quarta-feira, 1 de abril de 2015

Morrer é uma droga

Eu iniciei esse blog em parte como um meio de registrar minhas vivências, minhas histórias e meu passado, como disse aqui, quando falei que acho que morrer é uma droga, mas pior que morrer é morrer e ser esquecido. 

Morrer é uma droga. 

Esse é um tema que parece-me uma imensa cordilheira esmagadoramente intransponível. 

Sendo o que é, o tema desafia-me e recuso-me a fugir dele. 

Enfrentemo-lo então, e corajosamente. 

Sei que morrerei. 

Sei disso porque sou um humano e todos os humanos morrem. 

Só resta-me saber quando morrerei. 

A morte é um desafio porque é uma coisa certa. 

Pode-se viver bastante, mas não para sempre. 

Muitos questionam: por que alguém desejaria viver para sempre? 

Não sei, mas se tivesse que escolher hoje, agora, neste exato momento, se prefiro morrer ou continuar vivendo, digo enfaticamente que pretendo continuar vivendo, e tenho pensado assim desde que nasci. Estar vivo até hoje, até este exato momento, é prova de que desde então, desde que nasci, tenho preferido estar vivo do que estar morto. 

O que há na vida que faça com que prefiramos, nós, os vivos, a continuar vivos e não optarmos por deixar a vida e deixarmos de viver, optando pela não vida, optando pela morte, tirando de nós mesmos nossa força vital através do suicídio simples e puro? 

Uma resposta elementar para essa pergunta é que viver não é tão ruim, por um lado, e que estar morto parece ser algo insípido e tedioso, por outro. Viver não é fácil, mas a vida tem lá seus prazeres, e estar morto é simplesmente dormir sem sonhar, o que significa uma espécie de escuridão sem sentido e sem fim. Ora, somos seres de sensações, temos nossos sentidos quase sempre muito despertos, e eles nos mantém em ação, nos mantém curiosos. A morte, sendo o não-ser, é como antes de termos nascido. Ora, sabemos muito bem o que é o não-ser antes de termos nascido: é um nada sem sentido, um breu infinito. Logo, sendo a morte um não-ser como foi o antes de nascermos, não nos parece ruim, mas é algo indiferente e definitivamente muito menos interessante que o estar vivo e constantemente bombardeado de estímulos sensoriais e emocionais que nos fazem sentir a sensação de vivacidade que nos distingue das pedras e dos demais objetos inanimados. 

O suicídio seria, como muitos já disseram, a verdadeira questão na vida de um ser humano. Nascemos para a vida, mas somos capazes de escolher a morte. 

É certo que o suicídio é uma opção válida, mas, por outro lado, é uma decisão muitíssimo particular, e cada qual sabe quando viver ou morrer convém ou não. Não posso falar por outros. Quanto a mim, prefiro viver que optar pela morte. Essa opção é válida para o presente, e não sei se o futuro trará situações tais que me levem a questionar a validade de se continuar vivo. Sei que muitas pessoas preferiram a morte por suicídio por razões que são razoavelmente justificáveis. Não posso julgar seus argumentos. Só sei que é uma decisão dura, irreversível e definitiva e, no entanto, plausível e real, a qual espero não ter de tomar, mesmo nos momentos mais difíceis e desanimadores que o futuro possa me trazer. 

No entanto, a preferência pela vida é óbvia. Estar vivo permite grandes prazeres. Viver constitui-se em um evento mágico, cósmico, absolutamente maravilhoso. 

O que há de mágico em se acordar todos os dias e enfrentar a rotina de trabalho extenuante e sem significado, para apenas chegar à velhice e sofrer as dores da decadência física, psíquica e social? 

E, no entanto, bilhões de pessoas vivem esse modo de vida pretensamente tedioso e sem sentido e nem por isso acham que estar morto é uma opção melhor. São meros expectadores da vida, mas ainda assim, viver parece-lhes a melhor opção. O que há na vida insípida, ou ainda naquela vivida a duras penas, que mereça ser preservada? Ou ainda, indo mais longe, o que justifica uma vida marcada apenas pelo sofrimento, não sendo nem mesmo insípida ou tediosa, mas dolorosa, massacrante, destituída de toda razão ou sentido?  

Mas, mesmo as pessoas desafortunadas, as cronicamente doentes, as que nasceram escravas, as que somente vivenciaram sofrimento dia após dia, não optaram pelo suicídio como meio de fuga de suas agruras e desalentos. O que as moviam? O que as animava? Que esperanças tinham? 

No entanto, se elas não desistiram, por que deveria eu ou você desistir? 

Tolos, diria o suicida, sofrendo em vão e, no entanto, tão exemplares e comoventes em suas tenacidades. 

Que me vale mais: a esperteza lúcida do suicida ou a tenacidade tola dos sofredores sem esperança? 

Mas os sofredores não são tolos, nem o suicida é esperto. O suicida é um mero covarde, e o sofredor que mesmo morrendo sem ver um dia de alento, e ainda mais por isso, é o verdadeiro ser humano, digno de inveja e honrarias. A coragem é comovente, digna. A covardia é repulsiva, e desprezível. 

Poderia, no entanto, até tomar-me por tolo, se sofredor eu fosse, mas não é essa a minha realidade, felizmente, embora a vida nunca seja fácil, nem tem sido para mim. Tenho, apesar de não ser um sofredor crônico, e ainda em razão de minhas convicções, um forte compromisso para comigo mesmo de que lutarei com todas as minhas forças para que possa conduzir minha vida e auxiliar quem quer que eu possa ajudar a conduzir sua vida para uma existência a menos sofredora possível, para que eu e todos os mais seres viventes possam existir em uma experiência gratificante, merecedora de nossos maiores esforços, vidas vividas como promessas realizadas, esperanças rematadas, e não apenas sofrimento sem sentido, ou promessa de não sofrimento. Tenho para comigo o compromisso de que a vida não deve, não pode, não será sem sentido, embora possa não ser imune ao sofrimento. 

Mas Freud já disse que vivemos para o prazer, e fugimos do sofrimento, e mesmo um inseto não age diferentemente do mais sublime ser humano, e sou obrigado a concordar com Freud, e sublinhar firmemente que não sou melhor que um inseto quando diante do cosmo e da vida, e eu e os insetos compartilhamos orgulhosamente dessa tenacidade que não é vergonha, nem deveria ser motivo de vergonha para ninguém, essa tenacidade que faz do vivo o realmente vivo, essa tenacidade que refuta as leis rígidas do cosmo frio e insere movimento e deidade, insere magia onde antes só havia som e fúria sem sentido, insere consciência, magnificência e contemplação temerosa da parte vivente que contempla o todo inanimado. Não, não há nada errado em amar o prazer e fugir do sofrimento. Desconfie de quem disser algo que contrarie essa verdade universal. 

Balanço, por vezes, em minha determinação de viver sem sofrimento. Não sou uma rocha, mas esforço-me para me manter firme com esse meu compromisso com minha vida, e, dentro do possível, com a vida de todas as pessoas que eu possa ajudar ou influir. 

Não desistir. Resistir. Reerguer-se. Enfrentar problemas. Vasculhar todas as possibilidades de solução. Refutar a fraqueza. Contestar as ameaças. Combater os inimigos da vida. Distender a vida até seus limites extremos. Dar a chance ao surgimento da vida. Respeitar e reverenciar quem luta pela própria vida e pela vida alheia, humana ou não. Tombar somente no último suspiro. Sacrificar quase tudo pela manutenção da própria vida, e, em último caso, sacrificar a própria vida para que outras vidas possam continuar. 

Eu me pergunto: o que vale o sacrifício de minha própria vida? 

Pelo quê, ou por quê eu morreria? O que vale o meu próprio sacrifício? O que tem mais valor para mim que a minha própria vida? 

Morrer é uma droga, mas por vezes, precisa-se morrer. 

Diante da suposta grande questão do ser ou não-ser, percebo que há uma questão maior. 

Ante o altruísmo do herói, o que é a esperteza do suicida? 

E ainda assim, um herói é um suicida. 

É que o mero suicídio por tédio em se viver é muitíssimo diferente do sacrifício voluntário do herói, que assim o faz em nome de outros, e para poupar outros, ainda que apenas em esperança. O suicida é um mero egoísta. O herói é altruísta. 

Assim, concluo, há valores maiores que efetivamente levam um ser humano a abrir mão de sua própria existência, em casos extremos, e esses valores precisam ser pesados, conhecidos, questionados. 

Se você ama a vida, pelo que você morreria voluntariamente, e sem pestanejar? 

Eu não tenho uma resposta ainda para essa pergunta audaciosa, e certamente não sou o primeiro a formulá-la. No entanto, não a fiz somente agora. Tenho pensado nisso a longo tempo, e sei pelo que luto. 

Sei pelo que vivo, e sei pelo que vale a pena lutar, embora que não até a morte. 

Eu gostaria de ter meios, tempo e subsídios de outras mentes mais lúcidas que a minha para pensar sobre essa questão, mas não tenho. 

No entanto, não vou desistir. 

Nem vou morrer de tédio.  

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