sexta-feira, 31 de julho de 2015

Confie em mim...

Você está caminhando à beira de um penhasco quando, de repente, perde o equilíbrio, escorrega e cai. Felizmente, você tem a presença de espírito de se agarrar a uma saliência do penhasco, mas fica pendurado ali de forma desesperadora. Depois de passar algum tempo nessa situação, você começa a gritar por socorro:

- Há alguém aí em cima que possa me ajudar?

Não ouve nada. Você continua gritando:

- Há alguém aí em cima que possa me ajudar?

Até que uma voz estrondosa responde:

- Sou Eu, Deus. Posso ajudá-lo. Solte-se e confie em mim.

Honestamente: o que você faria?

terça-feira, 28 de julho de 2015

Um governo mundial

Há na internet uma série de sites discutindo política. Dentre muitos, há aqueles que lutam contra uma suposta tirania, seja em escala local, nacional ou mesmo global. De certo modo, o pior dos temores, seja qual for o posicionamento que as pessoas tenham em relação ao espectro político, sejam de esquerda, direita ou centro, é de que o mundo seja de alguma forma dominado por um único governo, oposto aos seus desejos pessoais.

O grande medo do mundo, e ao mesmo tempo o grande anseio do mundo, é o do governo global.

Tenho pensado nisso.

Não acho improvável um governo global. Nem mesmo acho indesejável um governo global. O que questiono é: qual seria o tipo deste governo global?

Não desejaria um governo global tirânico, uma ditadura sanguinária comandada por alguns poucos poderosos estrangeiros. Nem uma monarquia hereditária, cuja condição para o poder fosse pela consanguinidade.

Mas não veria tanto mal assim em um governo global benevolente, democrático, limitado em seus poderes de polícia e força coercitiva, capaz de equalizar as grandes diferenças da espécie humana, prestar socorro em escala global, manter a paz e aparar as arestas culturais capazes de levar as pessoas à violência e à guerra.

Pergunto: o que temos a temer em um eventual governo global?

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Lacunas de entendimento

Eu disse aqui que quando iniciei este blog, eu poderia usá-lo como uma espécie de diário, não um diário que tratasse de meu dia-a-dia pessoal, mas de minha percepção a respeito dos acontecimentos do mundo. Disse ainda que não saberia que contribuição eu poderia dar com um blog desse tipo, porque não sou famoso, não tenho especialização em nada e nem tenho autoridade alguma sobre nenhum tipo de assunto que por acaso eu viesse a querer comentar. 

E depois, a Internet está atulhada de palpiteiros de todos os tipos abordando milhares de aspectos sobre todo tipo de assunto, que a grande maioria não domina minimamente. Por que me juntar ao grupo de palpiteiros, se não aprovo muito esse comportamento?

Mas, gostemos ou não dos palpiteiros, amadores em geral que usam da liberdade que a Internet proporciona para falarem o que pensam aberta e livremente, eles estão aí para ficar, e dentre eles estamos nós, mais ou menos afundados nessa onda de comentários infinitos, contraditórios e inconclusivos.

Relembro que quando eu disse o que disse no início deste blog, em 2004, ainda não havia a febre do Facebook. Aliás, em 2004 nem o Orkut ainda existia. Quer dizer, o Orkut estava apenas começando, e hoje ele nem existe mais.

A Internet permitiu que bilhões de anônimos passassem a ter voz, e isso é bom, ainda que quase sempre as vozes que se exprimem não são assim de tão boa qualidade como poderiam ser.

Agora, é evidente que bilhões de pessoas sejam muito diferentes umas das outras. Portanto, elas têm opiniões diferentes, e as expressam na Internet de maneira espalhafatosa e gritante. Mas as diferenças das pessoas não é uma coisa nova e nem precisa da Internet para se manifestar.

Hoje, temos no Facebook as grandes redes de mídia noticiando quase tudo o tempo todo, e assim que uma notícia é postada, imediatamente há uma busca eufórica para se curtir, comentar e, curiosamente, ler-se os comentários, curtindo-os ou não, e por vezes respondendo-os, debatendo-se através de dezenas, centenas de comentários curtos e inconclusivos, agressivos, espasmódicos. A coisa é tão viciante que a participação dos leitores de uma dada postagem acaba sendo tão ou mais interessante que a própria postagem, gerando um mundo de novas percepções, com a iluminação de detalhes curiosos ou sórdidos, apontamento de lapsos intencionais ou não, brigas de grupos que concordam ou discordam daquilo que é postado, e então percebo que aquilo que disse a dez anos atrás não faz mais sentido, porque todo mundo pode e dá seu palpite, sua contribuição a qualquer assunto que queiram dar, sem nenhum escrúpulo quando a serem autoridades ou leigos no assunto, ou se serão criticados ou apoiados em seus comentários por quem quer que seja.

Eu continuo achando que não tenho nada com que contribuir com o entendimento do que acorre com o mundo? Eu aderi à moda de tecer comentários no Facebook? Vejamos.

Eu percebo que há um fenômeno cognitivo que creio melhor chamar de lacuna de entendimento.

Lacuna de entendimento tem a ver com um atributo que temos em nossos cérebros, bastante conhecido, que é a nossa incrível capacidade de percebermos padrões onde quer que foquemos nossa atenção.

Prometo que não vou entrar em detalhes técnicos aqui neste post, e prometo que falarei mais detalhadamente sobre o que é lacuna de entendimento futuramente. Por enquanto, vou usar um exemplo simples para me fazer entender.

Se eu colocar uma sequência de números em uma determinada ordem, tal como 1, 2, 3, 4, X, se eu perguntar a qualquer pessoa o que seja o X, qualquer um pode dizer que X é o número 5. Há um padrão óbvio na sequência e todo mundo percebe.

Se eu complicar um pouco a sequência, cada vez menos pessoas conseguem perceber sua lógica e poucos acertam o que seja o X nessa sequência mais complicada.

Em uma sequência muito difícil, quase ninguém acerta X.

Essa capacidade de reconhecer padrões é poderosa, mas relativa, concluo.

Ela funciona para a compreensão de padrões numéricos, sonoros, visuais, táteis, enfim, é uma capacidade de nosso cérebro, e ele é bom nisso, embora imperfeito. Nossos cérebros recebem dados dos órgãos do sentido e tentam achar alguma ordem no meio do caos de sensações. Basicamente, é nessa capacidade de reconhecimento de padrões que se baseia a lacuna de entendimento.

O que o Facebook tem a ver com isso?

Acontece que se eu iniciar uma sequência de palavras, numa determinada ordem, nosso cérebro irá tentar naturalmente buscar o X que falta no final, quer queiramos ou não. 

Por exemplo: se escrevo uma frase incompleta, nosso cérebro irá completá-la. Digamos que eu escreva "o utensílio que uso para fritar ovos é a f...", todos perceberão que a palavra faltante é frigideira. Se eu omitir a letra f, alguém poderia dizer que a resposta é não a frigideira, mas a panela, a chapa ou grill, ou outra coisa qualquer.

A palavra que está faltando na frase é uma lacuna, e sem ela, não há um entendimento completo da frase. A falta de entendimento de uma frase é uma espécie de falha em uma sequência de ordem. Sem essa ordem, há algum caos na mente de quem a lê, e a mente odeia o caos, a desordem, a falha de entendimento, a incompletude e a incoerência cognitiva. Exasperado, você lerá a frase e sentirá a necessidade urgente de complementá-la com a palavra que falta, seja ela qual for.

No entanto, o vazio só pode ser preenchido por algo que seja de seu conhecimento. A frase precisa fazer sentido para você, senão, o caos continua. Se não conseguimos identificar um padrão, sentimos frustração e insegurança, porque a falta de padrão é o caos e o caos nos assusta profundamente. O caos cognitivo é uma ameaça ao nosso cérebro. Não gostamos disso e nos esforçamos para que haja alguma ordem naquilo que observamos e vivenciamos.

Uma frase incompleta gera uma lacuna de entendimento. No entanto, um texto incompleto também gera lacunas de entendimento. Um texto, quer dizer, um conjunto mais ou menos complexo de frases interligadas, mas com incoerências lógicas, deixa qualquer leitor exasperado. Um texto que fale sobre um acidente em uma rodovia qualquer deve necessariamente falar onde ocorreu, se houve mortos ou feridos, qual foi sua provável causa, e se tudo está normalizado. Se alguém anuncia um acidente e não informa esses dados elementares, haverá uma lacuna de entendimento óbvia. Se um texto assim for postado por alguma agência de notícias no Facebook, ela gerará centenas, milhares de comentários indignados, e com toda razão.

As pessoas odeiam serem enganadas por falsas notícias. Elas odeiam serem manipuladas por textos tendenciosos. Elas odeiam tentativas grosseiras de manipulação de suas opiniões. Elas odeiam opiniões seletivas. Elas odeiam mostras claras de injustiça de qualquer tipo. As pessoas detestam textos que não sejam coerentemente elaborados, e tentam desesperadamente corrigir essas falhas, ou qualquer outra falha observada, por meio de comentários os mais variados possíveis.

No entanto, há textos que não apresentam lacunas de entendimento que são óbvias para todo tipo de leitor. 

Há textos que são elaborados de maneira que pareçam logicamente coerentes, que não exponham falhas estruturais gritantes, e portanto, são lidos de forma aparentemente coerente, sem obter do leitor nenhuma manifestação que o denuncie ou o critique. Há textos que parecem uma sequência completa e acabada, sem nenhum X em qualquer parte que seja de sua composição.

Isso se deve porque, como dito mais acima, a capacidade de detecção de lacunas depende de quem recebe a informação, e não de quem a cria. Se alguém cria um texto sobre algo que o leitor não entende, este pode não perceber nenhum tipo de lacuna e simplesmente consumir a informação sem crítica, isto é, por vezes, alguém pode criar um texto com lacunas sutis, que aos olhos de muitos leitores pode ser límpido e claro como um texto perfeito, não o sendo, porém, para um leitor com um senso crítico mais apurado.

Se alguém cria um texto com uma lacuna intencional, mas sutil, criada com o intuito de passar desapercebida, essa lacuna só será denunciada por um leitor que tenha a capacidade cognitiva de percebê-la.

Em um dado texto qualquer, pode haver denúncia de lacunas que não são reais, mas que o denunciante entende como uma lacuna, porque sua capacidade cognitiva assim a interpreta.

Então, em um texto razoavelmente complexo do ponto de vista estrutural, e tratando de um conteúdo razoavelmente complicado, há certamente lacunas lógicas em sua estrutura, lacunas reais de conteúdo, criadas intencionalmente pelo escritor, lacunas não intencionais de todo tipo, e por fim, certamente numerosas lacunas de entendimento, oriundas das mentes de seus muitos leitores, e que podem ser legítimas ou não, dependendo da fundamentação que esses leitores apresentem para confirmá-las.

Há muita gente hoje vivendo de escrever sobre denúncias de outros textos, em uma cruzada contra suposta manipulação de informação, suposta tentativa de controle de massa, vivendo em um esforço de tentar mostrar ao mundo que aquilo que é dito em geral pela mídia tradicional, pela internet ou outros canais, não é realmente a verdade, mostrar que o mundo é mais complexo do que a mídia quer que acreditemos, e que precisamos ver o outro lado da moeda, observar outros pontos de vista sobre o assunto que estamos lendo, para que formemos nossa opinião de maneira mais aprofundada do que formaríamos se apenas déssemos por verdadeiras as informações que a mídia em geral nos apresenta, sem questionamentos, sem crítica, sem ruminação, sem argumentação.

Um comentário pode parecer banal, mas pode ter embutido num mero ícone, num emoticon, num sorrisinho de um bonequinho, um significado que aponta para a dúvida, o ceticismo, a desconfiança ou para a denúncia direta. Comentários-denúncia podem fazer com que repensemos com mais cautela aquilo que estamos lendo.

Um comentário-crítica de um leitor A é uma forma de se preencher uma lacuna de entendimento tanto de A quanto de B, ainda que B tenha lido o texto criticado e não a tenha percebido. Passará, no entanto, a percebê-la, depois da denúncia de A. É assim que a coisa funciona na internet hoje em dia.

Assim, pergunto a mim mesmo: não sou eu também capaz de perceber lacunas de entendimento em tudo aquilo que é passado ao mundo pela Internet?

Obviamente que sim, como  qualquer outro cidadão do mundo, porque lacunas de entendimento não pressupõem que aquele que as têm precisem ser experts ou especialistas a respeito daquilo que é percebido como incompleto ou corrompido por essas lacunas.

A percepção de lacunas de entendimento depende apenas da experiência única de cada ser humano, de cada história de vida, de cada biografia única e específica. Logo, não há exigência de que alguém precise ser expert a respeito de uma dada informação para que possa relatar uma percepção de uma lacuna.

Posso apontar o dedo para um jornalista líder de audiência e dizer ao mundo simplesmente que o que esse cara disse é uma mentira, ou uma meia-verdade, ou uma tentativa absurda de manipulação, desde que eu perceba no que ele diz uma lacuna de entendimento que possa ser verbalizada, expressa em palavras e ser lida por pessoas normais.

Se os leitores de minha denúncia irão concordar comigo é outra história. Meu próprio comentário-denúncia pode ser entendido como incompleto, e nesse caso, serei também denunciado, mas esta é a natureza na comunicação humana. 

Por isso Mark Zuckerberg não permite que seu Facebook adote a opção de discordar de uma postagem, um "dislike", porque é exatamente a discordância ou concordância que gera sua enorme audiência. E é a discordância que não pode ser simplesmente "descurtida" que obriga um eventual leitor a se dar ao trabalho de tecer comentários-denúncia, num afã de tentar colocar um pouco de ordem e entendimento onde percebe erro, falha, tentativa de engodo, e por fim, caos informativo, uma ameaça à sua compreensão do mundo, e uma forma de altruísmo na busca de espalhar o alerta, ajudar os incautos, proteger as pessoas daquilo que é visto como um perigo, porque é assim que nossas mentes funcionam. Onde há caos, há perigo.

Você denunciaria ao mundo uma postagem na qual percebesse intimamente alguma lacuna de entendimento que julgasse grave a ponto de colocá-lo em risco, e a seus semelhantes?

A resposta parece óbvia, mas não para mim.

Ainda não vi qual possa ser o critério que eu deveria usar para selecionar qual lacuna merece ser denunciada publicamente, nem o que ganho com isso.

Raramente comento algo no Facebook.

Claro, vejo lacunas o tempo todo.

Eu vejo lacunas.

Isso lembra o filme "Sexto sentido", não lembra?

E se, numa sequência 1,2, 3, 4, X, eu acabar denunciando ao mundo que o X que falta é o 6, e não o cinco?

Onde fica a linha que separa uma lacuna de entendimento legítima da paranoia pura e simples?

Eis um bom motivo para não usar esse blog como um local para tecer comentários a respeito daquilo que é anunciado como notícia mundo afora: eu não sei o ponto onde deixo de falar sobre um problema real e passo a falar de algo que não existe.

Porque não podemos confiar na certeza de nossas lacunas, olhamos a notícia, depois os comentários e, quando percebemos que alguém disse em poucas palavras aquilo que nós mesmos poderíamos ter dito, então percebemos que não estamos sendo paranoicos, porque alguém mais pensa como nós, e acabamos dando um "like", curtimos o comentário que corroborou nossa visão pessoal daquilo que acabamos de ler.

Somos animais sociais e não queremos ser vistos como paranoicos.

O corajoso que primeiro denuncia leva, então, a fama por ter tido a coragem de expor-se sem medo de ser criticado publicamente como um paranoico. E as pessoas amam ser famosas, ainda que apenas por meio de um comentário espertamente curtido por dezenas de outros seus semelhantes, que concordam com sua opinião.

Zuckerberg sabe disso.

Esse conhecimento vale ouro.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Morrer é uma droga

Eu iniciei esse blog em parte como um meio de registrar minhas vivências, minhas histórias e meu passado, como disse aqui, quando falei que acho que morrer é uma droga, mas pior que morrer é morrer e ser esquecido. 

Morrer é uma droga. 

Esse é um tema que parece-me uma imensa cordilheira esmagadoramente intransponível. 

Sendo o que é, o tema desafia-me e recuso-me a fugir dele. 

Enfrentemo-lo então, e corajosamente. 

Sei que morrerei. 

Sei disso porque sou um humano e todos os humanos morrem. 

Só resta-me saber quando morrerei. 

A morte é um desafio porque é uma coisa certa. 

Pode-se viver bastante, mas não para sempre. 

Muitos questionam: por que alguém desejaria viver para sempre? 

Não sei, mas se tivesse que escolher hoje, agora, neste exato momento, se prefiro morrer ou continuar vivendo, digo enfaticamente que pretendo continuar vivendo, e tenho pensado assim desde que nasci. Estar vivo até hoje, até este exato momento, é prova de que desde então, desde que nasci, tenho preferido estar vivo do que estar morto. 

O que há na vida que faça com que prefiramos, nós, os vivos, a continuar vivos e não optarmos por deixar a vida e deixarmos de viver, optando pela não vida, optando pela morte, tirando de nós mesmos nossa força vital através do suicídio simples e puro? 

Uma resposta elementar para essa pergunta é que viver não é tão ruim, por um lado, e que estar morto parece ser algo insípido e tedioso, por outro. Viver não é fácil, mas a vida tem lá seus prazeres, e estar morto é simplesmente dormir sem sonhar, o que significa uma espécie de escuridão sem sentido e sem fim. Ora, somos seres de sensações, temos nossos sentidos quase sempre muito despertos, e eles nos mantém em ação, nos mantém curiosos. A morte, sendo o não-ser, é como antes de termos nascido. Ora, sabemos muito bem o que é o não-ser antes de termos nascido: é um nada sem sentido, um breu infinito. Logo, sendo a morte um não-ser como foi o antes de nascermos, não nos parece ruim, mas é algo indiferente e definitivamente muito menos interessante que o estar vivo e constantemente bombardeado de estímulos sensoriais e emocionais que nos fazem sentir a sensação de vivacidade que nos distingue das pedras e dos demais objetos inanimados. 

O suicídio seria, como muitos já disseram, a verdadeira questão na vida de um ser humano. Nascemos para a vida, mas somos capazes de escolher a morte. 

É certo que o suicídio é uma opção válida, mas, por outro lado, é uma decisão muitíssimo particular, e cada qual sabe quando viver ou morrer convém ou não. Não posso falar por outros. Quanto a mim, prefiro viver que optar pela morte. Essa opção é válida para o presente, e não sei se o futuro trará situações tais que me levem a questionar a validade de se continuar vivo. Sei que muitas pessoas preferiram a morte por suicídio por razões que são razoavelmente justificáveis. Não posso julgar seus argumentos. Só sei que é uma decisão dura, irreversível e definitiva e, no entanto, plausível e real, a qual espero não ter de tomar, mesmo nos momentos mais difíceis e desanimadores que o futuro possa me trazer. 

No entanto, a preferência pela vida é óbvia. Estar vivo permite grandes prazeres. Viver constitui-se em um evento mágico, cósmico, absolutamente maravilhoso. 

O que há de mágico em se acordar todos os dias e enfrentar a rotina de trabalho extenuante e sem significado, para apenas chegar à velhice e sofrer as dores da decadência física, psíquica e social? 

E, no entanto, bilhões de pessoas vivem esse modo de vida pretensamente tedioso e sem sentido e nem por isso acham que estar morto é uma opção melhor. São meros expectadores da vida, mas ainda assim, viver parece-lhes a melhor opção. O que há na vida insípida, ou ainda naquela vivida a duras penas, que mereça ser preservada? Ou ainda, indo mais longe, o que justifica uma vida marcada apenas pelo sofrimento, não sendo nem mesmo insípida ou tediosa, mas dolorosa, massacrante, destituída de toda razão ou sentido?  

Mas, mesmo as pessoas desafortunadas, as cronicamente doentes, as que nasceram escravas, as que somente vivenciaram sofrimento dia após dia, não optaram pelo suicídio como meio de fuga de suas agruras e desalentos. O que as moviam? O que as animava? Que esperanças tinham? 

No entanto, se elas não desistiram, por que deveria eu ou você desistir? 

Tolos, diria o suicida, sofrendo em vão e, no entanto, tão exemplares e comoventes em suas tenacidades. 

Que me vale mais: a esperteza lúcida do suicida ou a tenacidade tola dos sofredores sem esperança? 

Mas os sofredores não são tolos, nem o suicida é esperto. O suicida é um mero covarde, e o sofredor que mesmo morrendo sem ver um dia de alento, e ainda mais por isso, é o verdadeiro ser humano, digno de inveja e honrarias. A coragem é comovente, digna. A covardia é repulsiva, e desprezível. 

Poderia, no entanto, até tomar-me por tolo, se sofredor eu fosse, mas não é essa a minha realidade, felizmente, embora a vida nunca seja fácil, nem tem sido para mim. Tenho, apesar de não ser um sofredor crônico, e ainda em razão de minhas convicções, um forte compromisso para comigo mesmo de que lutarei com todas as minhas forças para que possa conduzir minha vida e auxiliar quem quer que eu possa ajudar a conduzir sua vida para uma existência a menos sofredora possível, para que eu e todos os mais seres viventes possam existir em uma experiência gratificante, merecedora de nossos maiores esforços, vidas vividas como promessas realizadas, esperanças rematadas, e não apenas sofrimento sem sentido, ou promessa de não sofrimento. Tenho para comigo o compromisso de que a vida não deve, não pode, não será sem sentido, embora possa não ser imune ao sofrimento. 

Mas Freud já disse que vivemos para o prazer, e fugimos do sofrimento, e mesmo um inseto não age diferentemente do mais sublime ser humano, e sou obrigado a concordar com Freud, e sublinhar firmemente que não sou melhor que um inseto quando diante do cosmo e da vida, e eu e os insetos compartilhamos orgulhosamente dessa tenacidade que não é vergonha, nem deveria ser motivo de vergonha para ninguém, essa tenacidade que faz do vivo o realmente vivo, essa tenacidade que refuta as leis rígidas do cosmo frio e insere movimento e deidade, insere magia onde antes só havia som e fúria sem sentido, insere consciência, magnificência e contemplação temerosa da parte vivente que contempla o todo inanimado. Não, não há nada errado em amar o prazer e fugir do sofrimento. Desconfie de quem disser algo que contrarie essa verdade universal. 

Balanço, por vezes, em minha determinação de viver sem sofrimento. Não sou uma rocha, mas esforço-me para me manter firme com esse meu compromisso com minha vida, e, dentro do possível, com a vida de todas as pessoas que eu possa ajudar ou influir. 

Não desistir. Resistir. Reerguer-se. Enfrentar problemas. Vasculhar todas as possibilidades de solução. Refutar a fraqueza. Contestar as ameaças. Combater os inimigos da vida. Distender a vida até seus limites extremos. Dar a chance ao surgimento da vida. Respeitar e reverenciar quem luta pela própria vida e pela vida alheia, humana ou não. Tombar somente no último suspiro. Sacrificar quase tudo pela manutenção da própria vida, e, em último caso, sacrificar a própria vida para que outras vidas possam continuar. 

Eu me pergunto: o que vale o sacrifício de minha própria vida? 

Pelo quê, ou por quê eu morreria? O que vale o meu próprio sacrifício? O que tem mais valor para mim que a minha própria vida? 

Morrer é uma droga, mas por vezes, precisa-se morrer. 

Diante da suposta grande questão do ser ou não-ser, percebo que há uma questão maior. 

Ante o altruísmo do herói, o que é a esperteza do suicida? 

E ainda assim, um herói é um suicida. 

É que o mero suicídio por tédio em se viver é muitíssimo diferente do sacrifício voluntário do herói, que assim o faz em nome de outros, e para poupar outros, ainda que apenas em esperança. O suicida é um mero egoísta. O herói é altruísta. 

Assim, concluo, há valores maiores que efetivamente levam um ser humano a abrir mão de sua própria existência, em casos extremos, e esses valores precisam ser pesados, conhecidos, questionados. 

Se você ama a vida, pelo que você morreria voluntariamente, e sem pestanejar? 

Eu não tenho uma resposta ainda para essa pergunta audaciosa, e certamente não sou o primeiro a formulá-la. No entanto, não a fiz somente agora. Tenho pensado nisso a longo tempo, e sei pelo que luto. 

Sei pelo que vivo, e sei pelo que vale a pena lutar, embora que não até a morte. 

Eu gostaria de ter meios, tempo e subsídios de outras mentes mais lúcidas que a minha para pensar sobre essa questão, mas não tenho. 

No entanto, não vou desistir. 

Nem vou morrer de tédio.  

Enfrentando os desafios do mundo

Sou uma pessoa comum, e como todas as pessoas comuns, tenho minha série interminável de problemas. Todos têm problemas, não é mesmo? 

No entanto, sei que meus problemas são também problemas comuns a milhões, bilhões de outras pessoas. Acordo pela manhã e sei que tenho que escovar os dentes, mas sei também que todos os 7 bilhões de seres humanos também precisam fazer a mesma coisa. Se não fizerem, terão de enfrentar o problema das cáries, e ninguém quer ter cárie. Então, bilhões de pessoas, todos os dias, assim que acordam, escovam pacientemente seus dentes, assim como eu faço, também pacientemente. 

Assim, escovar os dentes pela manhã é um problema pessoal, mas é também um problema mundial, e quem inventou cremes dentais, escovas, fios e demais apetrechos úteis à higiene bucal humana prestou um serviço inestimável ao mundo, à humanidade. 

Talvez não seja uma tarefa muito difícil pensar em um meio de como resolver o problema da escovação dentária, porque uma simples escova resolve o problema, e uma escova, ao menos aparentemente, não requer muita sofisticação e tecnologia. 

Quando penso em ideias que precisam ser pensadas, penso em problemas tais como o da escova dentária, mas penso também, somente como um exemplo, que talvez o problema maior não seja a criação de uma escova dentária, mas a criação do hábito da escovação, cuja inexistência transforma a escova em um mero objeto inútil. No mundo das ideias, é mais premente pensar em soluções para problemas universais que em soluções para problemas pessoais, assim como é mais importante pensar em soluções para problemas difíceis que soluções para problemas fáceis. 

Essas duas constatações merecem maiores e mais aprofundadas considerações. 

Vivo minha vida, vivo meu dia-a-dia como um ser humano comum, enfrentando os desafios corriqueiros que todas as pessoas enfrentam. Qual a razão de se viver uma vida atulhada de pequenos problemas que nunca são definitivamente resolvidos, nunca nos dão fôlego, nunca permitem que relaxemos e descansemos em relativa paz? 

É que viver é um enorme desafio, e se vivemos cheios de problemas, é certo que nossos problemas modernos são relativamente mais fáceis de serem equacionados que os problemas das pessoas que viveram décadas, séculos, milênios antes de nós. Escovar dentes é infinitamente menos problemático que enfrentar dentes cariados sem a menor chance de prevenção ou correção. Quantos milhares, milhões de pessoas morreram em decorrência de infecções oriundas de dentes cariados e infeccionados, sem o socorro da tecnologia moderna, ao longo dos séculos e séculos que já se passaram? 

Não posso deixar de sentir gratidão pelas pessoas que ajudaram a fazer deste mundo um mundo melhor em termos de qualidade da vida humana. No entanto, a mera gratidão, ou mero pagamento de um preço por um produto na prateleira de um supermercado não faz com que eu esteja quite com o mundo quanto aos benefícios que usufruo. 

É certo que contribuo com o mundo. Trabalho, e meu trabalho é uma contribuição que faço para sanar, ao menos parcial e pontualmente, alguns dos problemas que as pessoas enfrentam. Todo trabalho representa uma parcela no tremendo esforço que a humanidade realiza para manter-se íntegra e funcional. 

Mas será que fazemos o suficiente? 

Será que o mundo não apresenta problemas que vão além dos problemas pessoais triviais que podem ser resolvidos pela mera prestação de trabalhos ofertados por cidadãos especializados que necessariamente precisam trabalhar em troca de um salário para poder continuar vivendo? 

Na medida em que a ciência e a tecnologia avançam, os problemas pessoais vão se tornando cada vez menos graves, vão trivializando-se, enquanto que os problemas sociais vão se tornando cada vez mais graves, crônicos e complexos, desafiando a capacidade que os indivíduos têm de resolver problemas. 

Penso que às vezes agimos como crianças quando pensamos sobre os graves problemas dos quais tomamos conhecimento, mas que não são nossos problemas pessoais. Se sinto uma leve fisgada em um dente, então tenho um problema pessoal, e a fisgada foi em mim, e cabe somente a mim procurar um dentista e dar uma resposta para o problema. No entanto, quando se toma conhecimento mediante uma exótica tabela estatística qualquer de que há tantos milhões de pessoas com falta de acesso aos recursos elementares, até mesmo falta de acesso à água, necessários ao saneamento dentário, então esse não é um problema meu, não me afeta diretamente, não dói nem dá fisgadas em meus nervos e, portanto, não é um problema urgente. Logo, não posso fazer nada. Logo, não preciso me preocupar. Mas, sendo um problema, ele será atacado por quem tem o dever de atacá-lo, e quem tem esse dever são as instituições, mas as instituições são construções virtuais, intangíveis, descentralizadas, dispersas pelo planeta, inacessíveis, burocraticamente direcionadas por gente que não fazemos ideia de quem seja e, bem, logo esquecemos as estatísticas e seguimos com nossa vida, preocupados com o que devemos fazer nos próximos dias, nas próximas horas, nos próximos minutos. Não cabe a nós resolvermos os problemas do mundo. 

No entanto, penso que podemos fazer mais do simplesmente nos preocuparmos com nossos próprios problemas pessoais. 

Penso que é uma forma de altruísmo dispender meu tempo pensando em um problema que vai além do meu mero eu e abranja o todo, assim como penso que é uma forma de gratidão pelas benesses que usufruo fazendo tão pouco pelo mundo quando abro mão de algumas horas de lazer egoísta e me debruço sobre questões que são complexas, desafiadoras, assustadoras e aparente inexpugnáveis. Gosto de pensar que não sou capaz de resolver os problemas do mundo nas minhas horas de folga, mas que não me curvo diante deles, porque sou mais que uma mera mão-de-obra que troca suas horas de trabalho pelo direito de receber um salário no final do mês e viver sem um desafio maior que o meu próprio umbigo.  

Confesso que invejo as pessoas que não se curvaram diante dos grandes problemas. Confesso que admiro aqueles que viveram antes de mim e que poderiam ter vivido suas vidas mansamente, mas que preferiram desafiar algo maior que suas existências. 

Quando me recuso a abaixar a cabeça diante dos desafios do mundo, não quero ser nenhum herói. Quero ser aquilo que de mais autêntico possa ser um ser humano. Um animal inteligente, perseverante, incansável, imbatível, destinado a preservar a vida em todas as suas mais variadas manifestações e ir além, explorando as possibilidades do universo e da existência da consciência.  

Sou a gloriosa, a miraculosa parte consciente do universo, e como tal, recuso-me com todas as minhas forças, e veementemente, a deixar de sê-lo. 

A vontade de não ser pobre

Não sei quanto ao resto do mundo, mas quanto a mim, chegou um dia em que tive a nítida convicção de que era pobre, e de que a pobreza era uma espécie de desgraça familiar muito difícil de ser erradicada.

Não é difícil para um adulto se saber pobre, mas não sei se uma criança tem a mesma facilidade de percepção que tem um adulto quanto à sua verdadeira situação financeira.

Creio que a maneira pela qual a pobreza se revela dá-se por meio da comparação social.

Não se pode dizer que pobres vivendo entres outros pobres não sofram da mesma maneira as agruras da pobreza, mas certamente o impacto emocional de se sentir pobre é muitíssimo maior quando se é pobre e se está diante da riqueza inacessível de outras pessoas. Em geral, a mera observação das diferenças óbvias é dolorosa e repulsiva. Diante da desigualdade, o pobre passa a abominar a pobreza.

A vontade de não mais ser pobre precede então a vontade ativa de se ser uma pessoa rica.

Um pobre sabe que entre sua atual pobreza e uma eventual futura riqueza, há um abismo que é muito difícil de ser transposto, e que ele não faz a mínima ideia de como fazê-lo, mas ele sabe também que há no caminho entre esses dois extremos um estágio onde não se é ainda rico, mas não se é mais tão pobre quando um dia já se foi. Esse ponto intermediário é o ponto que se visa quando se decide, ou ao menos se toma consciência do desejo de não ser mais o pobre que ainda se é.

Essa tomada de consciência ocorreu comigo em um dado momento de minha adolescência, quando tinha entre dezessete e dezoito anos, e me levou a uma triste depressão.

A vontade de não ser pobre é tão urgente, tão premente que em geral as pessoas são coagidas a usar dos meios mais imediatos que se tem em mãos para começar a sair do estado em que se encontram para um estado menos doloroso, mais esperançoso, possível de ser alcançado em um futuro o mais próximo possível. Não é um estado de riqueza, mas um estado suportável, promissor, certamente transitório no caminho da verdadeira riqueza, mas já bastante acolhedor.

Daí que cada qual toma daquilo que lhe parece mais frutífero de sua parte. O filho do padeiro vai ser padeiro; o jovem amante do futebol vai em busca de se tornar um profissional; a moça sem perspectivas de estudo procura o casamento mais adequado; o trabalhador precoce dá continuidade ao trabalho que já vinha fazendo desde pequeno; o trabalhador de rendimentos instáveis decorrentes de empregos temporários passa a buscar contatos com ex-patrões em busca de algo mais duradouro, um rendimento com carteira profissional assinada por uma empresa, de forma a ter um salário mensal regular; o jovem que adora viajar vai tirar sua carteira de motorista de caminhão, e sai pelo mundo como auxiliar de carga numa transportadora qualquer; o filho do lavrador passa a assumir as tarefas do pai, amplia a clientela, melhora os métodos de produção da roça, incrementa os rendimentos aos poucos, repensa as possibilidades do negócio com o pai agora como apoio.

De minha parte, fiz o que podia fazer na época: retornei a um empego que não me pareceu promissor em uma primeira experiência, mas que era melhor que nada, que a vergonha, que a miséria.

Se é possível viver sem comparações, ou se é possível não dar importância às diferenças decorrentes dessas comparações, é coisa que falaremos mais tranquilamente no futuro.

O fato é que há um estágio na vida em que não mais podemos ignorar nossa condição social diante das enormes diferenças de vida que decorrem da riqueza e da pobreza. Ao tomarmos eventualmente conhecimento de que somos pobres, e de que a pobreza não é uma coisa boa, somos motivados a tomar atitudes urgentes no sentido de minimizar esse problema.

Em geral, é isso que acontece com quem se percebe pobre.

Em geral.

Nem sempre.

Há casos em que alguém pode persuadir-se, ou ser persuadido, de que a pobreza não é uma coisa ruim.

Então, entramos em um terreno espinhoso.

Não nos furtaremos de enfrentar esses espinhos, mas não agora.

O trabalho para os outros

Pedir dinheiro é um ato aceitável quando o pedido parte de uma criança e é endereçado a um adulto, mas em determinado momento há um limite.

Não há lei proibindo que um adulto peça dinheiro a outro adulto, mas há uma regra social que condena esse comportamento. A regra pressupõe que um adulto deve ser capaz de ganhar seu próprio dinheiro por meio de trabalho, e não mediante o uso de processos onde não haja uma contrapartida de sua parte.

Assim, chega uma época da vida de uma pessoa em que ela começa a ser estimulada a tentar deixar de aceitar a ajuda dos adultos e começa a ser estimulada a procurar ganhar seus próprio dinheiro por meio de algum tipo de trabalho.

Evidentemente, um adolescente não possui capacidade de ganhar muito dinheiro, e então, acaba aceitando pequenos empregos temporários, acaba ajudando os pais em casa em alguma tarefa remunerada, começa a aprender os rudimentos do comércio com outras pessoas e começa a perceber os limites que a vida impõe quando não se dispõe de uma fonte de renda previsível e segura.

Quando éramos pequenos, minha mãe sempre se esforçava para que aprendêssemos algum tipo de tarefa que pudesse render algum dinheiro. Éramos pobres, meu pai não tinha renda regular, vivíamos endividados, dependendo de crédito de pessoas generosas, e minha mãe fazia o que podia para complementar o rendimento familiar.

Assim, se ela precisasse fazer doces para vender para algum conhecido ou para algum comércio, ela pedia que a ajudássemos naquilo que fosse possível.

Se ela precisasse tecer meias de lã para vender às lojas da cidade na época do inverno, ela dava-nos pequenas tarefas que não exigissem grande habilidade, para que ela pudesse fazer as coisas mais difíceis, e assim, obter maior rendimento e produtividade.

Evidentemente, quase nunca recebíamos nada pelos nossos esforços, porque o dinheiro ganho com o trabalho de todos era destinado para o pagamento das despesas da família como um todo, e quase nunca sobrava nada para se distribuir para as crianças como forma de recompensa pessoal pelo esforço dispendido.

Mas, de alguma forma, sabíamos que o dinheiro ganho servia para pagar coisas que nós mesmos consumíamos. O fato de não receber nenhum benefício pessoal em forma de notas ou moedas era doloroso, mas eu aceitava o trabalho como uma forma de contribuição por ter o que comer em casa. Nunca negaram que fizéssemos compras no comércio local usando o crédito que meus pais tinham. Eu sabia disso, e trabalhar sem receber era o preço que tínhamos de pagar para obter esse crédito. O que eu não recebia pessoalmente ia para pagar as contas nesses estabelecimentos generosos, e por isso, eu não me rebelava com essa forma de trabalho.

Minha mãe então começou a perceber que crianças são imediatistas, e que não estão dispostas a trabalhar sem ver o resultado prático de seus esforços revertido em forma de dinheiro vivo. Crianças não entendem o conceito de crédito.

Ao menos meus irmãos não entenderam, ou fingiam não entender, porque logo não queriam mais ajudar nessas pequenas tarefas rotineiras e enfadonhas que tínhamos de fazer.

Minha mãe resolveu usar uma técnica nova: passou a nos pagar pequenas quantias por determinados serviços prestados. Lembro-me, apenas como exemplo, que ela estaria disposta a pagar cinquenta centavos do dinheiro da época, o Cruzeiro, por volta de 1981, para que lavássemos toda a louça da pia, ou então realizássemos algum outro serviço doméstico qualquer que poupasse seu tempo e sua energia, de forma a nos estimular a trabalhar sistematicamente, para que juntássemos dinheiro, e ela tivesse tempo livre para fazer coisas que pudessem render algum dinheiro para a família, como montar flores de pano e arame, ou cuidar de hortas, ou bordar, ou fazer bolos ou tocas ou luvas para os motoqueiros da cidade.

Eu então aceitei a ideia de trabalhar para minha própria mãe. Meus irmãos não gostaram da ideia e não entraram no trabalho.

Em pouco tempo eu tinha enchido um cofrinho de moedas ganhas com meu próprio esforço, ainda que pagas pela minha própria mãe, o que significava que não nos tornamos mais ricos nem mais pobres com o processo, mas, de qualquer maneira, eu trabalhei diligente e sistematicamente por muitos dias  em troca de cada moeda recebida.

Por fim, um dia alguém achou o esconderijo de meu cofre e o esvaziou.

Não sei quem foi, mas chorei copiosamente diante de meu segundo revém diante da tragédia do roubo.

Novamente, não ficamos mais pobres com isso, porque certamente foi alguém da família que ficou com as moedas, e usou o dinheiro de forma que bem entendeu, e a riqueza continuou na família. 

Apenas meu trabalho foi em vão, de meu ponto de vista pessoal.

O roubo fez, e ainda faz, o mundo girar.

terça-feira, 31 de março de 2015

O bom princípio

A cada dia primeiro de cada ano nós, crianças, éramos instados por nossos pais e demais adultos próximos a sair pela vizinhança, batendo nas portas, de casa em casa, desejando "bom princípio de ano novo" a seus moradores.

Formávamos grupinhos e éramos recebidos pelos donos das casas, que nos ofereciam alguma guloseima, alguma comida da ceia de ano novo, e por fim, davam-nos algum dinheiro.

Cantávamos uma musiquinha medonha, mal-educada, que não vou reproduzir aqui por educação, mas que era bastante engraçada, apesar de inadequada para crianças.

O bom princípio era uma forma de troca. Crianças ofertavam aos adultos os votos de esperança por um ano novo bom, ao menos em seu princípio, e esperavam receber em troca alguma recompensa, preferencialmente dinheiro.

Mas, o dinheiro é um bem escasso e por isso tínhamos de acordar as pessoas bem cedo, porque muitas crianças iriam bater naquela mesma casa e em um determinado momento do dia, o dono diria que sentia-se muito agradecido pela lisonja da criança, mas que não tinha mais dinheiro a dar, porque já tinha doado tudo que tinha para crianças que o visitaram mais cedo, pedindo igualmente dinheiro. O adulto lamentaria, mas colocaria a culpa na própria criança, que não foi precavida e previdente o suficiente para ter acordado cedo e tomado a dianteira na concorrência com outros garotos. Essa era a mecânica do jogo.

Assim, ano após ano, íamos, nós, crianças, adquirindo mais e mais experiência na arte de pedir dinheiro aos adultos no começo de cada ano, de forma que ficávamos ansiosos por contabilizar nossos ganhos, e fazíamos nossos planos de como gastá-los. Evidentemente, alguns ganhavam mais que outros. Alguém que tivesse, por exemplo, um padrinho ou parente bem de situação, poderia receber um "bom princípio" mais generoso que outros. Ainda, quem fosse mais ambicioso e experiente poderia acordar bem cedo, visitar mais casas e contatar mais pessoas adultas conhecidas que outros mais preguiçosos. Era uma aventura financeira.

Eu sabia que era a forma mais importante de ganhar dinheiro que eu conhecia, porque meus pais eram pobres e não havia algo como uma mesada ou um cofrinho onde eu pudesse receber deles algum dinheiro regularmente para guardar ou gastar como bem entendesse. Ou eu aproveitava o início do ano, ou não teria dinheiro algum por um longo tempo.

Isso ocorreu em um intervalo de minha vida que começou quando eu tinha por volta de uns quatro anos e foi até uns doze anos. A tradição dizia tacitamente que os adultos só deveriam dar dinheiro para crianças pequenas, que ainda não trabalhassem ou não pudessem trabalhar. Alguém com treze ou quatorze anos já deveria parar de receber essas pequenas recompensas, porque deveria já estar pensando em conseguir dinheiro trabalhando e não mais pedindo. Já os mais novos eram em geral mais bem presenteados. A ideia entre os adultos era mais o uso pedagógico do dinheiro com forma de estímulo à amizade e ao bom relacionamento como forma de se obter vantagens financeiras, assim como um meio de se aprender a guardar algo precioso e escasso. Estimulava também a criança a se esforçar em um processo de concorrência bastante desafiador, exigindo dela um trabalho de planejamento pouco comum na rotina do dia-a-dia.

Não sei se essa tradição perdura até hoje em dia, mas em minha época, foi algo que considero importante.

Juntei dinheiro ao longo do tempo.

O dinheirinho que ganhava nessa época eu costumava guardar em um pacote de notas enroladas em elástico, que guardava no bolso interno do paletó de meu finado avô, que ficava dependurado no guarda-roupas do quarto de meus pais, onde meus irmãos não tinham acesso, e era vigiado pela minha mãe, que aprovava minha prática de economia, e cuidava para que meus irmãos menos disciplinados não me roubassem.

Mas foi em vão.

Um dia, o pacote de dinheiro sumiu. Ninguém assumiu a culpa, chorei bastante e fui consolado pela minha mãe, mas o estrago estava parcialmente feito.

Lição importante aprendida nesse processo: mesmo o dinheiro bem guardado pode ser roubado, ainda que sejamos dignos dele, porque sempre haverá alguém que se sentirá no direito de achar que precisa mais do nosso dinheiro que nós mesmos, porque, afinal, se estamos economizando e guardando, é porque não estamos precisando dele, e portanto, esse alguém merece mais nosso dinheiro que nós mesmos. E então somos roubados, embora que o ladrão ache que esteja apenas equilibrando uma equação que precisa de ajustes, e por isso, não se sinta um ladrão, mas na verdade um grande justiceiro.

O roubo fez e faz o mundo girar.

domingo, 29 de março de 2015

O papel precioso

Crianças não costumam ganhar seu próprio dinheiro. Ao menos as que não são obrigadas a trabalhar muito cedo na vida por imposição dos pais, diante de necessidades extremas.

Em geral elas ganham dinheiro dos adultos.

Crianças naturalmente acostumam-se a ganhar quase tudo dos adultos. Isso faz parte da vida e elas não se importam com isso.

Mas, um dia ganham dinheiro.

Dinheiro não é uma coisa obviamente útil para uma criança, mas ela certamente já sabe que as coisas úteis só podem ser obtidas por meio de dinheiro.

Elas não sabem como os adultos fazem para obter o dinheiro. Elas simplesmente aprendem que dinheiro tem valor e que não pode ser perdido ou destruído, porque se o for, algo mais se perde junto. Elas sabem que perdendo dinheiro, perde-se a oportunidade de trocá-lo futuramente por algo útil, como um brinquedo ou um lanche, um sorvete ou um objeto desejado qualquer.

Eu sempre soube que dinheiro, quando não trocado por alguma coisa de valor, deve ficar muito bem guardado.

Lembra alguma coisa como um anel de ouro doentiamente cobiçado por um ser feio chamado Golum, em um conto famoso nos livros e nas telas dos cinemas?

Não sei, mas a semelhança é óbvia.

Não sabemos, quando crianças, como ganhar dinheiro. Mas, como sabemos que os adultos o têm, podemos dar um jeito de pedir dinheiro a eles, de uma maneira ou de outra.

Não me lembro de ter ganho dinheiro de meus pais quando bem novo, mas lembro-me de um tipo de jogo infantil que ocorria, e talvez ainda ocorra, no primeiro dia de cada novo ano, o chamado "Bom Princípio de Ano Novo".

Era comum no vilarejo onde nasci e cresci, e era uma forma de educação financeira para as crianças em geral, porque quase todas elas participavam dessa brincadeira ano após ano, com o consentimento dos adultos, que as estimulavam.

Falarei mais sobre o "Bom Princípio" em breve.

Por enquanto, quero deixar claro que as crianças não só aprendem cedo que dinheiro tem valor, mas que dinheiro pode ser conseguido junto aos adultos mediante o simples ato de pedir. Mais: crianças sabem que dinheiro representa alguma coisa de valor útil no futuro. Logo, elas sabem que precisam guardar bem seu dinheiro ganho dos adultos. E elas são boas nisso.

Acumulação de recursos no presente para uso futuro.

Essa é a mensagem.

Isso soa como economia teórica pura?

Soa. E é.

sábado, 28 de março de 2015

Uma nota amarrotada

Lembro-me como se fosse hoje: morávamos num pequeno vilarejo, em uma casinha simples. As ruas ainda não eram asfaltadas e o ano era 1973. Sei disso porque nesse ano meu avô paterno morreu.

Mas, nesse dia, meu avô ainda estava vivo.

Ele tinha 79 anos, tinha os cabelos brancos e um bigodinho fino. Gostava de passarinhos e morava conosco, quer dizer, com meus pais e nós, três filhos pequenos. Ou seria o contrário: nos é que morávamos com ele? Não sei. Famílias pobres costumam dividir suas casas até que possam melhorar de vida e terem seus próprios espaços.

Não importa.

Meu avô tinha o hábito de tomar uma dose diária de aguardente, pinga, todo santo dia, antes do seu almoço.

Ele e todas as pessoas que possuem esse hábito alegam que um aperitivo desses ajuda a abrir o apetite.

Meu avô no entanto não dispunha de pinga em casa. Poderia ter uma garrafa em casa e se poupar de ter de comprar na rua uma dose de aguardente todos os dias, mas não tinha.

Escrevendo agora, me ocorre que certamente temia que meu pai, na época um jovem com seus 28 anos, também viesse a beber. Meu pai era já um grande bebedor, mas creio que não um alcoólatra ainda. Creio que por isso meu avô preferisse comprar sua dose todos os dias no comércio do vilarejo mais para evitar um problema maior com meu pai, posso deduzir agora.

O bar mais próximo ficava a dois quarteirões de casa.

Eu era pequeno. Tinha meus três anos de idade. Nasci em 1970. Sei que era pequeno demais para sair fazendo compras pelas ruas, mas nós vivíamos em um vilarejo tão pacato e seguro que certamente não viram problema em me mandarem comprar uma dose de aguardente para meu avô em um dia desses qualquer.

Hoje seria um crime, mas não na época. Uma criança de três anos de idade ir sozinha pelas ruas até um bar e ainda por cima sair dele com um copo cheio de aguardente hoje representa um absurdo múltiplo, inadmissível em todos os aspectos, mas foi exatamente isso que ocorreu em 1973.

Meu avô pediu que eu abrisse a mão direita, perguntou se eu sabia o caminho do bar. Eu confirmei, porque sabia onde ficava o bar. Afinal, era bem perto. Então ele enfiou em minha mão uma ou duas notas de dinheiro todo amarrotado, e pediu que eu segurasse firme e não o soltasse de maneira alguma, e que o desse ao dono do bar em troca do copo de aguardente.

Eu tomei do dinheiro, apertei-o firme na mão, tomei o copo vazio e fui sozinho até o bar.

Entreguei o dinheiro e recebi o copo com a dose habitual, meio copo de aguardente. Retornei para casa com o líquido intacto.

Concluí assim minha primeira transação financeira na vida.

Alguém coloca em nossas mãos um pedaço de papel amarrotado e diz que aquilo vale alguma outra coisa. Não podemos perder esse pedaço de papel porque sem ele não podemos trocá-lo por essa outra coisa. Levamos um pedaço de papel que alguém aceita em troca de um pouco de um líquido que parece água, mas não é água.

Curiosamente, a partir dessa primeira experiência, não precisaram mais me dizer que dinheiro era um pedaço de papel que não podia ser perdido, e que ele podia ser trocado por outras coisas. 

Veja: mesmo uma criança pode depreender de uma simples experiência que dinheiro é algo de valor.

Por fim, ao longo do tempo, não me recordo quando, passei a saber que dinheiro também pode ter a forma de moedas, pedacinhos de metal que não são parecidos com papel, mas que servem para se trocar por coisas do mesmo jeito.

Eu não sabia contar, nem ler o valor dos números nas notas e nas moedas, mas é certo que quando comecei a ser alfabetizado, aos seis anos, eu já sabia muito bem como cuidar de meu dinheirinho.

Meu dinheirinho?

Calma.

Tudo veio bem depois.

O que veio primeiro foi uma nota amarrotada enfiada em minhas mãos sob a ordem de não ser jogada fora.

Eis a primeira lição, inesquecível.

sexta-feira, 27 de março de 2015

O primeiro contato

O mundo do dinheiro é estranho porque não é um mundo natural, como o mundo das coisas que sempre existiram. Quer dizer, o dinheiro é uma criação humana, e tem uma longa história entre seu surgimento embrionário e seu atual status no mundo moderno.

Assim, uma pessoa qualquer não aprende sobre ele de modo que ele seja uma coisa natural no sentido de que todos os seres humanos normais em geral aprendem.

Deixe-me ser mais claro.

A linguagem humana é algo complexo, é uma criação humana também, afinal os animais não falam, e é socialmente aprendida, variando de cultura para cultura, mas nem por isso deixa de ser quase que automaticamente aprendida pela maioria dos seres humanos, porque é essencial à espécie e sua sobrevivência. 

O dinheiro hoje é talvez tão importante quanto a linguagem. É complexo, é uma criação humana, afinal os animais não usam dinheiro para nada, ele varia de cultura para cultura, porque ainda não temos uma moeda universal, mas as pessoas não aprendem sobre ele da maneira que aprendem a falar. E ainda que os pais tentassem ensinar o que sabem sobre dinheiro a seus filhos enquanto eles ainda são muito pequenos, provavelmente seria uma tarefa inútil, porque a humanidade ainda não sabe como lidar com sua criação, nem sabe como ele funciona realmente, por mais que o tenha estudado e usado.

Essa afirmação é audaciosa.

Como posso afirmar que não podemos ensinar sobre dinheiro porque não sabemos muito sobre dinheiro?

Essa afirmação é fundamentada na evidência ampla de que a pobreza persiste em quase todas as partes do mundo, a despeito de enormes esforços bem intencionados que são feitos no sentido de erradicá-la.

Não falarei muito sobre a pobreza agora, mas falarei mais sobre ela no futuro.

O que quero dizer é que sabemos pouco sobre o dinheiro, ainda que possamos ter contato com ele desde a mais tenra infância.

De fato, o dinheiro está diretamente relacionado com nossa infância, quando não com nossa existência como um todo, dado que em geral são as condições financeiras dos pais que definem a possibilidade de se ter filhos ou não.

Eu, de minha parte, confesso não saber tudo o que gostaria de saber a respeito do assunto, embora tenha me empenhado.

Confesso ainda que fui muito mal orientado a esse respeito em minha infância e adolescência.

Mas, curiosamente, tive contato com o dinheiro bem cedo. Consigo recordar-me de experiências que tive envolvendo ao menos a manipulação de notas e moedas, embora, é certo, não soubesse muito bem o que significavam, nem por que tinham a importância que os adultos davam a elas e nem como surgiam e desapareciam sem deixar rastros.

Acho que qualquer um é capaz de fazer um esforço de memória na busca de recobrar, se não a primeira vez, pelo menos algumas das primeiras experiências que teve com o dinheiro em sua própria infância.

Você ganhou um cofrinho em forma de porquinho? Teve algum desejo recusado sob a alegação de que "não temos dinheiro para isso"? Ganhou algumas moedas no aniversário de quatro anos? Rasgou uma nota da carteira do papai e levou uma bronca sem saber porquê, até que lhe explicaram que aquele pedaço de papel colorido não era um pedaço de papel qualquer, como uma capa de revista ou uma revistinha de desenho?

Esses primeiros contatos foram reais, tiveram o dinheiro como ponto em comum, mas eles vieram revestidos de muito poucas explicações.

Ao longo do tempo, passei a associar dinheiro a restrições, e depois a trabalho, e por fim a miséria e humilhações, mas então estou me adiantando demais. 

Eu preciso falar das primeiras experiências antes.

Elas foram experiências pedagógicas, ainda que, sob certo ponto de vista, possamos ter sido ensinados de maneira errada e termos aprendido mais falsidades que propriamente verdades.

Podemos falar em uma pedagogia do dinheiro?

Podemos. E falaremos sobre ela.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Coisas estranhas

É do dramaturgo Públio Terêncio Afro a frase:

"Sou um homem: nada do que é humano me é estranho"

Mas as coisas não são bem assim na vida real.

O comportamento humano nos causa estranheza mesmo quando estamos entre pessoas socialmente próximas a nós. Somos ainda mais surpreendidos quando diante de culturas muito diferentes das nossas e é lugar comum se dizer que um simples gesto de um povo pode representar uma ofensa para um dado outro povo, como se além da língua, que quase nunca é comum, ainda vivêssemos uma Babel de costumes e valores, o que certamente é verdade diante de tanta gente vivendo em lugares tão diferentes e longínquos.

Mas, quando o assunto é dinheiro, a frase de Terêncio deveria ser um dever. Parafraseando-o, poderíamos dizer, deveríamos dizer que "sou um homem, logo, nada do que é econômico me é estranho".

Essa afirmação está muito longe de ser verdade.

O mundo do dinheiro é estranho mesmo para pessoas bem intencionadas, dispostas a desbravar suas sutilezas e mistérios, e também o é para aqueles que, ignorando os mistérios, buscam simplesmente ganhá-lo por meio de diferentes artimanhas e subterfúgios, quando não simplesmente trabalhando honestamente como empregado de alguém ou de algo.

Certamente o dinheiro não é a única coisa estranha no mundo.

A teoria da relatividade é estranha e dizem que poucas pessoas a entendem de fato. Muitos dizem conhecê-la, mas isso não passaria de uma mera crença. A diferença é que uma pessoa pode dizer que conhece os segredos do dinheiro, mas ao dizer isso, pode ser facilmente desmascarada, contanto que não o tenha em grande quantidade, conseguido pelos seus próprios méritos.

Dizem que quem realmente conhece os segredos do dinheiro não se dispõe a dizê-los por nada neste mundo, exceto por mais dinheiro.

É como a lenda da galinha dos ovos de ouro, no entanto: quem a tem não cometeria a idiotice de matá-la para ter mais ovos, sob o risco de ficar sem nada.

Assim, as pessoas observam, ansiosas, os menores movimentos dos ricos, à espera de que cometam o deslize de revelarem seus segredos inadvertidamente, como um ato falho decorrente de peso na consciência ou outro deslize psicológico qualquer.

Daí que temos dezenas de livros sobre Warren Buffet, George Soros, Bill Gates e outros milionários mais. O segredo revelado é um convite sedutor.

Adianto que não detenho esse segredo.

Afirmo que podemos chegar a ele juntos, aqui, neste blog.

Se isso acontecer, fique quieto. Cale-se quanto ao que vier a saber.

Não mate sua galinha dos ovos de ouro.

Entendendo o dinheiro

Evidentemente, o dinheiro é um alvo sedutor, mas não é fácil de ser ganho. Ao menos eu acho difícil ganhar dinheiro.

Acho também difícil entender como se ganha dinheiro.

Sou cético com relação a quase tudo que se relaciona a economia e finanças, e quero usar esse blog para tornar públicas minhas ideias, debater o problema com quem quer que queira debatê-las, e se possível, chegar a um caminho que me conduza à riqueza, ampla e farta.

É um objetivo ambicioso, mas desafiador.

Eu vou começar pelo começo, e se esse começo parecer tolice, não se iluda.

Nada que se relaciona a dinheiro é simples ou tolo.

Nada.

Se você acha que entende de dinheiro, mas não é milionário, então está enganado.

É cedo para se desistir

O objetivo deste blog deveria ser, sem sombra de dúvida, ganhar muito dinheiro.

Se não fosse possível ganhar muito dinheiro com ele, que se ganhasse ao menos algum dinheiro.

Por fim, se ele não rendesse dinheiro nenhum, que servisse ao menos para entender como se ganha, ou como não se ganha dinheiro nesse nosso mundo complexo e imprevisível, onde sabe-se muito, mas não tudo.

Ainda é cedo para desistirmos.

Sobre os ombros dos mais fracos

Eu gostaria de escrever mais sobre dinheiro, finanças, negócios, economia.

Esses assuntos fazem parte de minha vida e eu penso muito sobre eles.

Eu até tentei escrever sobre isso em um outro blog, mas, é muito difícil escrever um único blog. Dois, é quase impossível. Então, o pouco que escrevi sobre os temas acima eu irei publicar aqui, que é onde as coisas acabam de fato acontecendo.

O blog se chamava "Sobre os ombros dos mais fracos: porque é difícil ficar rico. Filosofando sobre negócios..."

Publiquei nove textos, deixei seis rascunhados, e parei, porque dá muito trabalho manter blogs em geral. Percebi que nem escrevia aqui, nem lá. Decidi que é melhor manter este aqui e abandonar o outro, que certamente não teria futuro.

Segue-se os nove textos, com pequenas adaptações...

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

A borboleta, o mercenário e a noite

Quando nasce uma borboleta? Ela nasce quando sua mãe a põe em forma de ovo ou somente quando rompe seu casulo de seda e estende suas asas para o ar que a acolherá para sempre, enquanto viver?

Um ovo de borboleta é o mesmo que uma borboleta?

Parece que não.

Parece que a existência de uma borboleta se dá quando ela passa a ser aquilo que em geral o são as borboletas: insetos com pares de asas das mais variadas formas e coloridas dos mais variados matizes, que voam belamente entre flores e folhas, e que nos encantam, inofensivas e frágeis.

Uma borboleta não se confunde com um ovo ou com uma lagarta.

E quando nasce um homem?

Ele nasce quando vem ao mundo, no seu nascimento formal, quando deixa a placenta de sua mãe no hospital, ou somente nasce quando se faz senhor da cultura de um povo, quando sai da puberdade e se adentra na sociedade dita produtiva e civilizada?

Mas tenho pensado que há algo no homem que lhe é único assim como há coisas nas borboletas que as fazem únicas e diferentes das larvas e dos ovos, que as precedem.

Em que um homem se diferencia de um chimpanzé ou de um gorila, ou mesmo de uma vaca em um pasto de um campo qualquer?

Muitos dirão que somos superiores, e de fato em certo sentido somos. Mas há um sentido em que somos apenas um pouco diferentes desses animais.

Do ponto de vista biológico, somos muitos semelhantes. Somos apenas mais uma variedade de primatas, e isso não significa vantagem, superioridade ou um grande abismo nos separando.

Do ponto de vista antropológico, somos realmente muito diferentes, porque temos cultura, e acumulamos conhecimento adquirido do passado por nossos ancestrais, o que nos ajuda a viver melhor do que viveríamos sem esse conhecimento.

Mas, animais não vivem ou mesmo pensam?

Não sabemos se pensam, mas vivem muito bem sem cultura. O que é a cultura exatamente?

Não precisamos definir cultura. Basta que tenhamos um exemplo para podermos ver as vantagens dela em nossas vidas: quando faço uma salada de alface, uso muita tecnologia até colocar a primeira folha em minha boca. Um macaco também pode comer uma folha de alface tal qual eu como, mas ele não tem como chegar à salada como nós humanos chegamos. Eles, os macacos, não se aprimoram em virtude do esforço de pensar sobre problemas que enfrentam. Se enfrentam problemas, possuem capacidade limitada de solucioná-los da maneira que nós humanos fazemos.

Mas, quando digo "nós, humanos" estou sendo generoso com a espécie. Na prática, a grande massa de seres humanos não soluciona quase nada. A grande maioria dos seres humanos simplesmente desfruta de soluções já disponibilizadas por um pequeno grupo de outros seres humanos que se deram ao trabalho real de enfrentar o problema e dar uma solução.

Todos os seres humanos são dotados de cérebros capazes de resolver problemas quase infinitos, mas em geral raramente se dão ao trabalho de fazê-lo.

O psicólogo austríaco Sigmund Freud analisou essa característica humana para evitar problemas e seguir o caminho mais fácil. Ele denominou essa tendência de Princípio do Prazer. Esse nome por si só já diz quase tudo. E mais: é um princípio quase universal na natureza, dentre os seres vivos.

Ninguém quer enfrentar problemas. Por que enfrentar o difícil se podemos ter o que desejamos pelo caminho mais fácil?

Assim, ao longo dos séculos, algumas centenas de seres humanos foram criando soluções para problemas humanos gerais de maneira que hoje a grande maioria das pessoas encontra-se em um modo de vida tal que podemos compará-lo ao da larva da borboleta. Elas vivem apenas como se fossem seres em um estágio para algo mais avançado, uma etapa não tão glamourosa quando ao da borboleta, mas necessária e real.

A maioria dos problemas humanos só pode ser solucionada mediante cooperação. Quase não há necessidade moderna que possa ser solucionada pelo próprio indivíduo. Fazemos as coisas das quais precisamos por meio de empreendimentos coletivos. Há organizações para tudo, e quase nada é feito fora de organizações.

Nas organizações, há a famosa "especialização do trabalho", tão bem relatada pelo economista Adam Smith, o pioneiro da ciência econômica. Nas organizações, os homens fazem apenas aquilo que precisa ser feito, e nada mais. E não precisa aprender mais nada além do que já sabe. Ele passa a ser uma peça de uma engrenagem.

É o homem livre para não ser uma peça dessa enorme maquinaria fria e indiferente à sua individualidade e sensibilidade?

É.

Ninguém precisa ser um empregado. Qualquer ser humano pode fazer o que quiser.

No entanto, pagará um preço alto pela sua liberdade ou independência: não desfrutará das facilidades que o resto da humanidade dispõe. O preço da rebeldia é a miséria.

Ainda assim, ninguém obriga ninguém a ser uma peça de uma engrenagem fria e insensível.

Logo, quem o faz, o faz livremente. Logo, é como um mercenário, um soldado profissional que vende seus serviços a uma causa que não lhe diz respeito, que não o motiva, nem o impulsiona. Luta apenas pelo dinheiro, e nada mais.

Se vende-se por dinheiro, para ter os benefícios materiais de um mundo egoísta, o homem moderno, agora um mercenário, nem por isso deixa de ser uma larva, uma lagarta que apenas usufrui das soluções que outros se deram ao trabalho de resolver.

Então, se bilhões e bilhões de humanos não são de fato humanos, mas apenas larvas mercenárias fazendo trabalho especializado em organizações em troca de dinheiro para pagar seus pequenos prazeres mundanos sem usar de fato seus poderosos cérebros para resolver problemas importantes, quem são os verdadeiros humanos?

Se o que define o homem é sua capacidade de pensar e resolver problemas, e biologicamente quase todos os seres humanos nascem com cérebros perfeitos e capazes de dar soluções para muitos tipos de problemas, por que todos esses seres humanos mentalmente perfeitos não são de fato humanos?

Há, entre os infinitos problemas que enfrentamos, duas categorias que podem ser definidas como sendo problemas do indivíduo e os problemas da espécie.

Trocar o pneu furado do carro é um problema para o indivíduo que terá que fazer o trabalho, mas não significa nada em termos tecnológicos, científicos e evolucionários. O pneu furado é parte de um processo maior de locomoção que sob o ponto de vista da espécie, poderia ser descartado se alguém, por exemplo, inventasse carros que flutuassem ou, melhor, inventasse um mecanismo seguro de teletransporte.

Temos milhões de pessoas reclamando de seus pneus furados, mas apenas algumas centenas delas realmente empenhadas em pensar o teletransporte.

Quem está realmente usando seus bilhões de neurônios tal como uma borboleta usa suas lindas asas? Os bilhões de seres mentalmente preguiçosos que optam pelo "princípio do prazer" ou o pensador solitário que se debruça nas madrugadas sobre coisas ditas impossíveis, impraticáveis ou irrealizáveis?

Lamentamos não termos tempo para nos preocuparmos com esses problemas maiores. Afinal, somos pobres mortais. Além do mais, para enfrentá-los é preciso talento, dom, genialidade, determinação, investimento de tempo, esforço mental e abnegação dos prazeres mundanos da vida dos quais não estamos dispostos a abrir mão. Além do mais, há organizações especialmente desenhadas para isso, para resolver esses problemas mais espinhosos, como a NASA, os laboratórios sofisticados das universidades, dos governos, das grandes empresas, os aceleradores de partículas que fazem coisas que sequer imaginamos.

Por que pensar nessas coisas complicadas e incompreensíveis?

A vida é curta e os prazeres mundanos são sedutores demais para que os deixemos de lado pelo trabalho de resolver problemas que de fato não são nossos, mas de gerações futuras que não sabemos se existirão.

E assim, vivemos nossas vidas de larvas.

Mas, então, um dia, uma noite, na verdade, olhamos com assombro para o vasto oceano de estrelas e nos perguntamos mesmo se aquilo tudo existe ou é apenas uma espécie de miragem colada no firmamento, como um cenário falso criado por algum deus brincalhão e de mau gosto para nos fazer de bobos.

O céu infinito, se for mesmo verdade, inquerimos, se for mesmo coalhado de planetas e estrelas e mundos sem vida e com vida, se esse céu for mesmo esse mistério que nos dizem os astrônomos, se ele permitir mesmo tantas possibilidades e promessas, não seria essa abundância infinita a solução para todos os nossos mais mundanos e corriqueiros problemas?

Há nele a resposta para tudo.

O que é a morte física de nossos corpos para civilizações muitíssimo mais avançadas que a nossa?

Poderíamos ser eternos, se tivéssemos acesso à essa fonte inesgotável de recursos e conhecimento.

Mas, então, é tarde, o sono chega, o lugar é escuro, faz um pouco de fio e precisamos dormir, porque amanhã há muito o que fazer: há uma reunião às nove da manhã, imperdível, e astronomia é assunto fora de cogitação.

Lagartas que somos, vamos dormir. 

Deixamos os problemas do cosmo e da eternidade para serem solucionados pelos humanos, que são borboletas.

A nós, larvas mercenárias, só interessa o comer da próxima refeição.

E, no entanto, somos definitivamente livres.

Como entender que nos recusemos a ser humanos?

Como entender que pareça mais prazeroso ser uma larva que uma borboleta?

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

A fragilidade do fogo

Narram os livros de História, e os de Antropologia, ainda mais fecundos, que talvez a primeira grande conquista humana tenha sido o domínio do fogo.

Acenda uma vela: é simples. Tome a vela na mão, acenda um fósforo ou um isqueiro, ou, ainda, vá até o fogão da cozinha e aperte um botão e terá uma chama eletricamente induzida. Ponha o pavio apagado da vela na chama firme até ele acender. Depois, apague o fósforo, solte o dedo do botão do isqueiro ou gire o botão do fogão e extinga o fogo.

Há muita coisa a dizer sobre esses simples atos. Eles são enganosamente banais.

No Brasil há fósforos nos supermercados, isqueiros em qualquer botequim ou lojinha de esquina, e praticamente um fogão em cada casa. Nos carros, acendedores elétricos fazem o papel de gerar o fogo mediante a incandescência de finas folhas de metal em cadeia.

O fogo, hoje, é frugal. Surge por algum espaço de tempo, por vezes alguns segundos, por vezes por meia hora, uma hora, no máximo, e cessa secamente, sem deixar rastros.

Prive-me, no entanto, dessas banalidades tecnológicas e direi a ti que não sei como se faz o fogo.

Quer dizer: sei teoricamente que nossos ancestrais usavam faíscas de pedras se chocando entre si, ou o calor gerado pelo atrito de gravetos cuidadosamente posicionados sobre plumas e pelugem, ou ainda que o recolhiam de incêndios naturais diversos, provocados por raios ou vulcões, ou pelo calor de alguma fonte sobre a qual não tinham controle. Sei ainda que uma lupa bem posicionada pode focar raios de luz de tal maneira que o calor gerado provoca o fogo.

Mas, sem o fósforo, o isqueiro ou o fogão, não sei fazer o fogo.

Nunca tomei em minhas mãos duas pedras e as bati em busca de faíscas. Nunca peguei gravetos secos no chão e fiz sair o calor e o fogo deles, nem por um único momento. No inverno, uso um aquecedor elétrico. No carro, uso aquecedor que obtém calor que vem do motor. 

Sem eletricidade, passo frio. Sem petróleo, passo frio ou calor. Sem fósforos, não acendo o fogão a gás. Sem isqueiro, não acendo velas, ou queimo papéis. Sem fogão, não cozinho meu almoço, nem fervo meu leite.

O saber prático sobre o fogo tirado das pedras está, não perdido, mas adormecido na humanidade civilizada a mais ou menos uns dois séculos, pelo menos.

No Brasil todo, temos duas ou três fábricas de fósforos e isqueiros. São empresas multinacionais que dominam o mercado. Provavelmente nem fabricam nada no país. Alguma fábrica em algum lugar do mundo produz bilhões de caixas de fósforos e isqueiros que abastecem todos os continentes. Nos sites dessas empresas, elas até relacionam endereços de fábricas no país, mas vá até esses endereços e não verá nada. São meramente endereços para atender a uma burocracia governamental que exige que tenham algum endereço registrado. O endereço existe. A fábrica propriamente dita, não.

Não tenho a mínima ideia de onde vem algo que me é absolutamente essencial.

Há centenas de maneiras de se gerar o fogo e ainda mais centenas de maneiras de se substituir o fogo e sua utilidade. O forno elétrico e o forno micro-ondas substituem o fogo no cozimento dos alimentos. A lâmpada elétrica substitui a luz do fogo. As casas nos protegem da ameaça dos outros animais humanos, já que praticamente não temos mais ameaças de ursos, lobos e onças. Fornos gigantescos fundem metais em usinas. Tratores e motosserras fazem a limpeza do terreno que o fogo fazia.

Mas sempre que me lembro de que por muitos milhares de anos tudo se resumia ao atritar de pedras, ao atritar de gravetos e à sorte dos raios, sinto um temor ancestral por não ter essa habilidade tão útil. Não sei também usar uma lança contra um alvo vivo ou inanimado, nem sei pescar sem anzóis de metal industrialmente fabricados. Não sei andar sem sapatos sem ferir os pés e não sei subir em uma árvore muito grande. Não sei trançar fibras nem colher ramas e bagos. Não sei quando uma erva é mortal ou comestível. Não sei como conservar um pedaço de carne sem o uso de produtos químicos e geladeira, e não sei como não ter cáries dentárias sem usar escovas de dente e fio dental. Não sei plantar, nem conheço as sementes que precisam ser plantadas. Não sei quando colher, nem como extrair o que é comestível daquilo que foi colhido. Não sei domesticar um búfalo, nem um camelo, nem uma rena. Nem sei como ordenhar uma cabra.

Jamais espere de mim que eu faça um queijo ou uma carne defumada.

Eu não sei fazer essas coisas.

Penso que tenho quase meio século de vida e não sei quase nada.

Frágil não é o fogo.

Frágil sou eu.