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terça-feira, 27 de janeiro de 2015

O filósofo, pela primeira vez

Dizem por aí que o primeiro contato que temos com a Filosofia é através dos gregos, dos velhos filósofos que vieram antes de Sócrates.

Não para mim.

Eu tinha meus sete, oito anos e nunca tinha ouvido falar nem de Filosofia, nem de filósofos. Mas vivíamos nos anos 70, época de ditadura, de Guerra Fria, de pobreza generalizada e de ignorância continental.

Morávamos na pequena Tujuguaba, que sequer tinha banca de jornais. O saber por ali se concentrava na pequena escola estadual, com suas poucas centenas de livros inacessíveis, mas ainda assim, eu era jovem demais para entender o que eram os livros.

Naquela época, pessoas que moravam em pequenas cidades iam estudar em cidades maiores, onde havia faculdades e universidades. Tujuguaba, que é parte do município de Conchal, continua tendo sua pequena escola estadual. Conchal, por sua vez, é maior e tem curso secundário, mas não tinha na época e não tem até hoje nenhuma faculdade.

Os jovens conchalenses iam às cidades da redondeza cursar faculdade: Limeira, Mogi-Mirim, Campinas, Piracicaba, e alguns mais ousados, até São Paulo e além.

Íamos sempre passear de Tujuguaba até Conchal. Íamos visitar parentes, amigos de meus pais, íamos às festas, a bares e restaurantes, às praças e aos clubes. Conchal era para nós, pequenos tujuguabanos, uma metrópole.

E um dia meu pai nos apresentou Gera, um amigo, na bela praça que há em frente à Prefeitura, próximo à linda fonte de águas magicamente coloridas de luzes. O nome, Gera, era apenas o apelido decorrente da abreviatura de seu nome, Geraldo.

Gera era estudante de Filosofia em algum lugar que não faço ideia. Gera estava provavelmente de férias, porque nem ficava mais em Conchal, estudante que era, e que se virava sozinho no mundo, nos campus, nas grandes cidades.

Gera era magro, alto, tinha os olhos meio elétricos e tinha o cabelo longo. E mais: tinha um pássaro preto de estimação que vivia em seu ombro. Gera tinha a camiseta branca de malha toda suja de titica de passarinho.

Gera era quase filósofo.

Se era louco, não sei, mas pareceu-me o tipo mais estranho, ousado e sofisticado que eu tinha visto até então. Era um tipo de alienígena que nos impressionava. Ao menos a mim ele impressionou fortemente, a mim, um garoto de sete ou oito anos, que nunca tinha visto um estudante de faculdade, e ainda mais de Filosofia.

Meus pais conversaram alguns minutos com Gera e a vida seguiu em frente.

Os anos se passaram.

Gera mora logo ali, perto da casa de meu irmão, mas ao mesmo tempo perto de tudo, porque agora Conchal é apenas Conchal, um lugarzinho pequenino onde não há realmente distâncias. Gera é o Gera para todo mundo, e como todo mundo conhece todo mundo, Gera é meio lenda, meio normal, como todo cidadão das pequenas cidades.

Pai de família, tem belas filhas e uma esposa. Não dá aulas de Filosofia e pelo que pouco sei dele, é muito boa praça e grande amigo de meus irmãos. Certamente seríamos muito bons amigos se eu morasse em Conchal.

Influenciamos e somos influenciados sem que saibamos como, quando e porquê. Mas certamente quase nunca saberemos quem influenciamos, porque nossas marcas ficam nas mentes das pessoas de uma maneira que jamais poderemos vislumbrar, a menos que elas nos digam que estamos lá, nas suas memórias e nos seus modos de vida.

Ousadia juvenil, espírito de uma época, contemporaneidade com o espírito do tempo, abertura de espírito, curiosidade à flor da pele, riscos calculados diante das ameaças, perigos e vícios da vida, poder sobre outros seres, poder e simbiose com outras espécies de seres, visual despojado, roupas avançadamente simples, e a Filosofia pela frente, um cosmo infinito a ser desvendado. Que mistérios estudaria Gera, nos infinitos livros de Filosofia das longínquas faculdades? 

A imagem de um cidadão que em seu tempo foi e acho que ainda é tudo que se pode ser no seu meio. Essa foi a imagem do jovem Gera que se fixou em minha mente.

Desde então, Filosofia era para mim os mistérios de Gera, e Gera, a encarnação terrena desses mistérios filosóficos.

O Gera homem, de carne e ossos, passará. O Gera de cabelos longos, de pássaro no ombro e ideias incríveis na cabeça, jamais,

Nem em Conchal, nem em qualquer outro local do mundo ou além.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Aquecendo o motor da vida

Eu disse aqui que estava em um determinado momento de minha vida no qual eu sentia estar aquecendo o motor, arrumando minhas coisas, colocando a vida em ordem, enfim, me preparando para algo que eu parecia ansioso por ver acontecer.

O termo que usei, aquecendo o motor, faz referência ao mundo dos carros, ou dos aviões, e significa exatamente isto: preparação antes de uma ação maior e mais duradoura. Aquece-se o motor de um carro para que ele possa funcionar por um longo período de tempo e leve o carro aonde seu condutor assim o deseje.

Neste sentido, quando eu disse que aquecia o motor, eu quis dizer que eu estava colocando minha vida em ordem para entrar em uma rotina produtiva, na qual eu poderia fazer o que eu sempre desejei fazer.

Colocando a vida em ordem por quê? Ela estava em desordem?

Sim, nossa vida vez por outra, a minha vida, pelo menos, vez por outra passa por mudanças que fazem com que eu tenha que sair de minha rotina de planos e sonhos. Depois de um solavanco, é preciso tempo, paciência e algum trabalho para voltar a um estado de coisas rotineiro e propenso à produtividade duradoura.

Todo mundo tem sonhos, anseios, projetos para a vida à frente, para os anos que virão, e eu provavelmente tinha os meus sonhos quando fiz a afirmação do motor aquecendo, em 2004.

O que eu queria de fato fazer?

Não sei. Nunca soube direito que rumo dar à vida.

Quando menino, nunca tive grandes sonhos, até me apaixonar por aviões e desejar ser piloto, ou mesmo astronauta. Todo garoto já pensou nisso, mas nem todos levaram seus sonhos infantis adiante. Eu pelo menos tentei, e fui razoavelmente bem-sucedido. Mas não de todo.

Depois que vi que não poderia ser astronauta, nem piloto, descobri que não queria mais ser pobre.

Mas nunca havia feito uma afirmação contundente no sentido afirmativo. Não querer ser pobre é uma afirmação negativa, no sentido de que não implica em que eu queira ser necessariamente rico. Nunca disse que queria ser rico.

Mas, em determinado momento, aprendi que isso de desejos negativos não funciona muito bem na condução de nossa vida. Era preciso desejos afirmativos, do tipo: quero ser isso, desejo aquilo, quero ganhar X.

Não sei onde errei, mas parece que não consegui ainda descobrir, ou decidir o que fazer. Claro, faço muitas coisas na vida, mas nada que me arrebate, como o sonho de ser astronauta ou piloto.

Será que a força de nossa vontade é maior quando somos adolescentes? Se for, isso é fruto de nossa juventude ou de nossa imaturidade? Acho que é um pouco de ambos.

Quando amadurecidos, já adultos, não temos mais aquela garra que tínhamos nos nossos 18 anos. Eu me canso fácil, tenho sono fácil, quero dormir na hora certa e não tenho mais disposição de ânimo para arriscar grandes aventuras. Mas, mais que isso, ainda tenho forças. Trabalho muito, penso muito, estudo muito, me preocupo muito e consigo manter as bolas no ar muito bem, no malabarismo que precisamos fazer no dia-a-dia, com os nossos deveres e problemas. Acontece que também nos tornamos mais sábios. Nem tudo convém. Nem tudo é possível de ser feito. Nem tudo dá o resultado que imaginaríamos que daria se fôssemos jovens. Somos mais cautelosos, mais sensatos, menos ambiciosos, e isso é bom. 

Quando eu disse que aquecia o motor, eu certamente fazia menção a algo que sei que devo fazer, mas ao mesmo tempo sei que não é uma coisa fácil de ser feita.

Sou administrador de empresas, mas nunca exerci a profissão tal como ela deve ser exercida, como um profissional que atua gerindo um empreendimento no nosso mundo capitalista privado. Minha experiência nesse campo da vida é limitada, e sei que as coisas nele não são fáceis. Então, aqueci o motor, mas não fui em frente.

Por que fazemos isso, de dar asas a nossas ilusões para depois nos recostar em nossas poltronas quentes e reclamar a respeito de nossos sonhos não realizados, nossas vidas não vividas, nossas grandes oportunidades perdidas?

Eu preciso de uma resposta razoável para essa questão e mais, eu preciso decidir se aqueço o motor novamente, desta vez para uma jornada real, e não meramente imaginária.

Eu preciso de respostas.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

O bem comum

Eu disse nesta postagem que andei pensando sobre socialização e como um blog pode atender aos meus próprios interesses pessoais, mas também aos interesses de meus eventuais leitores. Quer dizer, eu tiro algum proveito quando escrevo meus textos neste blog, e o benefício que obtenho relaciona-se com o prazer que sinto em escrever sobre assuntos que me agradam, a clareza que obtenho a respeito de determinados assuntos que acho relevantes, porque quem escreve sabe que é mais fácil ordenar as ideias por meio da escrita que por meio da fala ou de outro meio, como o simples pensar silencioso sobre elas.

Agora, que ganha com isso, com a leitura de meus textos, um eventual leitor?

Depende de quem lê.

Os seres humanos são únicos. Todos sabemos o quanto somos diferentes dos nossos semelhantes. Na verdade, nem sei porque somos chamados de semelhantes, se somos assim tão diferentes.

Somos um tipo de animal (e somos mesmo animais, quer gostemos disso ou não) que tenta entender a si mesmo, mas esse entendimento é muito difícil.

O que temos em comum com nossos semelhantes?

Somos, é claro, muito diferentes, mas temos também muitas semelhanças.

Não acho que ressaltar diferenças seja mais ou menos importante que ressaltar semelhanças. Mas parece-me que ressaltar semelhanças pode, à primeira vista, ter melhores resultados que ressaltar diferenças. Digo à primeira vista porque certamente há situações em que afirmar um diferença pode ser melhor que realçar uma semelhança. Creio que o contexto onde se dá uma comparação é que dirá se é melhor enfatizar semelhanças ou diferenças.

Qual a razão dessa pequena digressão a um assunto que aparentemente nada tem a ver com textos e blogs?

É que meus textos são públicos. E é preciso ter em mente que somos seres sociais. Estamos sempre influenciando e sendo influenciados pelos nossos semelhantes.

Alguém recomendará que eu não me preocupe com essa questão da influência entre seres humanos por três motivos:

1 - Ninguém está se importando muito com o que eu escrevo. Não devo me levar tão a sério assim. Não devo me dar tanta importância assim, porque as pessoas não são folhas ao vento, que mudam de opinião como mudam de roupa de acordo com o que leem em meu blog.

2 - Meus textos não são realmente convincentes. Eu não consigo mudar ninguém, ainda que me esforçasse para isso. Então, seria preciso aprimorar meus dons argumentativos, e deixar de subestimar as razões alheias.

3 - As pessoas não mudam da maneira que acho que mudam. Elas mudam, sim, mas não em razão de textos meus ou de quem quer que seja. Elas mudam muito lentamente por razões que a razão desconhece. Há mais emoção e irracionalidade nas decisões das pessoas do que supomos e mesmo se eu tentasse mudar as pessoas, não seria nem o primeiro, nem o mais esforçado e nem o último a tentar e fracassar, porque há muita gente tentando séria e esforçadamente fazer a cabeça das pessoas, mas não conseguem. Logo, não devo me preocupar com o que escrevo, porque meus textos não conseguirão (nem os textos de ninguém) provocar algum mal ou bem em quem quer que seja.

E eu sou tentado a dar certa razão a alguém que fizesse essas advertências a mim.

No entanto, pensando no assunto, eu devo lembrar a mim mesmo de que não me cabe disseminar o mal, e se for para deixar públicas minhas ideias, que sejam ideias que promovam o bem comum, que tenham um senso de utilidade, porque não vejo razão para agir diferentemente.

Quão a razão para promover o mal?

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Escravidão química

Você fuma?

Você bebe?

Você usa cocaína? Maconha? Crack?

Você se considera livre das centenas de possíveis vícios por produtos químicos e livre de vícios psicológicos induzidos por produtos químicos?

Açúcar, gordura, sal, álcool: você está livre deles?

Escravidão química: pense nesse conceito, e em como ele é ao mesmo tempo tão presente e, no entanto, tão dissimulado, incompreendido, silencioso.

Pense na felicidade de ver-se livre definitivamente deles, para sempre!

Difícil?

Você não nasceu fumando. Seu pulmão nasceu livre.

Você nasceu puro.

Quem o corrompeu?

Quem o intoxicou?

Por que você aceita esse grilhão tão mansamente?

Você aceitaria que alguém o obrigasse a fumar um maço de cigarros todos os dias de sua vida?

Com o que se pareceria alguém que lhe exigisse tragar à força um cachimbo de crack? O quão aguerridamente resistiria a um ataque sórdido desses?

Quem nos envenena?

Você aceitaria trabalhar na Souza Cruz, Phillip Morris ou na, digamos, Ambev?

Você disse alguma coisa parecida com "drogas socialmente aceitáveis"?

Existe escravidão aceitável, do tipo psicológica ou química?

Existe meia droga?

Existe quase vício?

Existem "prejuízos físicos menores"?

Por que uma Souza Cruz ainda existe legalmente?

A liberdade legal pode permitir a liberdade de oferecer drogas a quem quer que seja?

As pessoas têm o direito de se autodestruírem?

Podemos proteger as pessoas delas mesmas?

Se não houvesse cordas, as pessoas se enforcariam?

Essas questões me intrigam.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Os lugares onde moramos

Tenho uma memória relativamente boa para algumas coisas, mas falha para outras.

Por exemplo: tenho mais facilidade para memorizar números do que nomes de pessoas. Se precisar, memorizo uma sequência numérica relativamente longa, com até uns doze dígitos, mas uma pessoa precisa falar seu nome para mim pelo menos umas três vezes até eu memorizá-lo razoavelmente bem. E, após alguns anos, esqueço o nome até mesmo de pessoas com quem convivi muito proximamente, como colegas de serviço e amigos próximos.

Mas essas são falhas de memória consideradas banais. Nossas memórias possuem muitas outras surpresas escondidas, além desta que citei, a de predileção por isso em vez daquilo.

Um caso interessante de surpresa é a rememoração. Quer dizer, é recordar algo que havíamos a muito esquecido.

O que isso tem a ver com o título do tópico, que fala sobre os lugares que moramos?

Tem a ver, como veremos, e muito.

Nós podemos nos esquecer de detalhes, mas certas memórias são tão amplas e consolidadas que dificilmente nos esquecemos delas. Um exemplo de acontecimento, ou período de tempo, ou lugar, do qual quase nunca nos esquecemos é dos lugares onde já moramos um dia.

Há pessoas que nunca se mudam de casa. Outras mudam de casa, mas não de cidade. Outras mudam de cidades, mas não de estado. Outras mudam de estado para estado, mas nunca deixam o país. E outras ainda que chegam a morar em dois, três ou mais países. Por fim, há os que são quase nômades e nunca fixam-se muito em um único lugar por muito tempo.

As razões que levam as pessoas a mudarem são variadas e não falaremos delas aqui e agora, embora sejam assunto muito interessante, como veremos.

O que importa é que nós nos lembramos muito bem dos lugares onde moramos.

Obviamente, nos lembramos porque estivemos nesses lugares tempo suficiente para que nossas memórias se consolidassem. Não esquecemos porque o lugar onde moramos está armazenado em nossas mentes por meio de milhares de outras pequenas memórias, em um complexo que não se apaga tão facilmente quanto, por exemplo, um número telefônico, que guardamos por alguns minutos e depois esquecemos completamente.

Mas, eis a curiosidade: apesar de ser uma memória complexa, a lembrança que temos dos lugares que moramos é ainda assim sujeita a uma lenta e seletiva degradação ao longo do tempo. E, com o passar dos anos, vamos esquecendo coisas menos importantes sobre o lugar onde moramos, embora não nos damos conta dessa erosão silenciosa e contínua.

Mas então, um dia, sem querer, topamos com um pedaço de papel qualquer no meio de nossas coisas e lá está nosso endereço completo, de um lugar onde moramos a quinze, vinte anos atrás.

Claro, nós nos lembramos perfeitamente dessa época. Afinal, o que são quinze anos em uma vida? Parece que foi ontem que mudamos de lá.

Mas, eu não me recordava mais do nome da rua. Sei como chegar ao endereço em que morava, mas não me recordava mais nem do nome da rua, nem do número, nem do nome do prédio, nem do andar, nem do número do apartamento onde morei. Mas há mais coisas anotadas no velho pedaço de papel: há um CEP, um número de telefone, o número de telefone do local de trabalho, que deixei também a longos anos atrás, e há o nome do porteiro, do proprietário do imóvel que alugamos, e todo um emaranhado de coisas que surgem de repente com aquele pedaço de papel, e que sem ele, jamais nos lembraríamos por nós mesmos.

Mas, eis que fica a dúvida: o que foi feito dessas lembranças?

Elas sumiram ou apenas estavam perdidas em algum lugar de nossas mentes?

Elas parecem sumidas, porque jamais nos lembraríamos delas por esforço próprio. Se alguém chegasse e pedisse que eu me lembrasse do número de telefone que tive a quinze anos atrás, eu não seria capaz de fazê-lo.

Mas, quando leio em um pedaço de papel o mesmo número, junto com o endereço e as demais informações que formam em seu conjunto todo um contexto que de fato existiu, estranhamente eu percebo que aquele número não é de forma alguma estranho. Eu o recito como um trecho de uma frase, como um trecho de uma música, e ele me parece bem familiar. A sequência de números não me parece de forma alguma uma sequência aleatória e desconhecida. Ela é familiar. Daí que parece que ela, a memória do número, não estava definitivamente perdida em minha mente, mas apenas desconectada do contexto maior, e assim estaria para todo o sempre, caso não tivesse a ajuda do pequeno pedaço de papel para fazer o trabalho de resgate desse fragmento desgarrado.

Que poder têm esses pedaços de papel de juntar como imãs as centenas, milhares de partes que formam a memória de nossos passados? Como se dá esse estranho fenômeno?

Não sei, mas aposto que isso também intriga os neurologistas, e certamente há mais gente interessada nisto do que apenas eu e minha curiosidade inesgotável.

Por onde andei?

Em que lugares morei?

Eu sei.

Morei apenas em um país: no Brasil.

Morei em três Estados: São Paulo, Goiás e no Distrito Federal.

Morei em oito cidades: Conchal, Araras, Guaratinguetá, Anápolis, Goiânia, Ribeirão Preto, Brasília e São Paulo.

Morei em vinte casas diferentes.

Vinte moradias em quarenta e quatro anos.

São vinte endereços diferentes para serem lembrados. Isso dá em média dois anos em cada lugar.

De repente, fica óbvio que não é fácil se lembrar de lugares onde vivemos por tão pouco tempo.

De repente, fica óbvio que é pedir demais de nossas memórias que permaneçam, apesar da pouca importância de certas informações.

De repente, fica óbvio que a surpresa do fenômeno da rememoração é uma coisa interessante, mas que ainda mais interessante é tentar saber porque mudamos tanto ao longo da vida.

Quer dizer: por que eu mudei tanto de lugar a longo da vida.

Cada casa tem um endereço. Mas cada casa tem um porquê de nela termos ido morar, e um porquê de termos de deixá-la.

A história de nossas mudanças envolve e engloba a história de nossos CEPs e telefones esquecidos.

Esquecer o passado é, mais que um fenômeno neurológico, um fenômeno sociológico: mudamos por questões que vão além de nossas forças, e nossos cérebros precisam ocupar-se com o viver do dia-a-dia, e simplesmente não podem dar-se ao luxo de guardarem coisas que não são mais importantes.

Fascina-me as causas de nosso esquecimento, mas fascina-me também o zigue-zague que empreendemos nos mapas, um zigue-zague errático e aparentemente sem sentido.

Atrás do que estamos quando partimos de um ponto a outro e comandamos a nossos próprios cérebros que deletem aquilo que não se faz mais necessário?

Não sei. Cada qual com sua própria história de vida, e com seus próprios motivos.

Quanto a mim, gosto de recordar velhos endereços. Eles fazem parte de minha história pessoal, e como disse por aqui neste blog várias vezes, o universo não é feito de átomos, mas de histórias.

Vinte lares ao longo de um vida.

Quantos mais experimentarei viver?

O que nos dará de diferente a vida que ainda deveremos viver?

Não sei.

Mas, certamente vinte lares significam vinte boas histórias.

O que sei ainda sobre meu passado e meus muitos lares?

O que sabe você sobre os seus?

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

O que é exatamente o sucesso? - parte 2

Se você está lendo este texto, pode já ter conhecimento de quais sejam os cinco ingredientes do sucesso, segundo Og Mandino. Se você já leu a primeira parte deste texto, ótimo. Se você não leu e não sabe, eis os mesmos aqui:

1 - Propósito.
2 - Média de aproveitamento.
3 - Esforço.
4 - Satisfação.
5 - Espiritualidade.

Na verdade, quem primeiro elencou esses cinco ingredientes não foi o escritor Og Mandino, mas o também escritor Howard Whitman, em seu livro "O sucesso está em você".

Whitman pensou bastante sobre o assunto do que seja o sucesso, e ele chegou à conclusão que há basicamente dois tipos de sucesso. Primeiro, há o sucesso socialmente reconhecido, aquele no qual as pessoas reconhecem fama, fortuna, celebridade, poder e glamour, popularidade ou qualquer outro atributo que elas julgam merecedor de elogios, e que as pessoas que o tem destaquem-se dentre seus vizinhos em razão dele.

Segundo, há o sucesso pessoal, particular, íntimo, aquele no qual as pessoas nem sempre reconhecem algum mérito, e que aos olhos da sociedade, pode muito bem passar desapercebido, mas ainda assim, ser um tipo legítimo de sucesso.

Whitman afirma que o sucesso íntimo é tão legítimo quanto o sucesso social. Ele vai mais longe e afirma que os dois tipos de sucesso são autenticamente sucesso, mas que o sucesso íntimo é mais importante que o sucesso social. Ambos podem coexistir, mas podem aparecer na vida das pessoas isoladamente. Por fim, se é que seja possível apenas que apareçam isoladamente, é preferível que se tenha apenas o sucesso pessoal, porque o sucesso social isolado implica em fracasso íntimo, ou frustração, ou indiferença íntima, e isso não é nada bom.

Se parece difícil entender esses conceitos, Whitman nos faz uma comparação, e nos remete a uma garrafa de refrigerante e seu canudinho. Ele equipara o líquido refrigerante ao sucesso íntimo, e o canudinho ao sucesso social. Ambos formam um par que combina bem, mas se fosse para escolher entre o refrigerante e o canudinho, com qual dos dois você ficaria?

Obviamente, essa é uma opinião pessoal de um autor apenas, mas deve ser seriamente levada em consideração. 

Mas qual a diferença entre sucesso íntimo e sucesso social?

É que o sucesso social é apenas uma opinião de pessoas que normalmente não se importam se o dono do sucesso está intimamente bem ou feliz com aquilo que lhe dá o sucesso. Já o sucesso íntimo é a percepção que uma pessoa tem de si mesma. Uma pessoa considera-se um sucesso para si mesma em virtude de ter um atributo que considera uma fonte de felicidade, realização, orgulho, ainda que ninguém mais se dê conta disto.

De que adianta o mundo todo o considerar uma pessoa de sucesso se em seu íntimo você não se considera tanto assim?

Por outro lado, que importa se o mundo não reconhece seus méritos, desde que você, sinceramente, em seu íntimo, saiba que é um sucesso a seus próprios olhos e dentro de seus próprios critérios?

Seria bom que o mundo reconhecesse também esses seus méritos, mas se não o faz, que mal há nisso?

Com base nesses dois tipos de sucesso, parece que é mais útil ter sucesso íntimo que sucesso social, correto?

Na verdade, o sucesso íntimo, porque definido por apenas nós mesmos, é muito mais fácil de ser alcançado. Convenhamos: é muito mais fácil agradar a nós mesmos que agradar a dezenas, centenas, milhares ou milhões de pessoas ao mesmo tempo.

Mas, se o sucesso íntimo é tão mais útil e tão mais fácil de ser alcançado que o sucesso social, por que as pessoas hoje em dia se apegam tanto à busca do sucesso social e esquecem ou sequer sabem que o sucesso íntimo existe e é muito mais importante?

É o que veremos na continuação desta lição.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Primórdios musicais

Eu sempre falo alguma coisa sobre música neste blog. Nas primeiras postagens, em 2004, eu andava ouvindo Frank Zappa.

Mas já que eu gosto de música, mas gosto também de pensar as coisas em termos de ideias a serem discutidas, ainda que apenas por mim mesmo, vou falar sobre algo que tenho planejado relatar já a alguns meses, mas não o fiz por falta de tempo: vou falar sobre os primórdios de minhas experiências musicais.

Eu, em 2004, ouvia Zappa. Antes disso, eu ouvia rock, e houve um tempo em que eu não ouvia nada, antes de 1970, porque eu não existia ainda. Essa constatação pode parecer boba, irrelevante, mas não é. Eu disse nas últimas postagens que gosto de literatura, mas gosto também de música. Ora, é verdade que gosto de ambas as formas de arte, mas confesso que minhas experiências de apreciação de música são muito mais antigas que as minhas experiências literárias.

Estou falando de um tipo de experiência, a experiência da apreciação musical, que pode dar-se, segundo a ciência, ainda durante nossa estada no útero de nossas mães.

Então, quando digo que minhas experiências musicais devem ser consideradas desde 1970, já que nasci neste ano, falo de uma maneira séria, porque, de certa forma, eu poderia ainda no útero de minha mãe já estar experimentando ouvir certo tipo de música ou som.

Mas, não.

Em 1970, evidentemente já havia muita música de todo tipo. Mas, em 1970 não era um fato comum as mães colocarem música para seus bebês ouvirem ainda no útero.

Não sei dizer desde quando os cientistas sabem que os fetos podem ouvir música ainda no útero. Creio que o sistema auditivo deve formar-se e amadurecer nos estágios finais do processo de formação de um feto, por isso, não faz muito sentido falar em fetos de poucas semanas ouvindo música, mas, de qualquer forma, eles, os fetos, podem ouvir música, digamos, no oitavo ou nono mês de gestação. Eles podem gostar de certos tipos de música? Talvez. É possível que as mães que façam experiências com seus bebês ainda no útero possam tentar e vir a saber se os bebês reagem e como reagem a músicas de tipos variados. Talvez os bebês fiquem mais calmos ou agitados dependendo do tipo de música. Não sei.

Uma coisa é certa: minha mãe não colocou música para eu ouvir enquanto eu ainda estava no útero. Ela provavelmente nem cantou para mim no útero. Sei disso porque se ela tivesse feito qualquer uma dessas duas coisas, ela me falaria. Nunca perguntei, na verdade, mas em 1970, meus pais não tinham nenhum tipo de aparelho de som em casa, nem televisão, nem nada que pudesse reproduzir algum som gravado em algum tipo de equipamento tecnológico. Em 1970, pouco gente tinha toca-discos, toca fitas ou rádio. E minha mãe nunca foi muito de cantar canções de ninar mesmo depois que nascemos, eu e meus dois irmãos. Ela nunca disse que cantava para nós ainda no útero. 

Se tivesse cantado, ou se tivesse tocado músicas para mim ainda no útero, eu me lembraria das músicas?

Não sei. Boa pergunta...

Bebês recordam-se de músicas depois que nascem? Guardam essas memórias por quanto tempo? Se sim, essas recordações desaparecem com o tempo? São perguntas para neurologistas e psicólogos...

Então, nasci perfeito, com o sistema auditivo normal, aprendi a ouvir e aprendi a falar normalmente, e em algum momento tive contato com a música.

Com canções de ninar é certo que tive contato. Poucas canções, duas ou três... Nana, nenê, que a cuca vem pegar...

Nos primeiros três, quatro anos de vida, continuamos sem aparelhos de som em casa. Mas então, um vizinho tinha um rádio.

Morávamos numa casa simples, e entre nossa casa e esse vizinho, havia um lote vazio, a que chamamos "data".

Uma data era um lote. Na verdade, eram dois lotes, mas chamávamos aquele pedaço de terra cheio de mato de data. 

Pois bem, entre nossa casa e a casa do vizinho, Sebastião Müller, havia a data da família dos Mistura.

Sebastião Müller era apenas o Bastião. Bastião Müller.

Bastião era descendente de imigrantes alemães, vindos da cidade de Limeira, no interior de São Paulo. Nós morávamos no vilarejo de Tujuguaba, pertencente ao município de Conchal, na região de Campinas. Em 1970, Tujuguaba era um grupo de casas tal como ainda é hoje, mas bem mais primitiva e pobre.

Bastião trabalhava na roça. 

Acordava cedo, lá pelas cinco da madrugada. Arrumava a comida, tirava água do poço, fazia marmitas, esquentava o fogão a lenha, tossia longa e profundamente devido aos longos anos de cigarro, e ouvia música em um rádio velho e grande, à válvula, que era de onde eu comecei a ouvir minhas primeiras experiências musicais das quais sou capaz de me recordar. Que tipo de rádio era: um Sânio, um Telefunken, um Philco, um Phillips? Não sei, mas apostaria que era um Telefunken.

Entre os anos de 1970 e 1975 houve rigorosos invernos. Naqueles anos, geou nos meses mais frios, e minha mãe nos acordava cedo para ver a fina camada de gelo sobre o mato da data. E do outro lado da data, a família dos Müller se preparava para o trabalho ouvindo rádio.

O que ouvíamos, nós e os Müller?

Música caipira.

Não me recordo de onde eram as estações de transmissão. Provavelmente eram das cidades vizinhas: Araras, Mogi-Mirim, Limeira. O mundo das rádios AM e FM é um mundo à parte.

Mas, pensando bem, naquela época creio que só se pegava no rádio dos Müller as ondas AM. Mas essas ondas são de longa distância. Então, era possível que eu ouvisse estações de longe, muito longe. Quem sabe de São Paulo, Rio de Janeiro ou ainda mais além. Não sei.

Eu me recordo de ouvir muito as músicas de Tonico e Tinoco. Eles dominavam as madrugadas com suas vozes agudas e suas letras caboclas. De quais músicas me recordo? Não sei... moreninha linda, do meu bem-querer, é triste a saudade longe de você...

Mas não só esta, é certo.

Na primeira metade dos anos 70 ainda havia muita gente que ouvia com saudade as duplas que se consagraram na década de 60 e mesmo na de 50. Não havia ainda duplas modernas como veríamos alguns anos depois. E, além do mais, havia outros tipos de música nas estações, mas os Müller só ouviam música caipira, porque ou só gostavam deste estilo, ou o aparelho só pegava aquela estação. Não importa. Seja por gosto, seja por falta de opções, eles, os Müller, ouviam sempre as mesmas coisas, e eu me recordo dessas madrugadas frias, o tossir longo e rouco do Bastião, o ranger das cordas no rolo da manivela do poço d'água, o estalar das panelas, e Tonico e Tinoco.

Eu nasci caipira, concluo.

A variedade do pensamento humano

Escrevi o último texto tratando de literatura, e fiz promessas dizendo que escreveria mais sobre o assunto. Não é agora, neste texto que estou escrevendo e você está lendo, que cumprirei essas promessas, porque meu pensamento está focado em outros assuntos que não mais a literatura.

É que meu cérebro é um órgão cujo foco de atenção é volátil.

Não sei dizer se todo mundo tem a mente volátil como eu tenho a minha, mas posso afirmar que eu tenho a mente volátil e portanto, não me fixo muito em um único assunto, nem neste blog e nem na vida real, nos sucessivos minutos em que estou lúcido e acordado, de forma que faço promessas exatamente porque não consigo me fixar em um assunto o tempo suficiente para tecer todas as considerações que consideraria adequadas. Quer dizer, pago o que devo em parcelas. Nos intervalos, salto para outro assunto, tal como um grilo, e agora, por exemplo, falo exatamente sobre esta característica bastante minha, a de ter uma ampla variedade de interesses em meus pensamentos corriqueiros, de maneira tal que não me fixo em quase nada, a não ser com muito esforço.

A variedade do pensamento humano é uma realidade, mas ela é um fato que é em grande parte decorrente da era da informação na qual vivemos. Confesso que me sinto consternado diante de tantas demandas apelativas clamando a minha atenção tão cara e escassa.

A variedade do pensamento humano, no entanto, não deve ser infinita, já que nem sempre gostamos de tudo.

Assim, embora eu goste muito de literatura, prefiro falar sobre outros assuntos.

De música por exemplo.

Dúvida?

Continue lendo...

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

O que é uma ideia?

O que é uma ideia?

Quando incubamos uma ideia, com o que estamos lidando, afinal?

Platão pensava o mundo das ideias como o mundo verdadeiro, e via o mundo material, este em que eu, você, todos nós vivemos, como uma mera cópia mal feita do mundo das ideias. Não deixa de ser uma teoria interessante, mas os séculos de experimentação e ciência, filosofia e debates parece ter refutado Platão.

Certo, tem gente que ainda acha que o mundo das ideias é o verdadeiro, mas não entrarei neste debate, porque o tempo é curto, meu conhecimento sobre as minúcias do tema é limitado e não é sobre esse conceito de ideia que quero falar.

Quero falar do conceito de ideia como proposta.

Ideias podem ser, platonicamente falando, estados de perfeição. Uma ideia seria um objeto perfeito. Por exemplo, Platão entendia que no mundo material em que vivemos, existe objetos vermelhos, mas não a cor vermelha. O vermelho como cor perfeita existiria apenas no mundo perfeito das ideias. Objetos de cor vermelha seriam apenas arremedos de objetos vermelhos ideais.

Assim, ideias, para Platão, são conceitos abstratos.

Certo, um blog que encuba ideias, debate, divulga ou aperfeiçoa ideias pode tomar ideias platônicas como tema, mas não é neste sentido que penso sobre ideias. Quando falamos aqui sobre ideias, falamos mais em possibilidades, projetos e coisas a serem feitas.

Por exemplo: não cabe discutir a cor vermelha com uma abstração da perfeição. Cabe discutir como tornar os objetos vermelhos, ou dizer que objetos vermelhos são melhores ou piores que outros objetos, ou ainda, aperfeiçoar a vermelhidão dos objetos, de modo a torná-los o mais vermelhos possível.

Divulgar a ideia de como evitar que um problema surja, ou de como solucioná-lo, é uma boa razão para a existência de um blog como uma incubadora de ideias.

Assim, o correto seria dizer que este blog pode ser uma incubadora de projetos, ou pré-projetos. Mas, projetos e pré-projetos parece envolver já algum grau de amadurecimento de pensamento, parece já envolver uma tomada de decisão de dar um passo no sentido de se concretizar algo que já foi devidamente pensado, embora possa ainda, por uma série de motivos, vir a não ser feito, não ser concretizado.

Ora, algo que ainda não é um projeto é o quê? Em que estágio está, por exemplo, uma casa cujas fundações não foram sequer esboçadas em um pedaço simples de papel? Se não há nada que a materialize em forma física, não há casa. Se temos apenas desenhos, não temos uma casa, mas um projeto de casa. Mas, se nem desenhos temos, mas apenas pensamos na casa em nossas mentes, então temos a ideia de uma casa. Ora podemos então usar palavras faladas e escritas para descrever, aperfeiçoar, debater sobre a casa, mas ainda assim não ter nenhum desenho, nenhum tijolo assentado. E ainda assim a casa pode estar muito bem elaborada do ponto de vista de planejamento, porque de fato seus possíveis problemas foram exaustivamente pensados, suas soluções discutidas, suas formas imaginadas.

Assim, o mundo das ideias tem sua utilidade, e usar um blog para discutir ideias parece ser bastante interessante.

Evidentemente, há infinitas ideias. Ideias precisam ser classificadas em compartimentos mentais para poderem ser incubadas. Assim, falaremos sobre ideias matemáticas, ideias científicas, ideias filosóficas, ideias econômicas, ideias tecnológicas, ideias sociais, ideias de solução de problemas diversos.

Além do mais, e exatamente porque as ideias são em número infinito, não trataremos de muitas. Pode-se tratar apenas de uma pequena fração delas. Podemos passar décadas pensando um tema qualquer sem nunca esgotá-lo, afinal.

E, por fim, há a necessidade e o gosto pessoal.

Parece-me que há ideias mais importantes que outras devido à necessidade que satisfazem. Por exemplo: é mais razoável perder tempo pensando uma ideia que busque a cura do câncer do que gastar tempo pensando em uma maneira nova de se curar um arranhão. As necessidades do mundo definem as prioridades dos problemas a serem tratados pela elaboração de ideias.

E, ainda que haja necessidades infinitas, não se pode satisfazê-las todas. E se temos que pensar, que seja sobre algo que, além de prioritário, seja de nosso gosto pensar.

Por que devemos pensar sobre o que gostamos? Porque simplesmente não conseguimos pensar direito sobre o que não gostamos. E se for para pensar por obrigação, então um blog não é mais uma fonte de entretenimento e prazer intelectual, mas um martírio e uma tarefa maçante e chata. E não produziremos nada de importante e útil pensando por obrigação. Vocação, gosto, desejo por algo é coisa que não temos assim tanto controle, e se é para pensar, que se pense sobre o que dá prazer, não importa o porquê dessa atração prazerosa.

Dadas essas breves explicações, esboçaremos algumas linhas de atuação para este blog, que entendo necessárias para um melhor entendimento de seu real potencial.

Continuem lendo.

Continuem...

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Desconfiança II

Em geral, a humanidade se divide entre aqueles que são crédulos e entre aqueles que são desconfiados. Não sei dizer porque algumas pessoas são mais ariscas, mais temerosas que outras, mas essa divisão é um fato da realidade.

Sempre que ocorre um evento qualquer que possua algum significado que não é obviamente negativo ou positivo, surgem discussões entre as pessoas. Isso aconteceu por quê, por culpa ou causa de quê ou quem?

Os "ingênuos" ou "crédulos" dirão que foi por causas não intencionais, e não gerará resultados negativos. Já os desconfiados dirão que houve alguma má intenção por parte de alguém desconhecido, mas poderoso, e que a coisa redundará em algum malefício ainda desconhecido no presente, mas certamente arquitetado com bastante cuidado e antecedência.

Isso não é o mesmo que dizer que os homens se dividem entre os otimistas e pessimistas, embora haja uma forte tendência de que ingênuos e crédulos sejam otimistas e que desconfiados e ariscos sejam pessimistas, mas essa tendência não estabelece uma relação que seja facilmente explicada. Quer dizer: nem todo otimista é ingênuo e nem todo pessimista é desconfiado.

Ser desconfiado, assim como ser pessimista, torna a vida de quem assim o é um pouco mais negra, mas, por outro lado, vive-se mais seguramente, corre-se menos riscos, evita-se mais os problemas que podem ser evitados.

Nasce-se desconfiado?

Creio que não. Pelo contrário. Nasce-se ingênuo, e aprende-se a ver ameaças onde elas não são facilmente vistas. Porque, de fato, há ameaças e riscos ocultos, não óbvios, traiçoeiros, e nem por isso, fruto de mentes malignas ou grupos maquiavélicos. Costuma-se chamar de teoria da conspiração a qualquer tentativa de explicação para um dado fenômeno, social ou não, que gere algum resultado ruim presente ou futuro. Teorizar que alguém conspira, ou que há uma conspiração por trás de um evento ruim é da natureza humana, mas é mais especificamente daquela parte da natureza humana formada por desconfiados e ariscos. Dificilmente um ingênuo ou inocente julgará que um evento ruim foi fruto de intenções humanas arquitetadas com alguma antecedência e cuidado. Atribuir culpa a eventos ruins a teorias de conspiração é coisa de desconfiados.

Bem, eu disse que acho que nasce-se ingênuo, mas aprende-se a ser desconfiado. Então, por que não somos todos desconfiados? E mais, por que, dado que fomos ensinados a ser desconfiados, não acabamos a vida desconfiando de tudo e todos? Mas, quem disse que não é assim que a vida termina, para os que aprenderam a desconfiar?

Há um dito de que "só os paranoicos sobrevivem".

Vamos conhecer esse dito com mais calma. Dizem que é um lema da Apple. Se é, não sei, mas nem por isso a frase deixa de ser interessante. Acredito que não foi alguém da Apple que cunhou a frase original, mas se ela foi adotada de fato pela Apple, isso denota o grau de maturidade com que as pessoas de lá encaram os eventos ruins que lhes ocorrem.

De fato, se nascemos ingênuos, e a ingenuidade é uma fraqueza em um mundo perigoso, somos tentados, sem base em estatística alguma, é verdade, mas escorados em senso comum e tempo de vida, a dizer que há uma chance maior de sobrevida dos paranoicos e desconfiados do que dos ingênuos e dos inocentes.

Coisas ruins nem sempre são causadas por teorias de conspiração. Mas ainda assim, elas existem. Mas, ainda que se ache que teorizar sobre conspirações seja superestimar a inteligência humana num mundo repleto de seres estúpidos e ignorantes, resta dizer que a desconfiança não se presta apenas a nos prevenir contra teorias de conspiração, mas contra eventos ruins em geral, sejam eles de origem humana ou não.

Vejamos: um raio é uma coisa ruim que independe de um ser humano. Um ingênuo diria, no entanto, que raios quase nunca caem duas vezes no mesmo lugar. Um otimista, que os raios caem sim, duas vezes no mesmo lugar, mas não cairá agora, justo quanto ele está no lugar do primeiro raio. O pessimista dirá que o raio certamente cairá novamente no mesmo lugar. E por fim, o paranoico dirá que, na dúvida, é melhor procurar outro lugar, mais seguro, para se abrigar. Logo, em média, paranoicos tendem a sobreviver. Os que não sobrevivem, é porque são antes azarados que pessimistas ou desconfiados, ou ainda ingênuos.

Daí que a frase de Ian Fleming, do post anterior, faz sentido. Ela só faz sentido para um desconfiado paranoico. Não para um ingênuo.

Se alguém me perguntasse em qual categoria me encaixo, eu diria que na dos desconfiados, mas que ainda assim, me esforço para não ver em tudo de ruim um plano maligno. Afinal, sei que coisas ruins acontecem mesmo que ninguém se esforce para que elas aconteçam.

Sou desconfiado desde pequeno, desde meus três anos de idade. Fui ensinado a ser assim por minha mãe. Lembro-me perfeitamente do momento em que me foi passada a primeira lição de desconfiança.

Sou muito grato a minha mãe por esses valiosos ensinamentos.

É só com o tempo que passamos a entender porque certas coisas precisaram ser do jeito que foram. O processo de aprendizado é assim. Só depois de muito tempo depois do trabalho de aprender é que entendemos a razão do esforço e o ganho que obtemos com ele.

Se você não é desconfiado, deveria questionar-se sobre o porquê de não ser.

Se for, seria capaz de lembrar-se de sua primeira lição de ceticismo e paranoia?

quarta-feira, 14 de maio de 2014

O Museu do 11 de Setembro de 2001

Eu disse nesta postagem de 8 de junho de 2004 e nesta postagem de 17 de novembro de 2012 que achava surpreendente que ainda não houvesse um parque temático explorando a tragédia de 11 de Setembro de 2001. Um visitante do blog comentou que um parque temático não, mas já um museu seria bastante provável.

Hoje, leio a notícia de que, sim, de fato os americanos irão ter seu museu do 11 de setembro de 2001.

Evidentemente, há razões a favor e contra esse tipo de exposição, e não vou entrar no mérito da questão, mas de qualquer forma, fica aqui o registro de que às vezes podemos ter insights bastante interessantes em nossos sonhos e pensamentos, mas como o mundo é vasto e repleto de gente pensando todo tipo de coisa, não importa o que você sonhe ou pense, provavelmente mais alguém, em algum lugar qualquer do planeta, terá a mesma ideia ou o mesmo sonho que você, e acabará ficando rico ou famoso com essa ideia ou sonho, e você, nós, ficaremos com aquela sensação de que perdemos mais uma rara oportunidade na vida.

Eu sei muito bem que uma simples postagem em um blog não poderia de forma alguma influenciar na criação de um museu sobre a tragédia de 11 de Setembro de 2001 do outro lado do mundo. Alguém na América teve a ideia de maneira independente da minha, e foi mera coincidência eu ter relatado esse meu sonho no blog e depois ver os fatos confirmando o sonho.

Mas, essas  coincidências não deixam de ser curiosas. Um memorial era obviamente previsível. Um museu, nem tanto. Sim, essas coincidências ou previsões acertadas me deixam muito curioso. É o fenômeno da serendipidade, e falarei mais sobre isso no momento adequado.

Por fim, relembro que o capitalismo tem esse interessante poder de fazer as pessoas ficarem pensando, pensando, pensando, procurando soluções para problemas que às vezes sequer sabemos que temos, ou nem temos de fato.

Agora, para concluir: vi algumas fotos do museu e, apesar dos comentários acima, ele não deixa de ser impressionante.

Como foi possível que um evento como o 11 de Setembro pudesse acontecer?

quinta-feira, 8 de maio de 2014

A pirâmide do fracasso

Depois de um longo período de experiências com livros de autoajuda, quando tive a oportunidade e a motivação para colocar em prática de maneira disciplinada e metódica uma ampla variedade de conselhos, dicas, ensinamentos e modos de pensar sugeridos por pelo menos meia dúzia de renomados escritores do tema, acabei sendo envolto por uma nuvem de ceticismo e crítica.

Sempre supus que o problema com os livros de autoajuda se devia ao fato de que as pessoas simplesmente os leem como quem lê um romance, quando, na verdade, eles, os livros de autoajuda, deveriam ser estudados tal como o são os livros técnicos, e ter seus métodos aplicados na vida real, no dia a dia de quem se propõe  a estudá-los e deles pretendem tirarem algum proveito verdadeiro.

Eu lera livros de autoajuda entre 1990 e 1992, e depois os deixara de lado. Ora, eu era apenas mais um dos que simplesmente os lera como meros romances estimulantes, mas não práticos. Então, diante de um momento crítico de problemas pessoais, pareceu-me que a solução da situação crítica dependesse de um esforço pessoal mais sério, e assim, em 2001, resolvi que os livros de autoajuda até então lidos como romances deveriam ser lidos como livros de estudo, como manuais práticos a serem seguidos metódica e disciplinadamente.

Tomei de "A universidade do sucesso", de Og Mandino, e de "Como evitar preocupações e começar a viver", de Dale Carnegie, além de alguns outros livros de autores menos conhecidos, mas igualmente cheios de sugestões práticas e supostamente eficazes, e me dispus ao estudo.

Pois bem, o tempo foi passando, eu me mantive atento à disciplina recomendada por eles, os autores dos livros, mas, apesar da passagem do tempo e de todos os meus esforços disciplinados, nada aconteceu. Nada em minha vida mudou realmente.

Quanto tempo eu perseverei em minha disciplina de aprendiz?

Um ano?

Sim, no mínimo.

Um ano é um bom tempo. Não acho que se deva persistir em algo que não está dando certo por muito mais tempo que isso. Experiências precisam ser avaliadas em seus resultados ao longo do tempo e, neste caso, pareceu-me que um ano de experiência, ou um tempo próximo disto, já deveria ser suficiente.

Algo não estava saindo como os livros diziam que sairia.

Comecei a perceber certas coisas que os livros não ensinavam. Algo estava errado, mas mais especificamente, havia uma frase que eu tomara como verdadeira, e que agora, depois de constantemente pensar e trabalhar sobre ela, parecia-me não ser confirmada pelos fatos. Daí então, fui forçado a me dobrar aos fatos e passei a questioná-la. 

Em um processo de ensino, é de bom tom imaginar que o aluno sabe menos que o professor, e que se algo sai errado, em geral a culpa é do aluno, que não foi atencioso o suficiente, não foi dedicado o suficiente, não possui a inteligência suficiente para compreender as lições ensinadas pelo professor. Evidentemente, o professor pode ter parte na culpa, já que pode não ter sido suficientemente didático. Mas, em se tratando de livros de autoajuda, eu, o aluno, não poderia colocar a culpa no professor, no livro em si, já que poderia retornar às lições a serem aprendidas o número de vezes que fosse necessário para que pudesse assimilar o que estava sendo ensinado. E eu retornei às lições não uma, nem duas vezes, mas várias, tantas quantas julguei necessárias, de modo tal que praticamente decorei certos preceitos tidos como fundamentais para a efetividade de cada lição em si.

Quanto à lição básica, tirada da frase que tomei como verdadeira, ao menos por algum tempo, era a que atribui a nós mesmos a culpa pelas nossas dificuldades em alcançarmos aquilo que desejamos.

Eu teci alguns comentários aqui sobre essa frase. De qualquer forma, reproduzo-a novamente, para que melhor possamos apreciá-la:

“Tome cuidado apenas consigo mesmo e mais ninguém; trazemos nossos piores inimigos dentro de nós.”
Charles Spurgeon

A frase encontra-se no livro de Mandino.

Tomei-a por verdadeira por um longo tempo, mas, na medida em que não obtinha resultados palpáveis com a disciplina na aplicação dos ensinamentos dos livros de autoajuda, comecei a pensar que, bem, sendo eu disciplinado, e estando eu aplicando metodicamente as lições aprendidas, e nada obtendo em troca, abria-se a possibilidade de que o problema poderia estar na lição em si, que poderia, ao menos hipoteticamente, estar errada.

Lendo a frase em um primeiro relance, sentimos que somos chamados a assumir a responsabilidade por nós mesmos, para pararmos de procurar culpados pelos nossos problemas, para deixarmos de nos fazer de vítimas. Essa visão responsável da vida é correta, não há dúvida. Mas, diante de meus péssimos resultados, senti-me frustrado.

Fiquei com uma forte sensação de estar sendo enganado pelos livros de autoajuda, porque, afinal, onde estavam os resultados?

Influenciado por uma outra frase, de um outro livro, um livro de filosofia de Alfred J. Ayer, "As questões centrais da Filosofia", dos quais tratarei adequadamente em um post oportuno em breve, pensei bem sobre o conteúdo da frase, e observei que ela nos alerta para o fato de que podemos ser nossos piores inimigos, mas também observei que ela não limita nossos inimigos a nós mesmos. Quer dizer, podemos ser nossos piores inimigos, mas nem por isso somos nossos únicos inimigos. Se não bastasse termos de nos vigiar e policiar contra nossas falhas, fraquezas e deslizes, temos ainda que saber que temos outros inimigos que não nós mesmos. 

A frase ainda não diz que nossos inimigos são pouco dignos de atenção apenas porque nós somos piores do que eles. Podemos ter inimigos externos a nós que sejam bastante duros e perigosos. Então, a frase em si era uma meia verdade. 

Repetindo: é verdade que trazemos nosso pior inimigo dentro de nós mesmos, mas não é verdade que, em decorrência disso, devemos tomar cuidado apenas conosco mesmos. O fato de eu cuidar de mim mesmo não faz de meus inimigos externos menos ameaçadores do que já são. Logo, se os negligencio, então não os combato, e portanto, não consigo aquilo que desejo, porque eles são um obstáculo oculto que se opõe a meus intentos. 

Pior: ao focar apenas em mim mesmo, meus inimigos externos desaparecem, como se não existissem. E esse é um erro o qual não podemos cometer.

Então, ao cuidar de mim mesmo, e ainda assim enfrentar obstáculos, observei e vi que há, sim, inimigos externos poderosos, e eles não estão nem um pouco dispostos a nos ajudar em nossa luta diária que travamos de encontro aos nossos desejos, anseios e objetivos.

Que inimigos são esses?

Eu pensei bastante, e teorizei que o mundo, tal como está estruturado, é um dos maiores obstáculos que enfrentamos na nossa luta por objetivos.

Mas, como o mundo está estruturado? Que estrutura é esta que nos impede de ir em frente de maneira fácil e rápida rumo aos nossos tão sonhados desejos, como propõem os livros de autoajuda?

A barreira que vislumbrei na estrutura do mundo é que esta é formada de alguns megasistemas sociais que são desenhados sobre a forma de pirâmides hierárquicas. Costumamos chamar essas pirâmides hierárquicas com o nosso aparentemente neutro e científico nome de "organograma".

Basicamente, percebi que quase todos os sistemas sociais humanos são estruturados em forma de organogramas que reproduzem a forma de uma pirâmide hierárquica. Ora, uma pirâmide hierárquica moldando um  sistema social significa que há muitos espaços na base da pirâmide, mas poucas oportunidades no topo, tal como toda pirâmide. Em termos de busca por objetivos, isso significa dizer que muitos tentarão o sucesso, mas poucos conseguirão.

Muitos tentarão, insuflados por suas necessidades e seus desejos de melhoria, e apoiados em livros de autoajuda e suas técnicas motivacionais. Mas poucos conseguirão, filtrados por mecanismos de seleção subjetivos, parciais e tendenciosos, comandados por pessoas cujos objetivos não tem relação alguma com os nossos, e que se regem por sua próprias lógicas particulares.

Eu escrevi assim em minha Agenda 99:

"Tese geral: a frustração e insatisfação geral da sociedade moderna são frutos de sistemas educacionais, empresariais, governamentais, legais e econômicos baseados em premissas falsas."

A pirâmide social que limita o número de pessoas que chegarão ao topo é o que podemos chamar de pirâmide do fracasso, porque muitos fracassarão, enquanto apenas alguns poucos triunfarão, não importa o quão meritosos sejam os que virão a fracassar.

A tese geral acima constata as consequências óbvias de um sistema social assim concebido: bilhões de pessoas lutando, fracassando e se frustrando sistematicamente. E a tese geral constata que os sistemas educacional, empresarial, governamental, legal e econômico, pelo menos, são estruturados em pirâmides hierárquicas que barram quase toda tentativa honesta de melhoria pessoal.

A tese geral, por fim, assume que essas pirâmides sociais são desenhadas de maneira disfuncional não intencionalmente, isto é, elas são concebidas com um objetivo honesto e claro, mas acabam gerando efeitos colaterais indesejáveis, que não são premeditados, nem desejados, e talvez nem mesmo percebidos por aqueles que a desenham e por aqueles que as preenchem e nelas lutam para subir ou nelas permanecer.

Eu, generosamente, não atribui as disfunções dessas pirâmides sociais a um desejo racional de filtrar, obstruir, selecionar e punir quem quer que seja.

Eu tomei meus inimigos externos como seres benevolentes, que apenas fazem o mal por mera incapacidade de perceber que fazem o mal.

Enfim, igualei homens a vírus, a bactérias, a terremotos.

Eu não quis, ao menos por enquanto, imputar o mal do sistema social como decorrente da própria maldade intrínseca do ser humano que o concebe. Poupei-os, os homens.

Afinal, também eu sou um homem, e não me vejo como mau.

A tese geral acima foi apenas um primeiro esboço de um conjunto de outras constatações igualmente significativas e inter-relacionadas, que desenvolverei neste blog, nos próximos posts.

Além do mais, eu observei que livros de autoajuda podem trazer contradições. Além da frase sobre cuidar de nós mesmos como nossos piores inimigos, havia uma outra frase sobre hierarquias, que foi a inspiração para a tese geral da pirâmide do fracasso.

Confrontar frases verdadeiras, mas contraditórias, é uma experiência intelectual fascinante. Eu sabia da existência teórica delas, mas nunca havia me dado ao trabalho de encontrá-las. Eis, no entanto, que a disciplina em aprender sobre autoajuda me levou de encontro ao meu primeiro paradoxo.

Eu falarei mais sobre esse paradoxo. Continue lendo os próximos posts. Eles detalharão o desenvolvimento de todos os meus raciocínios que decorreram deste curioso achado.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Epidemia de diabetes

Li uma notícia dizendo que 10% dos adultos americanos estão com diabetes. E este número aumenta dia a dia, devido à uma causa óbvia: a obesidade, que também é epidêmica entre eles. Aqui, no Brasil, provavelmente seguimos pelo mesmo caminho.

Lá, são 21 milhões de doentes. Um mundo de gente que movimenta um indústria gigantesca.

Sim, eu também estou enfrentando problemas com sobrepeso e açúcar no sangue. Estou em situação pré-diabética, e tenho colesterol alto. Tomo dois comprimidos todos os dias, e tento controlar a fome e o peso.

Temos um milhão de planos de vida, nos preocupamos com nosso dinheiro, etc., mas sem saúde não há futuro. Assim, essa constatação óbvia deveria ser aceita igualmente por todos os milhões de diabéticos e não diabéticos desse grande mundo doente, mas não é o que acontece.

As pessoas não mudam seus estilos de vida doentios, não controlam seus hábitos desajustados, não perdem peso e não tomam remédios. Elas simplesmente seguem em frente com seus problemas e seus índices altos de glicemia sanguínea. Tem uma quantidade enorme de pessoas que sequer sabe que está doente. Elas simplesmente não vão ao médico, e a vida segue em frente.

Por que é tão difícil lutar contra essas doenças? Por que as pessoas simplesmente não reagem enquanto é tempo? Aonde essa epidemia irá nos levar quando esses milhões de pessoas começarem a envelhecer e colher os problemas terríveis que brotam de uma doença prematuramente não tratada?

Tenho comigo que o problema é complexo, sim, mas envolve percepção, planejamento e reação, e as pessoas não possuem um método para atacar esse tipo de doenças crônicas, porque elas são sorrateiras e silenciosas.

Eu digo que essas epidemias são consequência de um problema de percepção porque, convenhamos, obesidade, diabetes, colesterol alto e pressão alta não doem. Essas são doenças que não chamam nossa atenção. As pessoas se importam mais com uma espinha inflamada, que dói e é perfeitamente visível, do que com uma dessas doenças. Claro, obesidade é visível, mas não dói, ao menos no curto prazo. Então se não dói, não nos importamos, não as percebemos. Assim, elas continuam agindo silenciosamente, e não nos lembramos de que devemos combatê-las diariamente.

E, se precisamos combatê-las diariamente, precisamos de um plano de ação. Elas são doenças que em geral são resultado de nosso estilo de vida. Logo, se mudarmos nossa maneira de viver, combatemos mais efetivamente esse tipo de doenças. Mas para mudar hábitos de vida arraigados, precisamos agir nas coisas pequenas, nos detalhes. Precisamos nos vigiar incessantemente, diuturnamente, e essa vigilância é muito difícil. Assim, precisamos de um plano efetivo e consistente, de médio e longo prazos, se quisermos ter alguma chance de enfrentar uma doença que não dói, mas nos mata silenciosamente.

Por fim, com um plano em mãos, partimos para a reação. Pequenas escaramuças diárias, pequenos detalhes, pequenas ações repetidamente implementadas ao longo de dias, semanas, meses, anos seguidos. Uma colherada a menos aqui, uma escada subida a mais ali, um bilhete de lembrete na porta da geladeira mais à frente, e aos poucos, vamos mudando. Uma planilha de controle de peso, uma balança digital, uma rotina de horários de alimentação, uma folha de alface a mais, um pedacinho de sobremesa a menos, e aos poucos, vamos vencendo.

Quanto a mim, sempre me forço a lembrar de que nossos planos de vida podem ser mirabolantes, nossa ambição na vida pode ser desmedida, mas sem um corpo em forma, não vamos a lugar nenhum. 

Essa notícia sobre a condição epidêmica entre os americanos mostra que a humanidade enfrenta um desafio em termos de autocontrole e autopercepção. Quem conseguir curar um diabético terá seu mérito reconhecido, mas quem conseguir prevenir alguém de desenvolver diabetes será ainda mais valioso.

Prevenção implica a ausência de remédios, de terapias, de consultas médicas. Prevenção implica percepção, planejamento, e ação. Não é uma tarefa para médicos, mas para instrutores.

É um desafio pedagógico gigantesco, e por isso mesmo, cheio de grandes possibilidades.

Quanto a mim, vou fazendo o que posso.

Quer saber?

Perdi 9 kg em um ano, e sem muito esforço. Talvez tenha que tomar remédios pelo resto da vida, mas estou usando uma série de recursos e aos poucos estou colocando meus índices de saúde em dia.

Aos poucos, silenciosamente.

Sem dor.

Quer um conselho, para começo de conversa?

Você sabe se é diabético ou não? Essa é a primeira e crucial questão. Se não sabe, deixe a preguiça e o medo de lado e marque logo uma consulta médica, faça um exame de sangue e se prepare para o que der e vier. O primeiro passo é aceitar a realidade.

sábado, 29 de março de 2014

O que é crescimento pessoal?

"O que é crescimento pessoal?"

Esta pergunta está anotada em minha Agenda 99, logo depois da lista de motivações da qual falei no meu último post.

Esta pergunta, sobre o que é crescimento pessoal, não foi respondida na época, e talvez não precise ser respondida agora. Só relato sua existência porque ela é uma prova de meu estado de espírito crítico naquele momento, naquele final de 2001, ou começo de 2002, quando eu buscava soluções para os problemas que enfrentava.

Crescimento pessoal é um daqueles temas genéricos, ocos, grandes e inespecíficos que servem mais para confundir que para clarear qualquer pensamento que seja. Sucesso, riqueza, fama, crescimento pessoal, saúde, felicidade, amor, paz. Palavras que se relacionam mais com emoções que com objetivos propriamente ditos, que podem ser medidos e buscados com método e persistência. 

Quando se alcança a felicidade? E a paz? Quando se alcança o sucesso? E quando se alcança crescimento pessoal?

Pode-se falar em objetivos tais como: 1 milhão de dólares, um trabalho diário de apenas quatro horas, sem muito esforço, ou em uma casa em um condomínio fechado, lindo e seguro. São coisas ou estados ou situações que podem ser efetivamente alcançados. Podem ser objetivamente medidos. São palpáveis.

Eu não me dei ao trabalho de responder o que é crescimento pessoal, mas o simples fato de ter feito a pergunta demonstra minha dúvida quando ao apoio que eu vinha obtendo dos livros de autoajuda.

Algo estava ficando claro para mim nessa época de minha vida, e este algo era o fato de que a simples leitura de livros de autoajuda, bem como a disciplina em realizar exercícios e fazer tudo aquilo que os autores recomendavam não estava surtindo efeito algum.

Eu estava começando a ficar irritado, desanimado e incomodado com a falta de resultados de meus esforços pessoais.

Eu não estava vivendo os melhores momentos de minha vida, e minha agenda deixa isso muito claro.

Depois dessa pergunta, parti para um ataque ácido contra esse modo de proceder, essa minha confiança ingênua de que a melhoria de nossas vidas poderia se dar de maneira fácil e indolor.

É o que veremos nos próximos posts.

sexta-feira, 28 de março de 2014

As minhas motivações

Dando continuidade às anotações em minha Agenda 99, sigo agora com o resultado de meu exercício, proposto por Donald H. Weiss em seu livro "Como tomar decisões difíceis".

Nas minhas últimas postagens, eu disse sobre minha tentativa de colocar alguma ordem em minha vida. Dado que o livro de Weiss pedia que eu ordenasse vinte e cinco motivações pelas quais fazemos as coisas nas nossas vidas, fiz uma primeira tentativa, com cinco motivações, mas não achei o resultado adequado.

Então, pensei melhor, e acabei listando em minha agenda, tal como manda Weiss, minhas dez principais motivações, as dez razões mais importantes, pelas quais eu fazia as coisas que fazia em minha vida. É bom lembrar que a lista é de 2001, e reflete as minhas motivações naquele momento, e não as de agora, de hoje, de 2014.

Eu anotei assim a lista em minha agenda:

Razões para o crescimento pessoal:

1-Conhecimento.

2-Sabedoria.

3-Padrões éticos.

4-Independência.

5-Realização.

6-Responsabilidade.

7-Crescimento.

8-Autoestima.

9-Desafio.

10-Reconhecimento.

Essa lista foi uma tentativa de seguir as recomendações de Weiss de maneira disciplinada e metódica, e posso tecer algumas considerações tanto a respeito daquilo que foi incluído nela e excluído dela, quanto dos resultados práticos dessa ação disciplinada e metódica.

Quanto ao conteúdo incluído, é fácil perceber que eu inclui conhecimento, sabedoria, crescimento e desafio, numa clara demonstração de minha disposição mental de não me acomodar com meu modo de vida, não estagnar, não parar no tempo. Eu, por outro lado, deixei claro que essa disposição de lutar se devia a uma busca de satisfação pessoal, ou seja, ao incluir independência, realização, reconhecimento e autoestima, essa busca fica bastante evidente. Por fim, eu sempre pensei que seja lá o que fosse que eu estivesse buscando, eu deveria buscar medindo ponderadamente os meios, isto é, eu não me permitiria tudo em busca de meus objetivos. Daí que não poderia violar meus padrões éticos de honestidade, justiça, fidelidade, nem poderia abrir mão de minha responsabilidade.

Essas eram as minhas motivações, conforme pedira Weiss.

Agora, o que eu aprendi com a realização desse exercício? Quais as consequências práticas de ter sido disciplinado e metódico com a execução de um exercício sugerido por uma autoridade em tomada de decisões e motivação?

Para falar francamente, nada aconteceu depois deste exercício. Minha vida não mudou para melhor, nem me senti iluminado internamente por ter descoberto minhas dez motivações principais.

O que posso concluir?

Agora, que já se passaram tantos anos deste exercício, posso dizer com alguma segurança que se ele não mudou minha vida, isso não se deu porque, fundamentalmente, não acredito que tenha sido essa a intenção de Weiss quando o planejou. Um exercício desses não é senão uma ferramenta de autoconhecimento, e tem um valor, mas muito relativo, dependendo do quão bem uma pessoa se conhece ou não. Em nenhum momento foi prometida uma mudança radical de vida em função da mera execução de um simples exercício com esse. Segundo, um livro como o de Weiss, destinado à tomada de decisões, não pode ser lido como um manual de um liquidificador. Claro, pede-se disciplina, pede-se que se faça os exercícios que são inseridos no livro, mas de forma alguma se pede uma disciplina cega, absoluta.

Mas eu só posso tecer esses comentários hoje, depois de tantos anos passados daquela anotação. Na época, eu não tinha a maturidade para perceber o que poderia estar errado comigo ou com o livro. O que sei é que as anotações que se seguiram a esta lista dão mostra clara de que eu, decididamente, estava frustrado.

É o que veremos nos próximos posts.

Por hora, basta saber que eu fiz a minha lista, e ela ainda é interessante de se olhar.

Eu sempre fui movido pela busca de conhecimento.

Sempre.

Essa busca merece ser melhor compreendida.

quarta-feira, 26 de março de 2014

Definindo razões para se fazer as coisas

Eu disse no último post que Donald H. Weiss nos ensina, no seu livro "Como tomar decisões difíceis", que sempre que fazemos alguma coisa, o fazemos por alguma razão, um motivo. Depois, ele lista vinte e cinco motivos que podem servir de guias para as nossas ações, e pede que os classifiquemos em uma ordem de importância de acordo com nossa preferência.

Mas, o que quer dizer exatamente cada um desses motivos? O que significa exatamente, na visão de Weiss, amizade, amor ou crescimento?

Ele nos dá uma pequena descrição de cada motivo, para nos ajudar a entender melhor o que quer dizer cada um deles.

É o que eu me proponho agora: reproduzir as descrições de cada um dos motivos, para que eventualmente outras pessoas possam pensar sobre eles e, quem sabe, virem a tirar algum proveito desse conhecimento.

A pergunta que devemos nos fazer é: que desejo conseguir em troca do esforço que estou fazendo em minha vida?

Agora, o que cada motivo significa:
  1. Conhecimento: buscar e aprender sobre novas coisas e ideias; buscar a verdade ou a informação; ser conhecido pelos outros como alguém inteligente e me sentir inteligente.
  2. Sabedoria: compreender e construir para mim mesmo um sentido de vida, aprendendo experiências de uma ampla gama de referências.
  3. Poder: liderar e dirigir os outros; influenciar ou controlar outras pessoas, ou seja, levá-las a fazer o que quero que façam.
  4. Prazer estético: desfrutar e respeitar as coisas que me dão prazer: arte, natureza, trabalho, pessoas.
  5. Padrões éticos: acreditar e manter um código de ética, um senso de certo e errado; ser moral; ajustar-se aos padrões da sociedade, da família ou cônjuge, da profissão e de meus ideais pessoais e religiosos.
  6. Independência: atingir minhas próprias metas da melhor maneira para mim; ter liberdade para ir e vir segundo meus desejos; ser sempre eu mesmo; controlar minhas ações.
  7. Realização: alcançar meus objetivos pessoais com o sentimento de ter feito as coisas tão bem quanto outro ou ainda melhor; ter autossatisfação ao enfrentar um desafio, realizar uma tarefa, um trabalho ou solucionar um problema.
  8. Reconhecimento: ser notado, receber a atenção, a aprovação e o respeito dos demais por algo que tenha feito; gerar nas pessoas um sentimento de respeito por quem sou e pelo que alcancei.
  9. Amizade: ter muitos amigos; trabalhar desfrutando a companhia dos colegas; criar grupos de amigos; desfrutar as relações sociais.
  10. Responsabilidade: ser considerado responsável pelas pessoas ou empresas para as quais trabalho ou realizo tarefas; possuir alguma coisa e zelar por ela.
  11. Criatividade: ser livre e ter capacidade e vontade de desenvolver novas ideias e soluções para os problemas, de aperfeiçoar produtos ou procedimentos, traçado de ideias ou planos; ser desafiado intelectualmente; ser o primeiro a inovar e criar.
  12. Segurança: ter os recursos necessários para viver; sentir-me seguro; ter autoconfiança; ter segurança no trabalho e continuidade de rendimentos.
  13. Dedicação: ser leal à empresa ou a meu superior, a minha família, aos grupos político e social a que pertenço e a outras pessoas; oferecer aos outros devoção, compromisso e amizade.
  14. Justiça e igualdade: receber por minhas contribuições e conquistas retribuição e reconhecimento proporcionais a meus esforços e comparáveis aos recebidos pelos demais.
  15. Crescimento: avançar, expandir minha vida através de meu trabalho ou do aprimoramento de meu status no trabalho ou na comunidade; aumentar meu conhecimento ou capacidade, relacionados ou não ao trabalho; encontrar realização nos grupos com os quais trabalho e convivo, amadurecer no campo pessoal e profissional.
  16. Autoestima: ser alguém de valor a meus próprios olhos e aos olhos dos outros; ser aceito como uma pessoa e não como alguém sem nenhum valor ou como um simples meio para se alcançar um fim; sentir-me útil e querido pelos outros; ser um líder; ser apreciado pelos outros.
  17. Religiosidade: acreditar em um ser supremo; relacionar-me com os outros em bases espirituais e pessoais no que se refere a fé ou conjunto de crenças.
  18. Amor: experimentar calor, sentimentos de afeição e de carinho, entusiasmo, dedicação, devoção e interesse por alguma coisa ou alguém, em especial por alguém com quem eu possa ter um compromisso.
  19. Desafio: sentir-me bem com o que faço, seu grau de dificuldade e complexidade ou solicitações à minha criatividade; ter oportunidades de aplicar meus conhecimentos e capacidade de modo simples e efetivo.
  20. Fé: ter autoconfiança e acreditar na minha capacidade e habilidade, na bondade e no valor da vida, nas metas e objetivos de minha empresa ou grupo social; acreditar na disponibilidade dos outros em ajudar e reconhecer a ajuda recebida.
  21. Utilidade: oferecer às pessoas assistência, apoio, empatia ou proteção; ser franco, compreensivo e generoso.
  22. Saúde (física/mental): sentir-me saudável e livre do sofrimento físico causado por doenças, lesões ou infecções; não ter preocupações, ansiedade nem bloqueios emocionais que me impeçam de ser bem-sucedido em todos os aspectos da vida; ter paz de espírito.
  23. Dinheiro: ter um salário suficiente ou outras fontes de renda para usar como bem quiser; ter conforto material, boas condições financeiras.
  24. Divertimento/prazer: divertir-me, fazer coisas de que gosto e não apenas as que tenho de fazer.
  25. Ser amado: receber carinho, afeição e proteção de outras pessoas, especialmente de alguém com quem eu possa ter um relacionamento.
A lista, reafirmo, não é exaustiva, mas eu não pensei em nada de interessante para acrescentar a ela, de modo que nada tenho a acrescentar também às descrições que Weiss dá a cada motivo. Claro, eu poderia tecer alguns comentários pessoais, mas acho que são desnecessários no momento.

Futuramente, farei uma análise mais aprofundada da lista, mas não agora.

Agora, encerro este post, e me preparo para escrever outro, listando os dez motivos que escolhi para guiarem minhas ações, de acordo com o exercício sugerido por Weiss. É o que veremos em seguida.