Mostrando postagens com marcador Guerras. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Guerras. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

A segunda crise dos mísseis

Lendo sobre a tentativa de reaproximação dos Estados Unidos com Cuba, muito do que se lê na imprensa nacional se relaciona à bobagem de que isso significa a vitória de Castro, da esquerda latina ou coisa parecida. Mas acho que as interpretações nacionais estão eivadas de provincianismo e carecem de fundamentos geopolíticos. Afinal, brasileiros são míopes quanto ao que faz o mundo girar, e nossa imprensa, pobre de maneira geral, não está apta a tecer considerações além daquelas para as quais são regiamente pagas pelo sistema de apoio financeiro governamental. Quer dizer, esqueçam as opiniões locais. Elas são mera propaganda governamental, e nada mais.

Mas, curiosamente, li duas notícias lado a lado, e algo me pareceu óbvio, embora pudesse não parecer se as notícias estivessem separadas fisicamente no site onde as li.

De um lado, a notícia da tentativa de aproximação. De outro, a notícia de que Obama assinou mais uma medida de punição econômica contra a Rússia. Aparentemente, fatos desconectados.

Acontece que é sabido que o choque entre Rússia e União Europeia e Estados Unidos é uma briga de gigantes, onde todos os peões do terceiro mundo acabam sendo envolvidos, queiram ou não. Ora, a Rússia, na época da guerra fria, quase iniciou uma terceira guerra mundial exatamente por tentar colocar armas nucleares em uma Cuba recém-chegada ao comunismo. Os Estados Unidos evidentemente nunca pensaram em ter esse tipo de ameaça tão próximo. Logo, deu no que deu.

Agora, a poucos meses atrás, mas já sob sanção ocidental devido à anexação da Crimeia, a Rússia iniciou gestões no sentido de ter bases militares na América Latina, e mais especificamente em Cuba.

Ora, não é óbvio que para os Estados Unidos uma contramedida simples e barata seria simplesmente levantar o embargo e esperar a ruína dos Castro antes de que uma eventual base russa seja negociada e instalada?

Cuba e seu regime podem optar por ver a ilha inundada por um mar de capitalismo e se vincular aos Estados Unidos de tal modo que aceitar uma base russa em seu território seja inviável. Se aceitar a base russa, teremos uma segunda crise dos mísseis. E é exatamente esse cenário que os americanos desejam evitar, e a Rússia alcançar. Se alcançar, a Rússia só sairá de Cuba se a OTAN não entrar na Ucrânia. Simples assim.

Dado que a Rússia não tem uma economia forte a ponto de disputar com os americanos para ver quem paga mais por Cuba, resta aos americanos ver por quanto os Castro venderão sua ilha ao capitalismo. Se é isso mesmo, e os Castro perceberem a importância de suas decisões, eles pedirão um preço alto, muito alto.

Uma coisa é certa: quem pagar mais, leva. Nesse caso, acho que os americanos podem mais, mas nunca se sabe o quão altas as apostas podem chegar.

Lamento pelo jornalismo pago, mas não, Obama não quer o bem dos cubanos, ainda que possa ser intimamente um autêntico comunista. Como todo estadista em uma verdadeira democracia, ele não governa sozinho, não tem poderes para tomar decisões unilaterais sem aval de um congresso que é oposição, e ele pensa e continuará pensando somente nos americanos, seus compatriotas, e qualquer leitura diferente desta é mera retórica tendenciosa.

Veremos ao longo dos anos se é isso mesmo ou se essa minha leitura é fruto do mero acaso de duas notícias ocasionalmente alinhadas.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

A defesa e o ataque

Na medida em que os dias passam, as semanas passam, e os anos vão também passando, tento olhar para o futuro que nos espera e tenho sentido um certo temor, que considero não sem alguma justificação.

Eleições após eleições, além de outras grandes formas de consulta popular no Brasil, têm mostrado um país fortemente contrastado, para não dizer segregado, dividido ou polarizado.

Política não é um assunto fácil, de maneira que tentarei tecer minhas considerações sobre o tema com alguma cautela e simplicidade, buscando afixar-me em alguns marcos seguros, dos quais necessitarei para justificar meus temores.

Eu perguntei a mim mesmo: o que é a política? Por que a política?

A resposta simples é que a política é a forma civilizada de pessoas entrarem em acordo dentro de regras sociais, de forma a se evitar que as coisas sejam decididas pelos mais fortes, por meio de violência física.

Essa definição é muito parecida com a definição de Direito. De maneira também simples, podemos dizer que o uso de regras codificadas em lei e impostas a todos por um Estado é uma forma de se resolver as coisas sem o uso de muita violência. No mundo do Direito, o Estado pode, sim, usar da força física para fazer valer suas leis, mas somente em casos especiais bem delimitados.

Ora, a sociedade dita civilizada tem boas razões para buscar os mais diversos meios de resolver seus problemas sem recorrer ao uso da força física e da violência.

A sociedade humana, tal como a conhecemos, data de cerca de seis mil anos. Ao longo de tantos séculos, muito se recorreu à violência e à força, seja através de guerras, disputas entre sociedades, e ao assassinato, à escravidão, à pancadaria pura e simples do mais forte contra o mais fraco.

A realidade da violência não deve jamais ser negada entre seres humanos. Vivemos em uma época em que a violência direta de um ser humano contra outro é tida como coisa incomum e indesejável, punível e sujeita às mais graves recriminações. Aprendemos a conter a violência ainda no berço.

Mas, queiramos ou não, a violência é parte da vida, tal como a conhecemos em todos os recantos do planeta. Ela é tão real, onipresente e brutal que os meios de detê-la estão codificados em quase todas  as combinações de DNA que possam existir nos diferentes animais, plantas e organismos que a ciência conhece e estuda.

Não há ser vivo sem mecanismos de defesa contra ataques potenciais. Mesmo o mais indefeso e frágil dos animais possui em sua forma física, em sua aparência, em seu comportamento, em seu modo de existir, maneiras de se defender. Muitos seres vivos possuem ainda não somente os mecanismos de defesa, mas os de ataque, que lhe garantem a sobrevida, o alimento, a procriação e a perpetuação da espécie.

Na natureza, a defesa pressupõe o ataque.

A natureza humana também não é diferente. Somos dotados dos meios de defesa e ataque. Somos animais capazes de nos defender da ameaça de outros animais e da própria espécie. E somos capazes de atacar violentamente para conseguir nossos intentos. Essas considerações não deveriam ser surpresa para ninguém.

No entanto, vivemos em uma época em que nos consideramos civilizados. Dispomos de organização tal que a violência é inibida por diversos mecanismos, e não esperamos que a violência aumente, mas diminua constantemente no tempo. Esperamos que nos tornemos mais e mais civilizados.

Mas nem sempre as sociedades seguem destinos linearmente constantes rumo a um processo civilizatório, isentas de percalços, desvios, retrocessos e recaídas.

Poucas civilizações, se é que existiu alguma, seguiram processos históricos longos na mais perfeita paz e harmonia social.

Seremos nós brasileiros o povo dotado de habilidade social suficiente para não incorrer em episódios de violência social tais como guerras, revoluções, convulsões sociais e outros tipos de retrocessos?

Achamos que sim.

Achamos que somos um povo pacífico e harmonioso.

Achamos que tudo se resolverá da melhor maneira. Não achamos que as coisas irão piorar. Não temos razões para pensar diferente.

Ou temos?

Penso que não temos vivido grandes convulsões sociais tais como guerras, mas tivemos revoluções e temos índices de violência social sem paralelo em todo nosso passado.

Tivemos guerrilha em pequena escala em 1971, tivemos golpe militar em 1964, participamos em pequena escala da II Guerra Mundial lutando em território inimigo, e tivemos a guerra civil constitucionalista em 1932. Tivemos a revolução de 1930, e antes disso, outras convulsões menores que sequer lembramos de tê-las estudado nos livros e nas escolas. Nós tivemos longas décadas de relativa paz, é verdade.

O que a política teve de contribuição dada neste período todo?

Podemos dizer que as divergências sociais que poderiam ter dado motivos para o surgimento de episódios de violência mais contundentes foram adequadamente contornadas pelos meios políticos. Se não o foram pela política, como se solucionaram?

Divergências sociais desaparecem com a mera passagem do tempo? Em geral, somente a muito longo prazo. Em geral, convicções que dão razão a conflitos sérios são perenes, imutáveis, não sujeitas a acomodações definitivas. Há divergências que jamais são superadas. São, no máximo, apaziguadas, acomodadas pelas partes envolvidas, e a defesa somente abaixa a guarda quando morre o atacante.

Em um país com 200 milhões de habitantes, geograficamente desigual, socialmente desigual, economicamente desigual e culturalmente desigual, é espantoso que as diferentes facções que decorrem dessas inúmeras diferenças e polarizações tenham sabido contornar suas divergências. 

Se a política e o Estado, através de suas leis, têm sido capazes de contornar os conflitos até então, isso é questão em aberto que uma leitura mais atenta da história pode responder.

Já quanto à capacidade de contornar conflitos futuros, resta a expectativa de que sim, de que o Estado consiga contorná-los. A questão é: desejará contorná-los?

Em um momento histórico em que forças políticas deixam de apaziguar conflitos sociais e passam a estimulá-los, o que se pode esperar?

Dado que as forças políticas entendam que a melhor defesa é o ataque, o que se pode esperar?

Dado que os seres humanos não são animais que se submetem a ataques sem a devida revanche, que não se submetem sem muita luta, o que se pode esperar?

A relativa paz social das últimas décadas foi fruto da capacidade política das partes envolvidas em conflitos em transcender e achar alternativas à violência ou simplesmente foi o caso de que nos conflitos existentes, o atacante não teve força suficiente para representar uma ameaça à sua vítima potencial?

Vivemos décadas de paz porque tivemos instituições que souberam apaziguar conflitos ou tivemos paz simplesmente porque não houve conflitos? 

Eu prometo que vou tentar responder a essas questões.

Quão radicais foram os conflitos passados? Quão dividida esteve a sociedade brasileira em décadas passadas? Quem tomou a iniciativa de agredir quem? Quem intercedeu a favor ou contra quem e como a coisa foi resolvida sem um banho de sangue?

Eu disse banho de sangue? No Brasil, o país do samba, das praias e do futebol?

Precisamos entender nosso contexto atual. Não me consta haver garantia de paz social perpétua concedida a um povo qualquer que seja, por mais bela e alegre que seja a sua cultura e o seu passado.

O ataque, a agressão e por fim a violência é a decisão política extrema, um recurso final, mas nem sempre.

Onde está o agressor?

Quem é o agressor?

Quando ele agirá?

Ele já não está agindo?

Você às vezes não se sente socialmente agredido?

Pense bem.

Identifique o agressor...

terça-feira, 9 de abril de 2013

Pacifismo e passividade

As palavras são parecidas, e seus sentidos, idem. Mas há entre elas uma diferença que, se não realçada, pode traçar mesmo o destino de uma grande nação.

Falo isto com o intuito de esclarecer o que acho que seja uma imensa confusão entre um conceito e outro, e que acaba fazendo do povo brasileiro um povo que vê seu país afundar de uma maneira que o torna incapaz de reação ou de luta.

Somos chamados de povo pacífico. Ora, somos mesmo? Não enfrentamos guerras a muito tempo. Logo, parece que somos mesmo pacíficos, se não mesmo pacifistas. Mas este aspecto externo, de sermos um povo que não busca lutar contra nações e povos vizinhos, não é mérito algum, se pensarmos na questão interna, onde lutamos uns contra os outros, sem que se caracterize uma guerra civil, mas ao mesmo tempo se caracterize um conflito tão renhido, crônico e doloroso que produz como resultado mais mortes que uma dúzia de guerras externas.

Quem nos chama assim, de pacíficos, quando não o somos de forma alguma?

E com que objetivo? Para que pensemos que somos um povo civilizado, quando não o somos? Quem ganha com essa triste ilusão?

Nós não somos um povo pacífico de forma alguma. Matamo-nos aos milhões. Assim, pergunto: quem nos rotula, falsamente, de sermos um povo pacífico? A quem interessa este rótulo falso?

Como pode ser pacífico um povo que enterra centenas de milhares dos seus próprios semelhantes ano após ano, incapaz de tomar qualquer medida que seja para conter essa sangria horrenda?

Mas quem quer que seja que nos rotule de pacíficos, está prestando um grande desserviço ao povo brasileiro.

Somos nós mesmos que nos rotulamos de pacíficos? Se for, fazemos isto inocentemente?

Seja quem for, e seja qual for a motivação, inocente ou não, o resultado deste rótulo é um só: tornamo-nos um povo passivo.

Passividade é um estado de espírito. Passividade não é uma característica que se deva desejar para um povo. A passividade pressupõe derrota. Um indivíduo passivo está longe de ser um sujeito pacífico. Passividade não implica paz de forma alguma. Pelo contrário: somente porque há cidadãos passivos é que a minoria agressiva se sente segura para cometer seus delitos e atrocidades. Um sujeito passivo torna a si mesmo uma vítima fácil para todo tipo de oportunista.

O povo brasileiro não é pacífico; é passivo. Por ser assim, enterra todos anos, nas últimas quatro, cinco décadas, 50 mil mortos no trânsito, mais 50 mil mortos assassinados, e mantém 700 mil presos nos presídios, a nata de sua juventude, e amarga um governo que está muito aquém de suas necessidades.

Nós não precisamos temer sermos tachados de um povo agressivo se, de repente, resolvermos agir firmemente diante de problemas que requerem força, determinação e, por vezes mesmo violência. Não creio que se possa combater a ação violenta de uns com a passividade de outros. Quem usa de violência não teme a agressão meramente moral, verbal ou teórica de seu oponente.

Eis aí um tipo de confusão de conceitos que mais dia, menos dia, será esclarecido da pior maneira possível.

Creio que estamos à beira de uma guerra civil, em situação pior da que se viveu em 1961 e 1964.

Quem viver, verá.

Não seja passivo. Seja pacifista, mas não passivo.


segunda-feira, 16 de julho de 2007

Blog e filmes

Ultimamente, ando escrevendo sobre sonhos. Mas não é só: ando assistindo filmes em DVD como nunca. Também tenho ouvido muita música legal. Meu blog Sonhos Incríveis vai bem. Coloquei umas fotos que dão alguma orientação para o leitor, e acho que são sonhos legais.

Os filmes são muitos, mas mesmo os que são ruins acabam sendo bons.

Tem um deles, "Viagem Maldita", que é bem trash, com muito sangue falso e muita insanidade e sadismo, mas tem cenas muito interessantes. Pensar que os Estados Unidos fizeram 331 testes nucleares a céu aberto de 1945 a 1962, em uma média de 20 testes por ano, não deixa de ser assustador. O filme é uma crítica a isso, e as cenas do deserto do Novo México, com suas casas velhas com bonecos, suas crateras e seus carros queimados é asssustadoramente nostálgico. Acho que os anos 50 foram os anos mais imbecis do século. Claro, os anos 20 foram bem bobos, e os anos pré 1914 foram também ingenuamente românticos e vitorianos. Mas a ascensão do american way of life e suas bugigangas e seu ufanismo foi trágico. As cenas do começo do filme são estarrecedoras, embora o resto seja de doer de ruim.


Por fim, ando ouvindo trilhas sonoras clássicas. Muito bom, se pensar que comprei uma caixa com seis CDs só com músicas clássicas que foram temas de filmes por uma ninharia. Mas quem compraria esse tipo de música? Aliás, quem compraria qualquer tipo de música hoje em dia? Mesmo eu, que não sou muito ligado, acabei ganhando um MP4. É inevitável...

Por fim, resta meu micro, que não ajuda. Migrar dados de um velho Pentium 266 para um micro novo não é nada fácil. Nesta hora, acho que o MP4 será mais que útil.

E resta a questão da mega-sena. Que questão é esta?

Bem, deixa para a próxima postagem...


segunda-feira, 6 de setembro de 2004

Colateral

Acabei de assistir Colateral, com Tom Cruise. Um filme que não tem nada de mais, a não ser violência sem sentido e tristeza. No entanto, há pelo menos uma passagem filosófica de alguma profundidade. A morte de pessoas próximas choca, e sentimo-nos péssimos diante de um cadáver. Essa semana que passou, tive pessoalmente a infelicidade de ver um cadáver embrulhado em um lençol numa rua no caminho entre minha casa e o meu serviço. Um senhor morreu de parada cardíaca por volta das nove da manhã, sufocado pelo calor de Goiânia, pela gordura no sangue, pela pressão sanguínea, pela idade, por um conjunto de fatores. Nada pôde ser feito e o corpo estava ali, na rua, quando passei para ir para o serviço. Isso não é comum. A morte não é agradável. Mas Vincent, o assassino interpretado por Tom Cruise, lembra ao chocado motorista de táxi que em Ruanda morreram milhares de pessoas em pouquíssimos dias, num massacre humano só superado em quantidade e rapidez pelos massacres de Hiroshima e Nagasaki, mas o taxista nada sentiu diante da catástrofe ruandense. Vincent ainda alega que somos nada diante de um cosmo sem sentido, e que matar ou morrer nada significa, num pessimismo digno de Schopenhauer.

Ao fim do filme, assistido depois do massacre de Beslan, fica a impressão de que vivemos uma época triste. Desde 11 de setembro, a exatos três anos, temos assistido a massacres constantes. New York, Washington, Pensilvânia, Madri, Beslan, Moscou, Bagdá, Falluja, Najaf, Stambul, Abu Grabi, Guantânamo, Tel Aviv, Gaza, só para citar os mais famosos. De fato, não precisamos sequer recorrer à nossa insignificância cósmica para minimizar a morte de um único ser humano. Basta tomá-la em comparação às barbáries que estamos quase que nos acostumando a ver todos os dias nos noticiários internacionais.

Vivemos uma nova cruzada? Talvez, mas de qualquer forma, estamos passando por momentos difíceis.

E o que dizer do Brasil? Não sei o que é pior: o terrorismo militante de fundo político e religioso e mesmo econômico, ou o terrorismo cultural que assola silenciosamente nosso país. Na verdade, esse tipo de terrorismo me deixa mais estarrecido e indignado que massacres de dezenas de civis inocentes. Não, não sou indiferente à morte de ninguém, mas sinto-me especialmente indignado com o massacre cultural a que somos submetidos, nós, brasileiros, pela mídia de nosso pobre país.

Senti que estamos num caminho perigoso no momento em que assisti por alguns segundos, por acaso, um programa de Gugu Liberato, num domingo, às sete da noite, no auge da audiência semanal, quando milhões de cidadãos de todas as camadas sociais estão grudados em frente à tv. Não é difícil para alguém que não vê os programas das televisões abertas e gratuitas perceber que o que a mídia faz, ou tenta fazer, com todos nós é muito mais cruel que aquilo que fazem grupos de terroristas suicidas nas lutas por suas causas, sejam elas quais forem. Quero crer que não seja o próprio Gugu quem esteja por trás de algo tão baixo, tão horripilante, como o programa que tem o trabalho de apresentar. A televisão brasileira presta um desserviço tal à nação que, de fato, não precisamos de inimigos: nossa mídia é nossa própria inimiga, mais poderosa que qualquer outra forma de ameaça, interna ou externa. Sutil, ela condena gerações de milhões de cidadãos à ignorância, à insignificância, à superficialidade, à banalidade em tal escala que não me espantaria em ver o Brasil passar por um processo de estupidificação de sua população tal que acabe por levar o país a um estado de barbárie pelo qual jamais passamos em toda a nossa história. Teremos, ou já somos, um país de estúpidos cuja escala de valores foi virada de cabeça para baixo por força de uma lavagem cerebral impetrada sutilmente pelos Gugus e Faustões, pelos Big Brothers e Casas de Artistas, pelas novelas das tardes e das noites, pelos grupos musicais semipornográficos, pela cultura da malícia e do duplo sentido, pela apologia da malandragem, da fila furada e do cheque sem fundo, pelo endeusamento dos Nelson Rodrigues e suas chanchadas baratas, enfim, por uma pseudocultura de um país que nunca produziu nada que tenha valor cultural atemporal e de caráter global reconhecido. Sim, temos cultura, mas não na qualidade e na quantidade suficiente para fazer de nossos cidadãos pessoas melhores. E se a televisão, como meio tecnológico de eficiência inquestionável, não pode contribuir, não devia nem por isso prejudicar. A elite que governa o Brasil e que dá as cartas na mídia provará do próprio veneno. O monstro que os Gugus e Faustões alimentam acabará por comer a todos da elite primeiro, e a si mesmo, depois, na sua ânsia por ignorância.

Mas a ignorância é apenas um efeito colateral na busca de um ponto a mais no Ibope.


terça-feira, 8 de junho de 2004

Geral : Um monte de coisas - parte 2

Continuando...

Mudando o assunto para a Política, tenho pensado que talvez a melhor coisa que poderia surgir da fusão da Web com a Política seria o fim do sistema representativo. Isso mesmo: cada cidadão vota por si mesmo, sem a figura do político profissional, corrupto, falso, traidor, traiçoeiro e não confiável. Isso seria a glória da Democracia. O assunto é longo e merece muita atenção.

Tenho que relatar minha paixão por aviões. Nesses meses de frio, o céu no Centro-Oeste é quase sempre limpo como um cristal. E como o ar da alta atmosfera está sempre muito frio, vez por outra posso ver o rastro de condensação atmosférica deixado pela passagem de algum avião muito, muito ao longe. É simplesmente fantástico. Não se vê nada, a não ser um risco muito, muito longe. A quantos quilômetros está esse avião de onde estou? Cinqüenta, cem quilômetros? Um show.

Mas show mesmo no céu foi a passagem por sobre Goiânia, numa tarde nublada dessas, de uma esquadrilha de oito caças da FAB. Uma formação em V, com cinco AMX na parte interna e dois Mirage nas laterais. Um terceiro Mirage, vários quilômetros mais atrás, retardatário, acelerando quase que a ponto de quebrar a barreira do som buscando alcançar os demais. Um show! Passaram e se foram em poucos segundos.

Tive um sonho muito doido. Sonhei com um mundo futuro, a mil, dois mil anos a frente do nosso mundo atual. Sim, mas nada de tecnologias óbvias. Aliás, de um modo geral, tudo até muito parecido com o nosso mundo de 2004, exceto por algumas coisinhas, como, digamos, as balas e chicletes da criançada, ou as canetas dos policiais dos parques, ou mesmo a maneira como a garotada controlava a bola numa pelada de futebol. Tudo muito, muito bizarro e louco.


E sonhei também com um parque temático americano. Sim, sonhei com o Parque Temático do 11 de Setembro. Acreditem se quiserem.

Sonhei também com os barrancos do abismo, e ele era escorregadio. Mas nós os vencemos, eu e meu rotweiller, o Schubert, Bom Cachorro! E além, um pântano africano leitoso e seu palácio inacabado.

Mas nem tudo foram sonhos nesses últimos dias. No sábado à noite, a vida real mostrou um pouco do seu lado pesadelo. Enquanto eu passeava por entre a multidão de mulheres na famosa Feira da Lua de Goiânia, alguém muito esperto enfiou a mão na minha mochila e roubou minha carteira, com tudo. Documentos, todos, dinheiro, etc. Fui registrar ocorrência na delegacia de polícia de plantão, e, pensando no que significa tudo isso a longo prazo, perdi a esperança no Brasil.

Para dizer a verdade, nunca acreditei um segundo sequer nessa ladainha que venho ouvindo desde que tenho seis anos de idade, a de que o Brasil é o país do futuro. O Brasil, agora tenho certeza, foi, é, e sempre será, um fracasso. O último que sair que apague a luz. Desejo ardentemente que tudo se resolva por meio de uma guerra civil, uma guerra que rebente essa imensa porcaria em cinco ou seis pedaços, como a Iugoslávia, e que cada gueto que se vire com os seus. Ou que uma peste, um megavírus, dizime um terço da população, para o meu bem ou para o meu mal. Uma coisa é certa: sem um trauma profundo, um terremoto social, esse país está definitivamente condenado a seguir a Somália e a Eritréia. Acho que já ultrapassamos um limiar considerado irreversível.

Por falar em desespero social, falta no Brasil um sistema eficiente de achados e perdidos. Não acredito que isso possa ser feito pelo governo, mas acho que o ramo não desperta interesse financeiro na iniciativa privada. Mas que é uma necessidade social, isto é.

E, por fim, sonhei com meus talheres publicitários. O que é isso? É a fusão de duas idéias reais no mundo dos sonhos. A ideia de talheres publicitários é uma estratégia de marketing que, segundo minha teoria, pode ser uma coisa bacana. Mas, no sonho, a coisa se sofisticou, e virou algo bastante curioso e louco. Pratos publicitários!


Minha mensagem do dia:

“Sonhei com os barrancos do abismo, e ele era escorregadio. Mas nós os vencemos... ”

Rosenvaldo Simões de Souza