segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Objetos que caem

Todos os pequenos objetos que temos ao alcance das mãos podem, se permitirmos, cair no chão sem a menor dificuldade. Eles caem às vezes por descuido. A queda das coisas físicas é uma coisa banal e não merece muita consideração maior, correto?

Então, um dia qualquer você está tranquilo em casa, sozinho, e de repente, ouve o som de um objeto caindo.

Imediatamente você tem seus sentidos despertados: o que caiu? E mais: por que caiu?

Coisas não caem sem um motivo. Todas as coisas que temos em casa estão em geral razoavelmente bem apoiadas em alguma superfície estável. Ainda assim, você não entra em pânico quando algo cai porque você sabe que em meio a centenas de pequenos objetos que temos em casa, alguns não estão suficientemente bem apoiados, bem escorados, bem afixados, e por causa de um vento, um sacolejo, um peso extra, esses objetos mal fixados podem cair sem aviso prévio, provocando susto, surpresa, e por que não, às vezes, uma pontada de medo.

O que o medo tem a ver com a queda dos corpos?

Por que negar que sentimos uma fisgada de medo quando algo cai sem que saibamos o porquê de sua queda?

Mas, o medo é algo irracional, e então, você decide ver o que aconteceu.

Um copo deslizou sobre uma fina película de água sobre o mármore da pia lisa e acabou caindo junto à louça suja. Um prendedor soltou-se, deixando cair um chinelo do varal de roupas. Afinal, um prendedor de plástico tem um mola em seu mecanismo, e essa mola faz pressão ininterruptamente durante a vida toda do prendedor. Ora, o plástico resseca-se com o tempo, com o sol e com produtos químicos e água. Um dia, o plástico trinca e parte, pedaços dele espirram para os lados, a mola voa, e o chinelo cai sobre a escova e sobre uma caixa de sabão em pó mais abaixo, na pia. Pronto: temos a explicação para uma queda inesperada, porém compreensível, e até razoável depois de sabermos o motivo dela.

Mas, e quando as coisas não funcionam desta maneira?

E quando um objeto cai sem uma explicação simples?

E quando um objeto parece, por uma causa desconhecida, comportar-se como que se desobedecesse às leis da Física?

Nessa hora, o coração gela, a boca resseca-se e o medo golpeia fundo.

Por que a quebra de uma das leis da Física nos provoca tanto pavor?

Por que tememos tanto o inexplicável?

Atrás de cada objeto que cai, há uma possibilidade remota, mas real, de que estejamos sob a ameaça de uma quebra das regras da normalidade. Mas sabemos que nada acontece por acaso, que objetos não têm vida nem vontade próprias. Eles não decidem cair. 

Eles são derrubados.

Atrás de cada objeto que cai, esconde-se o horror do desconhecido.

O que mais pode derrubar os objetos, senão as leis da Física?

Quão horrorosas podem ser as possibilidades se as leis da Física podem ser de fato quebradas?

Elas podem ser quebradas?

Ou não conhecemos assim tão bem as leis da Física?

Atrás de cada objeto que cai, há um mundo de saber e conhecimento prestes a cair junto.

A civilização moderna, com sua ciência e sua tecnologia, equilibra-se debilmente como um prato rodando sobre uma vara nas mãos de um hábil malabarista.

Um solavanco inesperado e tudo vem abaixo.

O que você pensaria se, depois de ter colocado um objeto qualquer em um lugar estável, poucos minutos depois, ao virar as costas, ouvisse ele caindo de uma maneira absolutamente impossível pelas leis da Física?

Atrás de cada objeto que cai, há um abismo de mistérios.

Eu suspeito que não conhecemos o que há nesse abismo.

Eu suspeito que mal conhecemos as leis da Física.

Eu tentarei explicar essa minha suspeita.

Prometo que tentarei.

2 comentários: