quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

A borboleta, o mercenário e a noite

Quando nasce uma borboleta? Ela nasce quando sua mãe a põe em forma de ovo ou somente quando rompe seu casulo de seda e estende suas asas para o ar que a acolherá para sempre, enquanto viver?

Um ovo de borboleta é o mesmo que uma borboleta?

Parece que não.

Parece que a existência de uma borboleta se dá quando ela passa a ser aquilo que em geral o são as borboletas: insetos com pares de asas das mais variadas formas e coloridas dos mais variados matizes, que voam belamente entre flores e folhas, e que nos encantam, inofensivas e frágeis.

Uma borboleta não se confunde com um ovo ou com uma lagarta.

E quando nasce um homem?

Ele nasce quando vem ao mundo, no seu nascimento formal, quando deixa a placenta de sua mãe no hospital, ou somente nasce quando se faz senhor da cultura de um povo, quando sai da puberdade e se adentra na sociedade dita produtiva e civilizada?

Mas tenho pensado que há algo no homem que lhe é único assim como há coisas nas borboletas que as fazem únicas e diferentes das larvas e dos ovos, que as precedem.

Em que um homem se diferencia de um chimpanzé ou de um gorila, ou mesmo de uma vaca em um pasto de um campo qualquer?

Muitos dirão que somos superiores, e de fato em certo sentido somos. Mas há um sentido em que somos apenas um pouco diferentes desses animais.

Do ponto de vista biológico, somos muitos semelhantes. Somos apenas mais uma variedade de primatas, e isso não significa vantagem, superioridade ou um grande abismo nos separando.

Do ponto de vista antropológico, somos realmente muito diferentes, porque temos cultura, e acumulamos conhecimento adquirido do passado por nossos ancestrais, o que nos ajuda a viver melhor do que viveríamos sem esse conhecimento.

Mas, animais não vivem ou mesmo pensam?

Não sabemos se pensam, mas vivem muito bem sem cultura. O que é a cultura exatamente?

Não precisamos definir cultura. Basta que tenhamos um exemplo para podermos ver as vantagens dela em nossas vidas: quando faço uma salada de alface, uso muita tecnologia até colocar a primeira folha em minha boca. Um macaco também pode comer uma folha de alface tal qual eu como, mas ele não tem como chegar à salada como nós humanos chegamos. Eles, os macacos, não se aprimoram em virtude do esforço de pensar sobre problemas que enfrentam. Se enfrentam problemas, possuem capacidade limitada de solucioná-los da maneira que nós humanos fazemos.

Mas, quando digo "nós, humanos" estou sendo generoso com a espécie. Na prática, a grande massa de seres humanos não soluciona quase nada. A grande maioria dos seres humanos simplesmente desfruta de soluções já disponibilizadas por um pequeno grupo de outros seres humanos que se deram ao trabalho real de enfrentar o problema e dar uma solução.

Todos os seres humanos são dotados de cérebros capazes de resolver problemas quase infinitos, mas em geral raramente se dão ao trabalho de fazê-lo.

O psicólogo austríaco Sigmund Freud analisou essa característica humana para evitar problemas e seguir o caminho mais fácil. Ele denominou essa tendência de Princípio do Prazer. Esse nome por si só já diz quase tudo. E mais: é um princípio quase universal na natureza, dentre os seres vivos.

Ninguém quer enfrentar problemas. Por que enfrentar o difícil se podemos ter o que desejamos pelo caminho mais fácil?

Assim, ao longo dos séculos, algumas centenas de seres humanos foram criando soluções para problemas humanos gerais de maneira que hoje a grande maioria das pessoas encontra-se em um modo de vida tal que podemos compará-lo ao da larva da borboleta. Elas vivem apenas como se fossem seres em um estágio para algo mais avançado, uma etapa não tão glamourosa quando ao da borboleta, mas necessária e real.

A maioria dos problemas humanos só pode ser solucionada mediante cooperação. Quase não há necessidade moderna que possa ser solucionada pelo próprio indivíduo. Fazemos as coisas das quais precisamos por meio de empreendimentos coletivos. Há organizações para tudo, e quase nada é feito fora de organizações.

Nas organizações, há a famosa "especialização do trabalho", tão bem relatada pelo economista Adam Smith, o pioneiro da ciência econômica. Nas organizações, os homens fazem apenas aquilo que precisa ser feito, e nada mais. E não precisa aprender mais nada além do que já sabe. Ele passa a ser uma peça de uma engrenagem.

É o homem livre para não ser uma peça dessa enorme maquinaria fria e indiferente à sua individualidade e sensibilidade?

É.

Ninguém precisa ser um empregado. Qualquer ser humano pode fazer o que quiser.

No entanto, pagará um preço alto pela sua liberdade ou independência: não desfrutará das facilidades que o resto da humanidade dispõe. O preço da rebeldia é a miséria.

Ainda assim, ninguém obriga ninguém a ser uma peça de uma engrenagem fria e insensível.

Logo, quem o faz, o faz livremente. Logo, é como um mercenário, um soldado profissional que vende seus serviços a uma causa que não lhe diz respeito, que não o motiva, nem o impulsiona. Luta apenas pelo dinheiro, e nada mais.

Se vende-se por dinheiro, para ter os benefícios materiais de um mundo egoísta, o homem moderno, agora um mercenário, nem por isso deixa de ser uma larva, uma lagarta que apenas usufrui das soluções que outros se deram ao trabalho de resolver.

Então, se bilhões e bilhões de humanos não são de fato humanos, mas apenas larvas mercenárias fazendo trabalho especializado em organizações em troca de dinheiro para pagar seus pequenos prazeres mundanos sem usar de fato seus poderosos cérebros para resolver problemas importantes, quem são os verdadeiros humanos?

Se o que define o homem é sua capacidade de pensar e resolver problemas, e biologicamente quase todos os seres humanos nascem com cérebros perfeitos e capazes de dar soluções para muitos tipos de problemas, por que todos esses seres humanos mentalmente perfeitos não são de fato humanos?

Há, entre os infinitos problemas que enfrentamos, duas categorias que podem ser definidas como sendo problemas do indivíduo e os problemas da espécie.

Trocar o pneu furado do carro é um problema para o indivíduo que terá que fazer o trabalho, mas não significa nada em termos tecnológicos, científicos e evolucionários. O pneu furado é parte de um processo maior de locomoção que sob o ponto de vista da espécie, poderia ser descartado se alguém, por exemplo, inventasse carros que flutuassem ou, melhor, inventasse um mecanismo seguro de teletransporte.

Temos milhões de pessoas reclamando de seus pneus furados, mas apenas algumas centenas delas realmente empenhadas em pensar o teletransporte.

Quem está realmente usando seus bilhões de neurônios tal como uma borboleta usa suas lindas asas? Os bilhões de seres mentalmente preguiçosos que optam pelo "princípio do prazer" ou o pensador solitário que se debruça nas madrugadas sobre coisas ditas impossíveis, impraticáveis ou irrealizáveis?

Lamentamos não termos tempo para nos preocuparmos com esses problemas maiores. Afinal, somos pobres mortais. Além do mais, para enfrentá-los é preciso talento, dom, genialidade, determinação, investimento de tempo, esforço mental e abnegação dos prazeres mundanos da vida dos quais não estamos dispostos a abrir mão. Além do mais, há organizações especialmente desenhadas para isso, para resolver esses problemas mais espinhosos, como a NASA, os laboratórios sofisticados das universidades, dos governos, das grandes empresas, os aceleradores de partículas que fazem coisas que sequer imaginamos.

Por que pensar nessas coisas complicadas e incompreensíveis?

A vida é curta e os prazeres mundanos são sedutores demais para que os deixemos de lado pelo trabalho de resolver problemas que de fato não são nossos, mas de gerações futuras que não sabemos se existirão.

E assim, vivemos nossas vidas de larvas.

Mas, então, um dia, uma noite, na verdade, olhamos com assombro para o vasto oceano de estrelas e nos perguntamos mesmo se aquilo tudo existe ou é apenas uma espécie de miragem colada no firmamento, como um cenário falso criado por algum deus brincalhão e de mau gosto para nos fazer de bobos.

O céu infinito, se for mesmo verdade, inquerimos, se for mesmo coalhado de planetas e estrelas e mundos sem vida e com vida, se esse céu for mesmo esse mistério que nos dizem os astrônomos, se ele permitir mesmo tantas possibilidades e promessas, não seria essa abundância infinita a solução para todos os nossos mais mundanos e corriqueiros problemas?

Há nele a resposta para tudo.

O que é a morte física de nossos corpos para civilizações muitíssimo mais avançadas que a nossa?

Poderíamos ser eternos, se tivéssemos acesso à essa fonte inesgotável de recursos e conhecimento.

Mas, então, é tarde, o sono chega, o lugar é escuro, faz um pouco de fio e precisamos dormir, porque amanhã há muito o que fazer: há uma reunião às nove da manhã, imperdível, e astronomia é assunto fora de cogitação.

Lagartas que somos, vamos dormir. 

Deixamos os problemas do cosmo e da eternidade para serem solucionados pelos humanos, que são borboletas.

A nós, larvas mercenárias, só interessa o comer da próxima refeição.

E, no entanto, somos definitivamente livres.

Como entender que nos recusemos a ser humanos?

Como entender que pareça mais prazeroso ser uma larva que uma borboleta?

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