácil sentir, por exemplo, empatia por um pobre coitado cidadão irritado por estar atrasado para o trabalho de manhã e que, furioso, mete a mão na buzina do carro e resfolega sozinho contra o trânsito que não anda. É fácil porque quase todo mundo já passou por situação parecida em grandes cidades. Sabemos como é a situação, e assim, fica fácil entender o que vai pela cabeça do sujeito irritadiço.

Mas não é fácil um homem, um exemplar adulto do sexo masculino, sentir empatia por uma mulher, um exemplar adulto do sexo feminino, quando esta relata a experiência de um parto pessoal. Sabemos o que é dor, mas nós, homens, não temos úteros, e não é fácil fingir que temos um. Também não é fácil sentir empatia por uma série de situações que não fazem parte de nossa realidade.

A pobreza é uma dessas situações.

Para uma pessoa que nunca foi pobre, é muito difícil sentir verdadeira empatia por quem foi ou é pobre. Quem nunca foi pobre não tem poder mental suficiente para recriar as milhares de pequenas coisas que formam, em seu conjunto, aquilo que chamamos pobreza.

Isto não significa que a pobreza seja uma condição que seja digna de orgulho ou de honra. Poucos, afinal, escolhem ser pobres. E ninguém tem o poder de escolher nascer pobre. Simplesmente nasce-se pobre. E quem, não tendo nascido pobre, vem a ser por um motivo ou outro, se pudesse, evitaria a pobreza. Há, claro, abnegados, tais como certos religiosos, ou profissionais, como médicos, cuidadores, pesquisadores, que se submetem a um ambiente de pobreza com o fito de lutar contra ela, mas esta é uma decisão bem pensada, e por isso mesmo, não definitiva. Um padre pode cansar-se de um lugar pobre e ir para outro local menos áspero. Não está apegado à pobreza como está o próprio pobre.

Assim, o pobre, que não pode emular, por sua vez, a não pobreza, mantém-se onde está, na sua perdição. Se pudesse de fato saber que há algo melhor que a pobreza, poderia lutar para obter este algo. Mas então, estamos indo longe demais, porque não há somente uma questão de ignorância de status social e de decisão de ficar ou mudar. Há forças maiores que a mera ignorância que prendem o pobre à sua pobreza. O conforto proporcionado pelo abandono da pobreza não é estímulo suficiente para que um pobre se esforce para deixar de ser pobre. O brilho do conforto se apaga diante de outras luzes que o convidam a ficar onde está.

Que brilhos são estes?

Há muitos.

O conformismo, a preguiça, a enorme dificuldade da tarefa de mudança, as ameaças religiosas e filosóficas, os obstáculos da própria sociedade, a exigência quase sempre necessária de mudança física de um lugar querido para outro absolutamente ameaçador e estranho, enfim, há mais forças lutando para que o indivíduo fique onde está do que forças lutando para que ele mude.

A perdição do pobre é a pobreza, disse Marshall, um economista.

O que mais a Economia tem a nos ensinar?

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Uma mudança política no Brasil?

Depois que milhões de pessoas saíram às ruas no Brasil, neste mês de junho de 2013, um surto de reivindicações as mais diversas parece desconcertar os políticos e analistas. No entanto, aos mais atentos, a situação já era esperada. 

Eu disse aqui neste blog, que não é necessariamente político, sobre o andamento das coisas: leiam "Colapso brasileiro" e leiam "Pacifismo e passividade". Foram textos escritos apenas algumas semanas antes do começo dos acontecimentos, que ainda estão em evolução. Só foi pego de surpresa quem não observa os fatos.

Agora, mais uma vez, os desavisados buscam uma solução para a crise. E mais uma vez, quem observa os fatos já sabe que a solução encontra-se na reforma política.

O que é reforma política e por que ela é a primeira e mais importante coisa a ser feita?

A indignação do brasileiro dá-se no dia-a-dia, nas pequenas coisas, na confrontação daquilo que é e daquilo que poderia ser: poderíamos ser uma país de primeiro mundo, rico que somos como povo e território. 

A coisa não acontece por quê?

A coisa não acontece porque temos nossos defeitos como cidadãos, admitimos, mas também não acontece porque há um Estado que deveria lutar para que nos tornássemos cidadãos melhores, e assim, poderíamos fazer as coisas acontecerem, com a ajuda deste próprio Estado.

Mas o Estado não faz sua parte.

O Estado, todos os Estados, são grandes instituições com enormes responsabilidades, demandados por milhões de pessoas e com milhões de ações a serem exercidas. Gerir Estados não é coisa para amadores. 

No entanto, temos valores a preservar, e um desses valores mais caros é a Democracia. 

Democracia significa que nós mandamos no Estado, e não o contrário. Mas nós não podemos gerir o Estado, ainda que ela seja nosso e esteja à nossa disposição. Daí que há algo de errado neste modelo de Democracia.

A Democracia moderna está sendo desafiada. Ela está sendo desafiada sob dois sentidos da palavra desafio. Ela está sendo desafiada por outros modelos de governo, que sabemos ser ditaduras, e portanto nocivas, e portanto, inadmissíveis. E no entanto, ela, a Democracia, tal qual se apresenta hoje no país, não funciona, porque não atende a nossas necessidades. Logo, é um valor a ser preservado, sim, mas precisa funcionar de fato. Daí que ela é demandada pelo povo a ser mais eficiente, mas útil, mais eficaz.

Mas nossa Democracia está calcada em nossa Constituição, a de 1988. É nela que está o problema de nossa Democracia, assim como é nela que se encontra a solução de seus problemas.

Agora, surge uma percepção, que vai se espalhando pela sociedade, de que a raiz do problema está nos nossos políticos. E que não os queremos mais. Mas não sabemos como nos livrar deles.

Ora, as regras eleitorais estão em conformidade com a Constituição. Hoje, com as leis vigentes no momento, não se pode ter garantias de que teremos políticos melhores, ou outros políticos que não esses que já temos. Sem políticos novos e melhores, não teremos leis e administradores melhores. E sem leis e administradores melhores, tudo continuará como se encontra, apenas levemente melhor, ou pior.

Este não é um problema só brasileiro. É quase que global.

São somente leis eleitorais e políticos que são ruins? Não, evidentemente que não. Mas sem novas leis eleitorais, para que possamos escolher novos e melhores políticos, não teremos as mudanças que desejamos  na Constituição e nas leis que podem melhorar o país. 

Também não devemos ser ingênuos de supor que essa mudança eleitoral inicial e urgente será feita da maneira que desejamos pelos atuais políticos. Eles não criarão leis que os destituam. Na verdade, estamos no meio de uma revolução, que pode significar que as coisas mudarão por meios legais e pacíficos, dentro de uma ordem, ou as coisas tenderão a mudar para pior, porque a instabilidade social já está instalada. Eles sairão, de um jeito ou de outro. A escolha é, em parte, nossa, em parte deles. Como povo pacífico, devemos escolher meios pacíficos, mas como povo que deixou a passividade de lado, não devemos permitir que fiquem. 

Mas, como mudar? O que mudar? Mudar para qual caminho?

São perguntas com respostas muito difíceis, e que demandam que nossa sociedade dê o melhor de si como povo, como civilização, como parte da humanidade, sem que deixemos as coisas decaírem para radicalismos ideológicos que gerarão o ódio, a revolta ou quem sabe a guerra entre facções de brasileiros. É uma situação assustadora, mas não impossível. Há precedentes no momento em outros lugares no mundo. Não nos iludamos com a impossibilidade desta hipótese.

Assim, resta começar um trabalho de debates profundos, sem medo de propostas novas, ainda que desagrade aos políticos atuais. Eles tiveram o seu tempo. Eles tiveram suas chances. Eles poderiam ter feito a mudança, mas não fizeram. 

Agora, novos brasileiros deverão cumprir com seus deveres de levar o país ao seu destino, que espera-se, seja melhor, bem melhor do que tem sido.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Colapso brasileiro

Parece que a sociedade brasileira está vivendo o começo de um colapso social. 

As instituições existem, o Estado existe. As pessoas estão aí, vivendo e trabalhando, mas há algo sintomático nisto tudo. Há uma forte sensação de que as coisas não vão bem, e não tem nada a ver com o crescimento do PIB ou dos juros, nem com Mensalão ou com qualquer um dos assuntos do dia-a-dia dos jornais e sites país afora.

O que percebo é uma corrosão de valores tidos como elementares para que se tenha uma sociedade, valores que mantêm uma sociedade coesa e funcional. Percebo uma inversão de valores, onde o certo passa a ser o errado, e onde o que era errado e condenável até ontem passa a ser o correto, o defensável, o exemplo a ser seguido no dia de hoje, sem aviso prévio. Se não parecesse tanto com um estado de paranoia extremista, eu diria simplesmente que nossas instituições e nossa sociedade estão contaminadas ou mesmo já dominadas pelo narcocapitalismo internacional espertamente disfarçado de esquerda militante. As FARCs venceram, e mandam na América, de Norte a Sul, sem exceção. Eles estão em postos chaves dos governos, nas ONGs, manipulam as mídias e fazem a cabeça da população para que todos liberem geral e consumam muita, muita droga, ou muito, muito de tudo aquilo que eles têm para nos vender a preço de ouro, mas que não podem vender abertamente porque os governos não deixam.

Mas não, não vivemos sob um governo fantoche. Dilma não é o braço político dos barões. O que vivemos é somente o resultado de décadas de miséria e ignorância plantadas por governos brasileiros passados e pela sempre leniente e atrasada sociedade brasileira, que agora não sabe como resolver o problema da violência, do atraso social e da irrelevância econômica, depois de alguns anos de arremedo de progresso, desenvolvimento e sanidade, que já passaram e que agora são apenas vagas páginas nos livros de História.

Sem conspirações: somos apenas um país com muitos milhões de ignorantes que não sabemos como resolver os problemas que nós mesmos criamos.

Não, a solução não está no comunismo. Não, a solução não está na Copa do Mundo, nem nas Olimpíadas, nem nos movimentos sociais. A solução, seja ela qual for, não está lá fora, nem em fórmulas antigas e desgastadas. Nenhum país virá em nosso socorro. Nós não somos um Haiti. E nenhum filósofo morto nos dirá qual caminho a seguir. Nós não somos a Rússia. Mas, ainda assim, se nada for tentado, nós simplesmente nos desintegraremos, como a carcaça de uma grande baleia encalhada em uma praia remota, e o mundo seguirá sem nós.

Não acho que viverei mais cinquenta anos para ver o Brasil se tornar grande. Ele já é grande. Ele sempre foi grande. Não é tamanho o que esperamos deste país. Não é um PIB grande que marca uma grande nação. Ao envelhecer, percebo que venho ouvindo este canto de sereia do Brasil grande desde quando tinha meus seis anos de idade. Agora, não espero avanços. Espero somente que a vida volte a ser como já foi. Sim, nós já vivemos melhor do que estamos vivendo hoje, em muitos aspectos, posso afirmar com certeza. Mas simplesmente para correr atrás do tempo perdido, é preciso que mudemos nosso modo de ser. Se não mudarmos, nada muda.

Mas, creio que uma das coisas mais difíceis de se mudar é a mente humana adulta. Nós não temos conhecimento suficiente sobre como fazer isto. Nós não temos tecnologia para fazer isto. Nós, ainda assim, poderíamos ter este poder, o de fazer de um analfabeto um cidadão instruído, ou de um usuário de crack um cidadão sóbrio, ou de um criminoso um cidadão íntegro. Mas, se tivéssemos este poder tecnológico, não teríamos o poder legal, nem ético, de mudar as mentes das pessoas. Se assim fosse, onde entraria o direito do preguiçoso de optar pela preguiça, e não pelo trabalho, e o direito do criminoso de optar pelo crime em vez de optar pela vida social normal, cheia de regras, segundo ele próprio, absurdas, totalitárias e limitadoras de suas liberdades pessoais?

Pois bem, as pessoas não podem ser mudadas, senão por vontade própria, e os brasileiros não querem mudar. Eles não sabem que precisam mudar, mas ainda assim, se soubessem, eles achariam que não precisam mudar, e não mudarão, não em um futuro próximo. Além do mais, a Democracia dá a toda pessoa a liberdade de não mudar, de ser o que ela deseja ser, sem mais. Assim, a Democracia, que permite a todos quase tudo, será a espada que defenderá o caos social. A Democracia, legitimando a estagnação social de uma maioria, ata as mãos da minoria que busca mudanças. 

A Democracia moderna, tal como o computador, a estação espacial e a terapia genética, é uma invenção humana recente, sofisticada, e por isto mesmo, complexa e frágil, e não foi feita para sobreviver em meio a pessoas que não a valorizam. Favorável a uma maioria que não a abomina, mas nem por isso a respeita, a Democracia ata as iniciativas de quem a defende, e por isso, morre junto com seus defensores. A Democracia, ao permitir que os que não a respeitam atentem contra ela própria, suicida-se, porque ela, sem quem a defenda e a respeite, não é nada. Uma lei que não é respeitada, é letra morta, e portanto, não é lei. Uma Democracia calcada em leis que ninguém respeita não é Democracia.

Ora, nós, brasileiros, queremos os direitos garantidos por uma Democracia de nação civilizada, mas  não o dever de respeitar as leis que ordenam uma sociedade, emanadas por esta mesma Democracia. Democracia moderna em meio a uma sociedade que não a respeita é, no máximo, falsa Democracia. Não defendo de forma alguma um futuro sem Democracia. Logo, sou forçado a admitir que o jeitinho brasileiro venceu mesmo o mundo normal e democrático das regras, e que seremos o eterno pais de malandros, o que não é nem deveria ser novidade para ninguém, exceto que apelar para o jeitinho brasileiro nada mais é que enfiar uma faca nas costas daquela que o defende, ou, dizendo ainda de uma maneira mais clara, é preciso que aceitemos que a Democracia nunca funcionará entre um povo que tem por orgulho nacional a sua capacidade infinita de desrespeitar toda e qualquer regra que a própria Democracia lhe impõe. Como a Democracia pode sobreviver onde ninguém a respeita? A Democracia nada pode contra a ousadia do malandro. O Brasil, enfim, torna-se, dia após dia, cada vez mais uma autêntica e legítima Ditadura da Malandragem. Alguns dirão solenemente que caminhamos para uma Anarquia controlada, mas não é esta a verdade. 

Talvez eu não viva o suficiente para ver o Brasil se esfacelar, mas, até prova em contrário, ele agoniza sobre seu próprio peso hoje, agora, neste exato momento, e as crianças degoladas, e as crianças violentadas, e as crianças com os cérebros espedaçados por balas perdidas e balas intencionais, estas são a prova viva de que um país assim não só não durará muito, mas, mais que isto, um país assim não merece durar mais do que já tem durado.

Ou se reconstrói o país sob novas fundações - e essas fundações não são as fundações comunistas carcomidas pela prova da realidade histórica - ou o povo brasileiro destruirá a si próprio, sem guerras, sem lutas, sem revoluções, mas atritando-se, vergando-se sob seu próprio peso, em filas desordenadas, em chacinas corriqueiras, em tiroteios banalizados, em mortes por doenças absurdas, por acidentes absurdos, enfim, destruirá a si mesmo como aqueles animais psicologicamente doentes que viciam-se em comer partes de si mesmos e acabam por morrer mutilados e tristes, incapazes de mudar seu "jeitinho" doentio de ser.

Nós não vivemos uma luta de classes. Nós vivemos em uma UTI sociológica, derrubados por uma doença cultural, mescla de malandragem, ignorância e preguiça. Sim, eu sei, já disseram isto antes. Quem disse, contudo, estava coberto de razão!

Não, a Copa do Mundo não nos livrará de nós mesmos. Antes, e muito depois disto, continuaremos a vida sob toque de recolher, e enterraremos nossos mortos inocentes, sob as barbas brancas de uma Democracia velha e senil, que rirá de nosso luto e dirá: "A culpa é do morto..."

Triste, medíocre, este povo brasileiro passivo, que não reaje...

terça-feira, 9 de abril de 2013

Pacifismo e passividade

As palavras são parecidas, e seus sentidos, idem. Mas há entre elas uma diferença que, se não realçada, pode traçar mesmo o destino de uma grande nação.

Falo isto com o intuito de esclarecer o que acho que seja uma imensa confusão entre um conceito e outro, e que acaba fazendo do povo brasileiro um povo que vê seu país afundar de uma maneira que o torna incapaz de reação ou de luta.

Somos chamados de povo pacífico. Ora, somos mesmo? Não enfrentamos guerras a muito tempo. Logo, parece que somos mesmo pacíficos, se não mesmo pacifistas. Mas este aspecto externo, de sermos um povo que não busca lutar contra nações e povos vizinhos, não é mérito algum, se pensarmos na questão interna, onde lutamos uns contra os outros, sem que se caracterize uma guerra civil, mas ao mesmo tempo se caracterize um conflito tão renhido, crônico e doloroso que produz como resultado mais mortes que uma dúzia de guerras externas.

Quem nos chama assim, de pacíficos, quando não o somos de forma alguma?

E com que objetivo? Para que pensemos que somos um povo civilizado, quando não o somos? Quem ganha com essa triste ilusão?

Nós não somos um povo pacífico de forma alguma. Matamo-nos aos milhões. Assim, pergunto: quem nos rotula, falsamente, de sermos um povo pacífico? A quem interessa este rótulo falso?

Como pode ser pacífico um povo que enterra centenas de milhares dos seus próprios semelhantes ano após ano, incapaz de tomar qualquer medida que seja para conter essa sangria horrenda?

Mas quem quer que seja que nos rotule de pacíficos, está prestando um grande desserviço ao povo brasileiro.

Somos nós mesmos que nos rotulamos de pacíficos? Se for, fazemos isto inocentemente?

Seja quem for, e seja qual for a motivação, inocente ou não, o resultado deste rótulo é um só: tornamo-nos um povo passivo.

Passividade é um estado de espírito. Passividade não é uma característica que se deva desejar para um povo. A passividade pressupõe derrota. Um indivíduo passivo está longe de ser um sujeito pacífico. Passividade não implica paz de forma alguma. Pelo contrário: somente porque há cidadãos passivos é que a minoria agressiva se sente segura para cometer seus delitos e atrocidades. Um sujeito passivo torna a si mesmo uma vítima fácil para todo tipo de oportunista.

O povo brasileiro não é pacífico; é passivo. Por ser assim, enterra todos anos, nas últimas quatro, cinco décadas, 50 mil mortos no trânsito, mais 50 mil mortos assassinados, e mantém 700 mil presos nos presídios, a nata de sua juventude, e amarga um governo que está muito aquém de suas necessidades.

Nós não precisamos temer sermos tachados de um povo agressivo se, de repente, resolvermos agir firmemente diante de problemas que requerem força, determinação e, por vezes mesmo violência. Não creio que se possa combater a ação violenta de uns com a passividade de outros. Quem usa de violência não teme a agressão meramente moral, verbal ou teórica de seu oponente.

Eis aí um tipo de confusão de conceitos que mais dia, menos dia, será esclarecido da pior maneira possível.

Creio que estamos à beira de uma guerra civil, em situação pior da que se viveu em 1961 e 1964.

Quem viver, verá.

Não seja passivo. Seja pacifista, mas não passivo.


sábado, 16 de fevereiro de 2013

Há definitivamente algo de errado com o povo brasileiro

Sei que não fui o primeiro, nem o único, a perceber que algo de muito errado está acontecendo com o povo brasileiro. Quer dizer, algo de muito errado está acontecendo com as pessoas que vivem atualmente neste país esfacelado.

Vou logo ao assunto: ontem, dois eventos, de uma raridade extrema, ocorreram ao mesmo tempo, com intervalo de apenas algumas horas. O primeiro deles foi um meteorito que explodiu sobre algumas cidades no centro da Rússia com a força de 200 bombas de Hiroshima e deixou mais de 1.200 feridos, algumas dezenas deles com gravidade. O segundo deles foi um asteróide que passou a poucos milhares de quilômetros da Terra, representando um risco real, bem mais ameaçador que o meteorito que caiu mais cedo na Rússia.

O que mais chama a atenção é que a probabilidade de dois eventos deste tipo ocorrerem no mesmo dia é de 1 em 100 milhões. Provavelmente a humanidade estará extinta quando isto tornar a ocorrer, daqui a 270.000 anos, segundo o cálculo das probabilidades. Assim, algo muito raro e perigoso ocorreu ontem, para o conhecimento de todos. Um evento assim deveria servir de alerta, deveria chamar a atenção e deveria estimular debates infinitos no planeta todo, no mínimo.

Mas aqui, no Brasil, ao longo de todo o dia quase nada foi dito sobre o assunto. Aqui, as matérias jornalísticas mais procuradas pelos internautas eram sobre Neymar, sobre quem agrediu quem na novela Salve Jorge, enfim, o povo brasileiro está mais interessado mesmo é em celebridades, violência e sacanagem.

Não bastasse isto, e vemos o Facebook se encher de mêmes e piadinhas as mais ridículas e maldosas sobre a desgraça alheia, na Rússia. Uns brincando de heróis japoneses, outros desejando que um meteoro caísse sobre Brasília, outros ainda usando o assunto para a promoção de si mesmos e de seus blogs ocos e suas comunidades vazias.

Há, sim, algo definitivamente errado com o povo brasileiro, pelo menos. Essa insensibilidade com a desgraça alheia, essa preocupação com o banal, em lugar de uma verdadeira demonstração de solidariedade pela dor distante dos russos, a ignorância do tamanho do evento, a total incapacidade de perceber implicações, o desprezo por aquilo que ignoram, enfim, a total indiferença diante da vida, do mundo e do cosmos, a absoluta atenção apenas para consigo mesmos e para com as frivolidades que abarrotam a televisão e a internet como um todo, é o sinal claro de que somos um povo doente, muito doente. Um povo que, sem saber, tem dentro de si um câncer social terminal. 

Um povo covarde, que não tem coragem de passar a mão em uma bandeira, ou quem sabe, em um fuzil, e fazer com as próprias mãos o que deseja que um asteroide faça com meia dúzia de políticos que acham que  podem tudo. 

Não, um asteroide não destruirá Brasília. Não, ele não destruirá o Brasil. Mas nem por isso o Brasil não será destruído. Ele o será, e o será pelo próprio povo que não é capaz de nada. Um país feito de covardes não precisa de nada que o destrua. Um povo covarde destrói-se a si mesmo. Ele destrói-se a si mesmo dia após dia, nas estradas, nas casas noturnas, nas enchentes, nos assaltos e nos sequestros relâmpagos. Ele destrói-se a si mesmo com baforadas em cigarros de maconha e cachimbos de crack, em bofetadas dadas a torto e a direito em cada cara que se mostre descontente com alguma coisa. Ele, o povo covarde, é autofágico: come-se a si mesmo, de preguiça ou medo de fazer alguma coisa digna de ser feita.

O Brasil não vai se acabar com um asteroide. Ele vai acabar em barranco, para que todos se escorem e descansem, até a morte os tragar.

Outros povos virão, é certo. Este imenso e desprezado continente será ocupado por gente mais preparada. Sempre foi assim: os fortes vencem os fracos. Os despreparados cedem o lugar para os mais aptos. Não tenho dúvidas que não seremos poupados de nossa indolência como povo. Seremos lembrados no futuro como os mongóis de Gengis Kan, um povo bárbaro que veio, destruiu tudo que foi capaz pelo puro prazer de destruir e depois desapareceu se deixar vestígios, sem deixar legados, sem deixar rastros. 

Esta é a realidade do Brasil, que tantos querem ver destruído por um impotente asteroide.

Há, sim, algo definitivamente errado com o Brasil.

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

A burocracia inerte, o velho e o cadáver

Fecho meu expediente hoje com uma enxurrada de textos sobre desburocratização. Bem que eu gostaria de tornar a vida mais simples, mas não dá. Há uma inércia que é da própria vida: nada muda de uma hora para outra. Leva-se anos e mais anos para as mudanças serem notadas, e somos mais parecidos com árvores que com ratos. Somos lentos e pouco adaptativos, mas ainda assim, com toda essa lerdeza, somos tão abundantes quanto os ratos! Mas quem disse que as lentas árvores também não são abundantes? Lerdeza não implica em escassez.

De manhã, tenho ouvido Bach e seus concertos para violino. Dão uma paz incrível, e fico pensando o que tinha ele na cabeça quando compunha suas obras no anonimato. Vi um velho sendo apoiado por uma moça jovem para uma caminhada matinal. Pensei no dia em que isso me ocorrerá: viverei o suficiente para poder ser apoiado? Não sei, mas mesmo um corpo frágil ainda merece um pouco de sol numa manhã fria.


Fiquei matutando durante o dia se no nosso mundo darwiniano, devemos premiar os vitoriosos ou puni-los, ajudando os perdedores. O Estado deve buscar a igualdade dos cidadãos, mas será uma missão factível?

Então, dei a mim mesmo a resposta: se eu fosse um fraco, acharia ruim ser ajudado pelo mais forte por meio do Estado? A resposta é óbvia: eu já fui ajudado...

Então, por fim, um corpo enterrado por engano no interior de São Paulo acaba como um monte de ossos dentro de um buraco escuro. Tratado como a ossada de um indigente, o corpo foi misturado a um mundo de outros ossos, e a família jamais poderá dar à ossada um lugar digno e definitivo.

A lição é clara: mesmo morto, pode-se meter-se em encrencas!


terça-feira, 31 de julho de 2007

Dia bem trabalhado

Você sabe o que é um dia bem trabalhado?

É aquele dia em que você não viu as horas passarem, envolvido com um mar de papelada, e que após muitos telefonemas e muita consulta em bancos de dados, você consegue despachar aquele calhamaço de processo que estava sobre sua mesa desde 2003, com a capa amarelada e pesando cinco quilos.

Um dia desses é memorável. Ninguém agradece, ninguém percebe, ninguém comemora, mas é um marco em sua capacidade de trabalho, uma prova de que você pode começar as coisas e que pode concluir as coisas, a despeito da burocracia interminável. Não é você que vai deixar o mundo sucumbir à modorra digna de "O Processo", de Kafka, porque você não se submete a essa filosofia, você não é complacente, nem consente com o crime nacional da incompetência. Você não admite que se construam pontes ligando o nada ao nada, e você não admite que um aeroporto de 100 milhões fique um ano parado dependendo de uma simples assinatura sua, ou de um burocrata inexpressivo e incógnito qualquer.


Não, você não permite...

Com você, cada dia é um dia bem trabalhado, mesmo sendo um mero funcionário público.

Não, você não se permite menos...