segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Os lugares onde moramos

Tenho uma memória relativamente boa para algumas coisas, mas falha para outras.

Por exemplo: tenho mais facilidade para memorizar números do que nomes de pessoas. Se precisar, memorizo uma sequência numérica relativamente longa, com até uns doze dígitos, mas uma pessoa precisa falar seu nome para mim pelo menos umas três vezes até eu memorizá-lo razoavelmente bem. E, após alguns anos, esqueço o nome até mesmo de pessoas com quem convivi muito proximamente, como colegas de serviço e amigos próximos.

Mas essas são falhas de memória consideradas banais. Nossas memórias possuem muitas outras surpresas escondidas, além desta que citei, a de predileção por isso em vez daquilo.

Um caso interessante de surpresa é a rememoração. Quer dizer, é recordar algo que havíamos a muito esquecido.

O que isso tem a ver com o título do tópico, que fala sobre os lugares que moramos?

Tem a ver, como veremos, e muito.

Nós podemos nos esquecer de detalhes, mas certas memórias são tão amplas e consolidadas que dificilmente nos esquecemos delas. Um exemplo de acontecimento, ou período de tempo, ou lugar, do qual quase nunca nos esquecemos é dos lugares onde já moramos um dia.

Há pessoas que nunca se mudam de casa. Outras mudam de casa, mas não de cidade. Outras mudam de cidades, mas não de estado. Outras mudam de estado para estado, mas nunca deixam o país. E outras ainda que chegam a morar em dois, três ou mais países. Por fim, há os que são quase nômades e nunca fixam-se muito em um único lugar por muito tempo.

As razões que levam as pessoas a mudarem são variadas e não falaremos delas aqui e agora, embora sejam assunto muito interessante, como veremos.

O que importa é que nós nos lembramos muito bem dos lugares onde moramos.

Obviamente, nos lembramos porque estivemos nesses lugares tempo suficiente para que nossas memórias se consolidassem. Não esquecemos porque o lugar onde moramos está armazenado em nossas mentes por meio de milhares de outras pequenas memórias, em um complexo que não se apaga tão facilmente quanto, por exemplo, um número telefônico, que guardamos por alguns minutos e depois esquecemos completamente.

Mas, eis a curiosidade: apesar de ser uma memória complexa, a lembrança que temos dos lugares que moramos é ainda assim sujeita a uma lenta e seletiva degradação ao longo do tempo. E, com o passar dos anos, vamos esquecendo coisas menos importantes sobre o lugar onde moramos, embora não nos damos conta dessa erosão silenciosa e contínua.

Mas então, um dia, sem querer, topamos com um pedaço de papel qualquer no meio de nossas coisas e lá está nosso endereço completo, de um lugar onde moramos a quinze, vinte anos atrás.

Claro, nós nos lembramos perfeitamente dessa época. Afinal, o que são quinze anos em uma vida? Parece que foi ontem que mudamos de lá.

Mas, eu não me recordava mais do nome da rua. Sei como chegar ao endereço em que morava, mas não me recordava mais nem do nome da rua, nem do número, nem do nome do prédio, nem do andar, nem do número do apartamento onde morei. Mas há mais coisas anotadas no velho pedaço de papel: há um CEP, um número de telefone, o número de telefone do local de trabalho, que deixei também a longos anos atrás, e há o nome do porteiro, do proprietário do imóvel que alugamos, e todo um emaranhado de coisas que surgem de repente com aquele pedaço de papel, e que sem ele, jamais nos lembraríamos por nós mesmos.

Mas, eis que fica a dúvida: o que foi feito dessas lembranças?

Elas sumiram ou apenas estavam perdidas em algum lugar de nossas mentes?

Elas parecem sumidas, porque jamais nos lembraríamos delas por esforço próprio. Se alguém chegasse e pedisse que eu me lembrasse do número de telefone que tive a quinze anos atrás, eu não seria capaz de fazê-lo.

Mas, quando leio em um pedaço de papel o mesmo número, junto com o endereço e as demais informações que formam em seu conjunto todo um contexto que de fato existiu, estranhamente eu percebo que aquele número não é de forma alguma estranho. Eu o recito como um trecho de uma frase, como um trecho de uma música, e ele me parece bem familiar. A sequência de números não me parece de forma alguma uma sequência aleatória e desconhecida. Ela é familiar. Daí que parece que ela, a memória do número, não estava definitivamente perdida em minha mente, mas apenas desconectada do contexto maior, e assim estaria para todo o sempre, caso não tivesse a ajuda do pequeno pedaço de papel para fazer o trabalho de resgate desse fragmento desgarrado.

Que poder têm esses pedaços de papel de juntar como imãs as centenas, milhares de partes que formam a memória de nossos passados? Como se dá esse estranho fenômeno?

Não sei, mas aposto que isso também intriga os neurologistas, e certamente há mais gente interessada nisto do que apenas eu e minha curiosidade inesgotável.

Por onde andei?

Em que lugares morei?

Eu sei.

Morei apenas em um país: no Brasil.

Morei em três Estados: São Paulo, Goiás e no Distrito Federal.

Morei em oito cidades: Conchal, Araras, Guaratinguetá, Anápolis, Goiânia, Ribeirão Preto, Brasília e São Paulo.

Morei em vinte casas diferentes.

Vinte moradias em quarenta e quatro anos.

São vinte endereços diferentes para serem lembrados. Isso dá em média dois anos em cada lugar.

De repente, fica óbvio que não é fácil se lembrar de lugares onde vivemos por tão pouco tempo.

De repente, fica óbvio que é pedir demais de nossas memórias que permaneçam, apesar da pouca importância de certas informações.

De repente, fica óbvio que a surpresa do fenômeno da rememoração é uma coisa interessante, mas que ainda mais interessante é tentar saber porque mudamos tanto ao longo da vida.

Quer dizer: por que eu mudei tanto de lugar a longo da vida.

Cada casa tem um endereço. Mas cada casa tem um porquê de nela termos ido morar, e um porquê de termos de deixá-la.

A história de nossas mudanças envolve e engloba a história de nossos CEPs e telefones esquecidos.

Esquecer o passado é, mais que um fenômeno neurológico, um fenômeno sociológico: mudamos por questões que vão além de nossas forças, e nossos cérebros precisam ocupar-se com o viver do dia-a-dia, e simplesmente não podem dar-se ao luxo de guardarem coisas que não são mais importantes.

Fascina-me as causas de nosso esquecimento, mas fascina-me também o zigue-zague que empreendemos nos mapas, um zigue-zague errático e aparentemente sem sentido.

Atrás do que estamos quando partimos de um ponto a outro e comandamos a nossos próprios cérebros que deletem aquilo que não se faz mais necessário?

Não sei. Cada qual com sua própria história de vida, e com seus próprios motivos.

Quanto a mim, gosto de recordar velhos endereços. Eles fazem parte de minha história pessoal, e como disse por aqui neste blog várias vezes, o universo não é feito de átomos, mas de histórias.

Vinte lares ao longo de um vida.

Quantos mais experimentarei viver?

O que nos dará de diferente a vida que ainda deveremos viver?

Não sei.

Mas, certamente vinte lares significam vinte boas histórias.

O que sei ainda sobre meu passado e meus muitos lares?

O que sabe você sobre os seus?

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